Afonso Lopes
Afonso Lopes

Disputa deve ganhar qualidade

A saída de Iris Rezende do processo sucessório quebrou a referência político-eleitoral e igualou as candidaturas

O deputado federal De­legado Waldir Soares é o líder das pesquisas pré-eleitorais. Quanto a esse fato, comprovado por uma rodada de dois institutos diferentes, Paraná Pesquisas e Serpes, e confirmado por um segundo levantamento do Serpes, já sem a menção à candidatura de Iris Rezende, não há qualquer dúvida. Então, apressadamente ou não, seria o caso de considerar o candidato do PR como o grande favorito para as eleições deste ano, em Goiânia? Sim e não. Sim, ele pode ser considerado como favorito neste momento. Não, Waldir ainda tem um longo caminho inédito a percorrer, e não se sabe como ele vai se virar diante de situações que ele desconhece. Mais do que isso, o deputado, que está em seu primeiro mandato, ainda não se tornou uma referência política. Ele é, o que não é pouco, apenas um fenômeno eleitoral — que poderá se firmar ou não ao longo do tempo de exposição.

Com Iris no processo sucessório, a presença de Waldir era menos notada pela divisão entre os dois do foco dos holofotes. Escolado, experimentado e inúmeras vezes testado, o peemedebista era a referência com a qual podia ser dimensionada a composição das preferências atuais do eleitorado. Sem Iris, é como medir o nível das águas de um rio sem a referência histórica. Nunca se sabe exatamente se está cheio ou vazio, se é muito ou se é pouco. A medida torna-se inconsistente, embora possa ser feita e tenha validade para o momento.

Enquanto havia Iris Rezende, Waldir Soares escapava dos ataques dos adversários. A partir de agora, e com a medição das pesquisas que o destacam, ele passa a ser “o cara a ser batido”. Antes, Iris ocupava essa posição como centro do alvo. Na melhor das hipóteses, Waldir figurava nas imediações, mas não no centro. Isso acontecia por causa da tal referência, que Iris tinha e Waldir ainda não tem.

Há uma característica histórica do comportamento geral do eleitorado goianiense que deve ser levado em conta: a disputa concentrada em torno de três nomes. Essa, digamos assim, “tripolarização” torna as coisas completamente imprevisíveis, e muitas vezes causa reviravoltas desconcertantes. Um bom exemplo desse tipo de imprevisibilidade foi registrado nas eleições de 2000. O candidato do PT, professor Pedro Wilson, passou a campanha ganhando pontos nas pesquisas, mas chegou na reta final apenas na terceira colocação. Apurados os votos, Pedro venceu o primeiro turno, e depois confirmou a vitória no segundo turno.

Não é só em Goiânia que esse tipo de disputa em torno de três can­didaturas centrais provoca surpresas. No Rio Grande do Sul, a disputa estadual quase sempre resulta nesse tipo de quadro. Em 2006, algumas horas antes da realização do primeiro turno, o então governador Germano Rigotto, que tinha boa avaliação como governante, liderava todas as pesquisas. Era dado como certo que ele estaria no segundo turno contra Yeda Crusius ou Olívio Dutra. Ficou em terceiro.

Essas alterações repentinas nas disputas acirradas em torno de três candidatos iguala as chances de todos. Além disso, não existem fatores que possam explicar a dança da maré da opinião pública. No caso de Goiânia, sem referências político-eleitorais, o jogo é ainda mais indefinido. Tanto pode se confirmar a eleição no rumo de Waldir Soares como alterar o quadro rapidamente, favorecendo outros nomes.

É por essa razão que há dificuldades para se criar um ambiente favorável à união/fusão de candidaturas, como seria o desejo da maioria da base aliada estadual. É claro que isso ainda pode acontecer, mas a questão central é que as dificuldades aumentaram com a saída de Iris Rezende. Isso se deve ao fato de que o jogo está no início porque foi zerado com a saída do peemedebista. Desde então não se sabe qual o formato de discurso que vai impactar e conquistar a maioria dos eleitores. Antes, a polarização com Iris ligava os holofotes para o concorrente. Agora, não. Como Waldir não é a referência política, embora seja uma referência nas pesquisas, a simples polarização com ele não é, ou pode não ser, suficiente para colocar um ou outro adversário sob a visão crítica do eleitorado.

A eleição goianiense pode ter ganhado um conceito diferente e bastante interessante. Provavelmente haverá uma queda na pressão emocional e um ganho de qualidade na discussão dos aspectos político-administrativos. Ou seja, candidatos com menos conteúdo, que abordem as questões superficialmente, vão correr muito mais riscos de terminar falando para poucos. Na outra ponta, o discurso que demonstre conhecimento de causa sobre questões objetivas que afetam diretamente a qualidade de vida da população, como mobilidade urbana, por exemplo, deve agradar uma boa parcela do eleitorado. Dizer que é contra isso ou contra aquilo não será o suficiente. O eleitor vai querer saber o que há a favor.

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