Afonso Lopes
Afonso Lopes

A diferença entre Collor e Dilma

Nenhum governante brasileiro foi mais odiado pela população que Dilma Rousseff e Collor de Mello. Cada um da sua forma, ambos caíram em desgraça por causa da situação econômica. Ele  foi cassado. Esse será o destino dela?

Ex-presidente Collor de Mello e presidente Dilma Rousseff: incompetência e corrupção são a marca deles

Ex-presidente Collor de Mello e presidente Dilma Rousseff: incompetência e corrupção são a marca deles

Quem viveu e sobreviveu aos duríssimos tempos de Fernando Collor desde a campanha eleitoral de 1989 até o final de sua Presidência, em 1992, tem clara lembrança de que existem muitas semelhanças entre aqueles momentos e o atual, da presidente Dilma Roussef. Mas também existem diferenças, a mais elementar delas bastante sutil, que resultam num quadro geral que poderá até terminar da mesma forma, mas por consequências bastante diferentes.

Nas campanhas, como de resto em praticamente todas elas, o roteiro central é invariavelmente o mesmo: favoritos sempre projetam um futuro imediato maravilhoso, cheio de melhorias e esperanças de amanhãs melhores. Quem corre atrás, faz exatamente o oposto, revelando quase sempre dias tenebrosos, de dificuldades e de correção de rumos. Nesse aspecto, Collor e Dilma protagonizaram campanhas roteirizadas exatamente na mesma linha otimista. Uma certa dose crítica contra os adversários imediatos – Collor contra Lula e Dilma contra Aécio. No mais, idênticos nas fartíssimas doses de pujança, bonança e um país quase tão maravilhoso quanto o próprio nirvana da cidadania plena.

Ambos também foram idênticos em seus primeiros meses de governo. Collor, que vendia a esperança de que tinha em mãos todas as armas eficazes contra o mal que assolava o Brasil naquela época, a inflação estratosférica que corroía salários e rendimentos médios e devorava reputações de moedas brasileiras como nunca antes na história do país, inaugurou-se como presidente e o seu mandato de primeiro civil eleito diretamente pela população após o regime militar de 1964, com um conjunto de medidas econômicas duríssimas. A principal delas, um inédito confisco do dinheiro da população que dormitava em contas correntes e nas cadernetas de poupança. Na campanha eleitoral, obviamente, ele jamais admitiu nem de longe que cometeria tal impropério. Ao contrário, sugeriu o tempo todo que o desrespeito às regras do jogo econômico era objetivo de Lula, seu adversário.

Dilma, ainda no final do mandato passado, mas especialmente no início deste, também sacou a caneta da maldade, e distribuiu um pacotaço que igualmente surpreendeu não somente seus eleitores, mas também aqueles que não votaram nela. O Brasil do crescimento acabou numa canetada só, e surgiu em seu lugar uma recessão tão brutal que poderá perdurar por, na melhor das hipóteses, dois anos, algo que não ocorre no Brasil há quase um século – entre 1930 e 1931.

Outra enorme semelhança entre o meio mandato de Fernando Collor, que durou pouco mais de dois anos, e o início deste segundo mandato da presidente Dilma Roussef é a inundação de sérias, contundentes e profusas denúncias de corrupção. No caso de Collor, o mar de lama começou a aparecer através de um braço de governo que sequer tinha mandato ou cargo público, o seu tesoureiro de campanha, o empresário Paulo Cesar Farias (falecido num inquietante caso que ceifou a vida também de sua namorada, Suzana Marcolino alguns anos depois), e teve sua apuração iniciada dentro de CPI do Congresso Nacional. O abalo definitivo do império colorido ruiu com delações de um motorista e de seu irmão, Pedro Collor (também falecido, por causas naturais).

Com Dilma, as denúncias começaram durante o primeiro mandato, se intensificaram no final do ano passado, e explodiu de vez como um vulcão ativo desde o começo deste. Em ambos os casos, além de enriquecimentos ilícitos em meio a esquemas bilionários fraudulentos, denúncias de uso indevido de dinheiro sujo nas campanhas eleitorais. Tudo muito semelhante, cada qual com suas particularidades.

Com tantas coisas e fatos exatamente iguais, é possível imaginar destinos idênticos para os mandatos em questão? Collor foi cassado. Dilma, neste momento, vive sob essa ameaça. As semelhanças param por aqui. O desfecho, sim, poderá ser igual, mas as motivações, além das coincidências, estão divorciadas do verdadeiro autor de um impeachment: a população.
Ao contrário do que diz o texto constitucional, não é o Congresso Nacional que cassa o mandato. É o povo. Collor sofreu o impedimento porque a população assim o exigiu, e se o Congresso não atendesse essa exigência, seria derrubado junto.

Naquela época, diante de uma crise econômica grave, mas principalmente sob a ruína do discurso da moralidade, arrasado por vendaval de denúncias em várias instâncias do núcleo central do poder, o mandato de Collor foi pulverizado pelas multidões nas ruas. Dilma também está diante de uma crise econômica brutal, e em escala piorada porque encontrou a casa relativamente em ordem, ao contrário de Collor que assumiu como esperança derradeira contra o monstruoso confisco permanente da inflação. E também enfrenta sérias denúncias de que o núcleo de onde emana seu poder é podre, muito embora, ao contrário de seu colega de infortúnio, não seja apontada como beneficiária direta de fortuna ilícita. Ela, não, mas o seu esteio político, sim, incluindo aquele que foi o principal responsável por sua ascenção ao Palácio, o ex-presidente Lula, seu “padrinho”.

Além disso, em outro aspecto Collor e Dilma estão distanciados um do outro em relação ao processo de impeachment que o primeiro sofreu e a segunda pode ainda vir a sofrer: a confiança na linha sucessória. O então vice-presidente de Collor, Itamar Franco (já falecido), gozava de ótima imagem perante a população, e se exibia publicamente como um político autenticamente mineiro em sua melhor expressão. O vice de Dilma é Michel Temer, que em termos de imagem se encontra a zilhões de anos-luz de distância de Itamar. Esse fato, inegável, tem um peso definitivo no estabelecimento da avaliação sobre as diferenças, respeitadas a época e inúmeras particularidades de cada situação, entre a cassação de Collor e a ameaça sobre o impedimento de Dilma. Aos olhos da população, a linha sucessória de Collor era absolutamente confiável. A de Dilma, não.

Há quem pregue e defenda a cassação de Dilma. Talvez seja a maioria da população. Mas é quase possível assegurar que a ênfase atual não é a mesma, sequer semelhante, a de 1992. Naquela época, a população queria despachar Collor. Hoje, provavelmente o que se gostaria mesmo é que a crise econômica fosse despachada, e como ela não tem sido efetivamente combatida, ao contrário, parece estar sendo incentivada pelo governo, o mandato de Dilma está se interligando com as dificuldades e desesperanças da economia. E, assim, sua cassação não pode ser descartada.

Independentemente de qualquer outra coisa, a maior diferença dentro de um panorama geral de muitas semelhanças entre o processo de impedimento de Collor e a possibilidade de impeachment de Dilma, é que a população queria e impôs o fim do mandato do primeiro, e está lavando as mãos em relação ao mandato da atual presidente. Não vai à luta pelo encerramento constitucional precoce, mas está pouco se lixando se isso acontecer. Ao mesmo tempo, e dentro dessa mesma ótica, se houver uma guinada na política de crise, dificilmente o impedimento de Dilma vai se concretizar. Ela tem condições de manter o mandato, mas não o prestígio. Esse está irremediavelmente perdido.

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Lily

Você não pode dizer que a maioria da população apoia o impeachment. Assim como há manisfestantes a favor do impeachment, há manifestantes a favor da democracia, do estado de direito e da presidente. Collor não tinha o apoio da população, mas Dilma tem. Votei nela assim como 53 milhões de brasileiros e exijo que a democracia seja respeitada, essa elitezinha com discurso de ódio e preconceito protestando pelo impeachment não representa a sociedade brasileira em sua totalidade.

William Muniz Melo

A maioria quer o afastamento dela sim!!! A maioria das pessoas que não querem são pessoas ligadas à sindicatos e outras instituições que eram mantidas pelo governo do PT, a minoria que não quer ou são beneficiados por algum programa, seja ela social ou artístico ou, alienados e apaixonados pelo partido.Entenda que pelo menos 40% dos votos que a elegeram são originários do PMDB, o maior partido do país, e o processo de impeachment é uma das maiores demonstrações de da democracia brasileira. Manter essa criminosa no poder e um partido a vida toda comandando o país é que seria… Leia mais

Kleber Martins

Aqui na região Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, regionais do Partido dos Trabalhadores estão fazendo chamamento aos “companheiros” para irem à Brasília, digamos que, para fazer “volume”. O detalhe deste chamamento é a forma como está acontecendo, as pessoas estão sendo avisadas de que não é preciso ter dinheiro, é só querer ir, o partido está financiando, engraçado não é?, fretam vários ônibus, pagam alimentação, hospedagem e etc… para pessoas irem até lá gritar pelo partido. Eu queria saber com que dinheiro esses malucos estão financiando isso…. sem fundamento… Tem pessoas por aqui indo passear em Brasília…… Leia mais

Olívia Muniz

UM POUCO DE CONTEXTO HISTÓRICO: Por que hoje é muito diferente do impeachment do Fernando Collor? Naquele contexto histórico e político os movimentos sociais se uniram e cobraram pelo “Fora Collor”. Não havia mero “descontentamento”, pois além dos confiscos das cadernetas de poupança, afetando diretamente a população, havia denúncia de corrupção envolvendo DIRETAMENTE o nome da primeira dama Rosane Collor e do Presidente Collor. O irmão de Collor, Pedro Collor, denunciou Paulo César Farias, o PC, tesoureiro de campanha, como “testa de ferro” do então Presidente Collor. Vários integrantes do governo saíram do cargo dizendo ter recebido propostas de PC,… Leia mais

Luciano Ferreira

Pqp…da vergonha ver que uma pessoa inteligente crê nessa debilidade. ..cut…mst?movimentos sindicais? Kkkk conta mais uma piada. …o Brasil tá ferrado e duvido que essa apuração ELETRÔNICA de votos (54 milhões como citado) seja legítima….bando de alienados

Lidiane Linhares

Os 54 milhões de votos só são ilegítimos pq foi para a DIlma…se tivessem sido para o Aécio ai sim…a eleição seria legítima..mta hipocrisia, quer dizer q agora a eleição só é legítima qndo o meu partido ganha? isso sim é uma vergonha, só n falo q é alienação pq acredito q seja mais q isso.

Lidiane Linhares

Os 54 milhões de votos são questionados só pq foram para a Dilma, se fosse o Aécio q tivesse ganho, a legitimidade das eleições n estavam sendo questionadas…mta hipocrisia, quer dizer agora q só é legítimo qnto meu partido vence? caso o contrário foi roubo… isso sim é uma vergonha, só n falo que é alienação pq acredito q seja bem mais q isso.