Afonso Lopes
Afonso Lopes

Desta vez os riscos existem. E são imensos

Tão logo foram confirmados os números da terceira derrota de Iris no confronto direto com Marconi, surgiram especulações sobre nova candidatura dele à Prefeitura de Goiânia. Será uma boa?

Na foto Iris RezendeCrédito: Renan Accioly

Iris Rezende é imbatível em qualquer disputa pela Prefei­tu­ra de Goiânia, certo? Pode ser, mas não se sabe realmente, com toda a certeza. Que ele entra como um dos mais fortes concorrentes, favorito inclusive, não há dú­vida, mas daí em diante o terreno des­campado vira selva fechada. O fa­voritismo inicial é muito mais pela fortíssima imagem de líder que ele mantém do que qualquer outra coi­sa. Em 2016, portanto dentro de a­pro­ximadamente 18 meses, inúmeros fatores vão estar em cena, e isso cri­ará situações inéditas na disputa. Neste momento, ainda no rescaldo das urnas de 2014, ele é, sim, um co­ncorrente sem adversários à altura.

Quando se debruça sobre as circunstâncias em que uma eventual candidatura de Iris Rezende vai se colocar as coisas se tornam bastante nebulosas. A começar pelo aspecto mais óbvio: ele será um candidato claramente de oposição ao governo de Paulo Garcia ou aliado a ele? Diante das péssimas condições em que se encontra a imagem do prefeito petista, o atrelamento da candidatura de Iris a Paulo fatalmente contaminará negativamente a imagem dele. Então, é de se supor que o líder peemedebista opte por um caminho alternativo, longe daquele que ele próprio entronizou na corte goianiense, o seu, por assim dizer, herdeiro do trono.

Essa processo para deserdar Paulo Garcia teria que ser milimetricamente negociado. Não é algo que se possa fazer abruptamente. Simplesmente, não da para melindrar a parte renegada. Uma palavra mal colocada, uma posição levemente equivocada ou exagerada e a fervura escapa do controle, e transforma qualquer ambiente assim quase inabitável.

Supondo que Iris tenha habilidade suficiente, e ele tem, para negociar bem esse distanciamento, e que Paulo aceite posar como herdeiro rejeitado, surge uma outra complicação. Como o eleitorado iria receber e reagir a essa novidade? Desde 2008, quando foram eleitos prefeito e vice, Iris e Paulo são como pai e filho. Mais do que isso, são como pai/ídolo e filho preferido. Em 2010, quando abandonou o cargo para disputar o governo do Estado, Iris nem olhou para trás porque estava certo de que deixava a Prefeitura nas mãos de seu escolhido. Em 2012, Iris foi o grande cabo eleitoral da eleição consagradora de Paulo, que venceu com sobras já no 1º turno.

Outro ponto perigoso é que o eleitor pode interpretar o gesto de distanciamento como oportunismo político-eleitoral, o que levaria a imagem de Iris a um conflito sério, já que ela está intimamente ligada à responsabilidade e maturidade administrativa. Iris não é, aos olhos do eleitor, um aventureiro. É um político estabelecido, maduro. Abandonar Paulo Garcia no processo eleitoral e dizer que não tem nada a ver com tudo o que está se passando na administração de Goiânia seria o mesmo que dar um sopapo nessa imagem.

A última alternativa nessa situação seria um rompimento formal, da maneira mais traumática possível, com a candidatura de Iris buscando incorporar completamente o espírito oposicionista. Mas aí ele teria que estar disposto a melindrar, e poderia ter que se submeter a uma campanha eleitoral imprevisível. É praticamente impossível imaginar Paulo Garcia no ataque até pelo seu jeito pessoal de lidar com as mais diversas situações, mas não é assim tão difícil prever que setores de seu governo iriam reagir. E reagir duramente, expondo os governos de Iris aos olhos do eleitor como num raio-x.

Um ensaio disso aconteceu no início deste ano, quando a crise financeira na Prefeitura explodiu e tornou-se pública. Em um dos muitos diagnósticos apresentados pela Secretaria de Finanças, foi indicada a origem de tantas dificuldades: a herança. Os governos Iris teriam produzido um rombo calculado em cerca de 400 milhões de reais. Ou seja, a administração Paulo Garcia poderia ser acusada de não ter debelado a crise, mas não a de ter causado o problema. Enfim, são cenários nada agradáveis.

E se Paulo Garcia conseguir se recuperar algo em 2015, e se tornar uma referência positiva eleitoralmente em 2016, como ficaria? O natural seria uma reedição repaginada da dupla Iris/Paulo, mas aí entram dois personagens: o PT e o senador Ronaldo Caiado, do DEM. Fatalmente, Iris teria que optar por um ou pelo outro, como aconteceu agora em 2014 na disputa estadual.

Enfim, desta vez Iris pode ter pela frente cenários adversos numa pos­sível nova disputa pela Prefei­tura de Goiânia. Nada, evidentemente, que não seja superável. O único fator realmente positivo para ele é que a base aliada estadual costuma ir para a disputa em Goiânia de maneira bagunçada, como se fos­se colônia de férias de bandos de adolescentes.

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