Afonso Lopes
Afonso Lopes

Desfecho em 2016 depende do ajuste em 2015

PMDB, maior bancada da base, se mantém em 2015, mas se a administração não se recuperar, divórcio poderá virar impeachment em 2016

Prefeito Paulo Garcia, se pudesse, apagaria o ano de 2014 de sua agenda política: precisa consertar a casa | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Prefeito Paulo Garcia, se pudesse, apagaria o ano de 2014 de sua agenda política: precisa consertar a casa | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Se pudesse, certamente o prefeito Paulo Garcia apagaria 2014 de sua agenda política. O ano foi um desastre completo. O pior, incomparavelmente, de seus quatro anos consecutivos de mandato – dois como herdeiro da renúncia do ex-prefeito Iris Rezende e dois como titular reeleito. A rigor, nada funcionou legal. Nem no campo político e especialmente no campo administrativo. Isso armou o discurso dos opositores, que exageradamente chegaram a comparar o caos em alguns setores atualmente com o desastre completo e definitivo que a cidade viveu nos anos 1980, durante a administração de Daniel Antonio, que carregou também um fortíssimo componente político.

Somente agora, no apagar das luzes de 2014, já em ritmo de natal é que Paulo Garcia conseguiu pelo menos uma boa notícia. E ainda assim, meio-boca. O comando do PMDB, maior bancada da Câmara dos vereadores, emitiu claros sinais de insatisfação e de que poderia anunciar formalmente o rompimento com o governo de Paulo Garcia. Mais uma vez, e como sempre tem acontecido, Iris Rezende correu em socorro de seu parceiro petista e conseguiu, ao menos temporariamente, manter as coisas do jeito que estão até dezembro de 2015. Ou seja, o PMDB deu mais um ano de prazo para Paulo Garcia tirar a carroça administrativa do atoleiro.

Culpa – É um bom prazo, mas a tarefa não é tão simples assim. O reajuste no IPTU, que daria fôlego extra ao cofre vazio não virá. Quer dizer, virá, sim, mas em níveis civilizados, conforme a taxa de inflação. A Prefeitura trabalha também um empréstimo internacional no valor de 400 milhões de reais. Esse dinheiro seria aplicado no projeto Macambira-Anicuns, que mal saiu do papel e está totalmente paralisado. Outra montanha de dinheiro novinho em folha é esperado via governo federal para implantação do sistema BRT.

O problema pode estar justamente nessas prioridades. A Pre­fei­tu­ra, antes de grandes obras, tem que resolver questões basilares de qual­quer administração municipal. Por exemplo no que se refere à folha de pagamentos, que ainda se com­porta como uma fera indomável prestes a devorar o que resta de fô­lego no caixa. E também na questão do recolhimento do lixo, que tantos desgastes causou para a imagem administrativa de Paulo Garcia durante 2014. O lixo está sendo recolhido, mas a Prefeitura não tem um plano estratégico de estabilização duradoura desse serviço. O modelo atual, com participação da Comurg e de empresas privadas, foi implantado às pressas, no sufoco, emergencialmente. Esse provisório está ficando definitivo. Pelo menos, até que a próxima crise detone tudo novamente.

É exatamente nesse cenário bastante complicado que o PMDB ensaia se insurgir contra o parceiro petista. Na quinta-feira, 18, um dos caciques do partido em nível municipal admitiu em entrevista a um jornal diário, sem se identificar, obviamente, que o problema está na balança entre aqueles que reclamam que mantém poucas indicações na Prefeitura, leia-se cargos, e aqueles que estão satisfeitos. Ou seja, a aliança é pragmática no pior sentido não republicano, e não programática. E em “casa que falta pão, todo mundo briga e ninguém tem razão”. É este o caso.

Abrir completamente a folha de pagamento para satisfazer a fome por cargos pode ser uma solução fácil para Paulo Garcia, mas é a pior possível no conjunto geral da obra. Por sinal, uma das o­rigens da crise de governo en­frentada por ele é exatamente a explosão dos números da folha de servidores durante o ano, que ultrapassou as linhas do bom senso indicadas pela legislação em vigor. Curiosamente, em nível estadual, petistas e peemedebistas acusam o governador Marconi Pe­rillo de inflar a administração com excesso de servidores, mas os números oficiais de controle do governo federal indicam exatamente na direção oposta: dentre os Estados que conseguiram di­minuir a relação funcioná­rios/comprometimento da receita está justamente o Estado de Goiás. No mesmo período, e exatamente ao contrário disso, na Prefeitura essa relação disparou negativamente, comprometendo ainda mais um caixa em frangalhos.

No final das contas, a impressão que parte do PMDB goianiense passa é a de que usou a noiva do jeito que quis e agora, na hora de juntar as responsabilidades do casamento, não descarta voltar à confortável vida de solteiro como se os problemas não tivessem também, e talvez principalmente, o seu próprio DNA. A intervenção de Iris, de segurar e adiar qualquer rompimento, foi bastante justa. Para completar, ele tem agora que convencer os peemedebistas a ajudarem no trabalho de reconstrução daquilo que eles próprios contribuíram para destruir.

O secretário de Finanças, Jeovalter Correia, disse que haverá duríssimo ajuste fiscal agora em 2015. Ele deu até números para o tamanho do corte: 70 milhões de reais. Não parece tanto assim, a não ser que a referência, que ele não explicitou, seja mensal. Cortar quase um bilhão de reais durante o ano num orçamento como o da Prefeitura tem realmente certo peso. Se for um corte de apenas 70 milhões será gota de água na boca de um desidratado navegante errático de um deserto.

Uma coisa é certa: ou Paulo Garcia conserta a casa este ano, ou poderá ficar isolado em 2016, ano da sua sucessão. Nesse caso, haverá uma avaliação tanto no PMDB como nas forças aliadas estaduais, se será melhor eleitoralmente deixá-lo “sangrar” no comando da Prefeitura ou se um impeachment resultaria em alguma forma de lucro para um desses dois lados. O fantasma da cassação pode, sim, aparecer. Esse é o grande risco.

Deixe um comentário