Afonso Lopes
Afonso Lopes

Daniel Vilela tenta sobreviver à avalanche Caiado

Atingido em cheio por delação dos executivos da Odebrecht, deputado federal e presidente regional do PMDB Daniel Vilela ensaia reação ao crescimento de prestígio do democrata Ronaldo Caiado

Daniel Vilela durante entrevista ao Jornal Opção | Foto: Fernando Leite

A denúncia nem foi contra ele diretamente, mas a delação dos executivos da Odebrecht resvalou feio. O pai de Daniel Vilela, então prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito Vilela, teria negociado com a empresa repasse para as campanhas eleitorais de 2012, quando Maguito foi reeleito, e de 2014, na eleição de Daniel para a Câmara dos Deputados. Ambos desmentiram os delatores, mas o estrago político nessas situações sempre são imediatos, e levam algum tempo para ser minimizado mesmo quando se comprova que nada errado tenha ocorrido.

O momento em que isso tudo aconteceu foi o pior possível. Daniel já enfrentava dificuldades para se firmar como candidato preferencial do PMDB ao governo do Estado no ano que vem. Seu nome, novidade para a esmagadora maioria do eleitorado, embora não necessariamente para o mundo político como indica sua eleição para a Presidência do PMDB em Goiás, perde feio em prestígio eleitoral para o senador Ronaldo Caiado, presidente regional do DEM, que é um dos políticos mais conhecidos no Estado.

Os problemas de Daniel não se resumiam à falta de densidade nas pesquisas internas. A vitória de Iris Rezende para prefeito de Goiânia no ano passado, ao mesmo tempo em que seu pai, Maguito, encerrou seu segundo mandato consecutivo como prefeito de Aparecida, representou outra pedrada em seu projeto de candidatura ao governo. Iris é não apenas o maior aliado de Caiado dentro ou fora do PMDB, como também um arqui-rival do grupamento maguitista. Desde sempre se sabe que o prefeito e velho comandante do PMDB fará tudo e mais um pouco para levar seu partido a enxotar as candidaturas de um dos Vilela – Maguito sempre foi o plano B do grupo para o caso de Daniel não se firmar – mesmo que para isso precise apoiar Caiado como candidato pelo DEM. Após cinco derrotas, Iris sabe que o PMDB continua sendo o maior partido da oposição à base aliada comandada pelo governador Marconi Perillo, mas ele sabe também que seu partido não detém mais o monopólio do protagonismo eleitoral e, por consequência, não é absurda hoje, como foi no passado, a tese de que o partido poderá ser caudatário de uma chapa ao governo liderada por algum opositor filiado a um aliado do PMDB. É o caso de Ronaldo Caiado com o seu Democratas.

Resta a Daniel Vilela um derradeiro fôlego para manter viva a sua pretensão. O grupo anti-irista dentro do PMDB sofreu algum abalo com as vitórias eleitorais de prefeitos como Adib Elias, em Catalão, e Ernesto Roller, em Formosa. Eles não tem arestas em relação a Iris Rezende e igualmente circulam sem problemas junto aos maguitistas. E essa condição faz desses prefeitos uma certa referência com bastante peso diferenciado na disputa entre maguitistas e iristas. Nas últimas semanas, ambos fizeram declarações que foram comemoradas pelos caiadistas, apesar de terem surfado na superfície das teses de 2018. Em jogo duro, até lateral é disputado a tapas e pontapés. Ou seja, mesmo com a bola no meio de campo a torcida vibra em qualquer lance.

De qualquer forma, o que se percebe, pelo menos numa visão fora dos bastidores do ambiente da alta cúpula dos dois grupos, é que Daniel tenta se recuperar da pasmaceira que abateu sobre sua pré-candidatura. Até por falta de opção no seu grupo. Se a delação não o atingiu diretamente, e ainda assim provocou estrago inegável, seu pai, Maguito, o plano B, foi pego no núcleo do incêndio odebrechtiano. A denúncia foi contra ele, diretamente. Não se sabe até que ponto esse fato o atingiu em termos de popularidade. Até então, seu nome sempre foi o de maior densidade estadual dentro do PMDB. Mais até de Iris Rezende, que é fortíssimo na capital, mas perde cada vez mais espaço além das fronteiras de Goiânia.

Daniel articula movimentos internos, especialmente com a boa bancada de prefeitos do PMDB – segundo maior contingente depois do PSDB. A esperança dele na sua disputa com Ronaldo Caiado é conseguir mexer com os brios históricos dos peemedebistas de raiz. Não é tarefa simples. Em outros tempos, os peemedebistas eram soberbos o suficiente para não aceitarem qualquer discussão sobre candidatura que não fosse com ficha de filiação do partido. A partir de 2014, com a eleição de Ronaldo Caiado na composição da chapa majoritária liderada por Iris Rezende, isso mudou bastante. Prova disso é que o democrata já teria superado as resistências quanto à sua filiação. Hoje, no PMDB, há quem defenda sua candidatura mesmo se ele continuar no DEM.

É exatamente esse o ponto que Daniel terá que quebrar. Ele sabe que o dano causado pela delação foi grande, mas não estrutural. A dúvida que fica é sobre a sua resiliência eleitoral, que jamais foi testada antes, mas que está em jogo logo numa pedrada como essa. Sua movimentação neste momento pode ser uma remontagem ou a etapa final da candidatura ao governo. E desta vez não há mais o tal plano B, o que pode ser bom para ele diante da falta de opção dos peemedebistas contrários ao eixo aliado Iris-Caiado, ou péssimo para os maguitistas se ele não conseguir ir além de onde está.

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