Augusto Diniz
Augusto Diniz

Damares é alvo de esquerda que não entendeu Racionais

“Sobrevivendo no Inferno” mostra por que brasileiro se identifica com Damares Alves, “terrivelmente evangélica” e pró-abstinência sexual na adolescência

Parte da esquerda não quer enxergar que criticar agressivamente a figura da ministra Damares Alves, da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, é cortar o diálogo com a população | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

O mesmo músico Mano Brown, que virou um símbolo para parte da esquerda brasileira, subiu no palanque do então candidato a presidente Fernando Haddad (PT) no dia 23 de outubro de 2018 e fez duras críticas ao Partido dos Trabalhadores. Aquela fala diz muito sobre como parte da esquerda trata hoje a ministra Damares Alves, da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

“Não consigo acreditar que pessoas que me tratavam com tanto carinho, pessoas que me respeitavam, me amavam, que me serviam o café de manhã, que lavavam meu carro, que atendiam meu filho no hospital se transformaram em monstros. Não posso acreditar nisso. Não posso acreditar que essas pessoas são tão más assim. Se em algum momento a comunicação do pessoal daqui falhou, vai pagar o preço.”

Leitura do momento

Mano Brown, há cinco dias do segundo turno das eleições presidenciais de 2018, descreveu com clareza e objetividade o que muita gente se negou a enxergar por muito tempo durante os governos petistas. “Porque comunicação é a alma. Se não está conseguindo falar a língua do povo vai perder mesmo, certo?” As palavras do rapper batem pesado até hoje em grande parte da esquerda que, fragmentada e ilhada em bolhas virtuais, passa dias e dias a se irritar em debates no Twitter que não leva os planos do campo progressista a lugar algum.

Ao contrário do que imaginam os lacradores e mitadores das redes sociais na internet, a população tem sido atingida diretamente por um discurso de massa e bem realizado nas bases comunitárias. E não é pela esquerda ou por seus coletivos de representação partidária ou não-partidária. São os representantes das igrejas pentecostais e neopentecostais que chegam em rincões e periferias que o Estado não assiste. Onde falta luz tem uma porta aberta e uma liderança religiosa para ouvir aquela população que precisa de alguém para lhe escutar.

Quem chega?

O asfalto não chega, mas a palavra de Deus, o discurso da esperança e o trabalho social dos pastores consegue abertura e espaço para se fazer presente. Se as políticas públicas esquecem do povo pobre e negro marginalizado, os religiosos não se furtam de chegar a quem não tem mais esperanças de se sentir gente. E é justamente aqui que a esquerda deveria ter prestado atenção naquele disco de 1997 dos Racionais MC’s, o “Sobrevivendo no Inferno”.

Foi a primeira vez na música brasileira que a periferia falou sobre ela mesma com tanta propriedade e soube fazer uma leitura do mundo excluído das políticas públicas e programas de governo com muito mais propriedade do que muitos estudiosos. E não é nenhum demérito aos mestres e doutores das ciências das humanidades. Apenas uma constatação de que Mano Brown, KL Jay, Ice Blue e Edi Rock já diziam há 22 anos o que a esquerda no Twitter esquece de observar. Ou não consegue compreender.

Louca?

Quando alguém chama de louca a pastora e ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos Damares Alves porque ela diz que viu Jesus na goiabeira, a única coisa que essa pessoa consegue, além meia dúzia de likes e compartilhamentos nas redes sociais, é afastar aquele com o qual deveria tentar dialogar. Quem lê um comentário assim e se sente ofendido defende o direito de Damares acreditar na manifestação pessoal de sua fé, mesmo que não acredite que seja possível o filho de Deus ter aparecido no alto de um pé de goiaba para outro cristão.

Apesar de ser distante de qualquer chance de comprovação que trabalhar abstinência na adolescência evite a gravidez precoce e indesejada para jovens em idade do ensino fundamental ou médio, não é com a chacota que essa esquerda digital irá conquistar novos adeptos ou se fazer compreender. Basta olhar o alto nível de concordância dos brasileiros com a possibilidade de se criar uma política pública que peça para os jovens deixarem para transar na fase adulta. Não deu certo com a maioria deles, mas tendem a acreditar que será o melhor para conter o borbulhar hormonal da puberdade.

Equívoco básico

Chamar Damares de “louca” é esquecer a figura que fica para a maior parte da população: uma mulher vítima de violência doméstica e sexual que sobreviveu aos abusos sofridos na primeira fase da vida, que deu a volta por cima, toca um projeto religioso e de evangelização de indígenas, inclusive com a adoção – que pode ser vista como conturbada e não tão bem explicada – de uma filha índia. Quem vê na ministra uma igual se identifica com a história de superação da titular “terrivelmente evangélica” do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Pode, e deve se criticar diversas das ideias de políticas públicas apresentadas até hoje por Damares à frente do cargo. Mas a discussão dos equívocos apresentados até aqui sem o devido parecer técnico que justifique sua aplicação não abre precedente para humilhar, tripudiar e ridicularizar a ministra.

É preciso lembrar que tratar Damares como uma pessoa fora de sua razão é entender que uma parcela mais do que considerável do eleitorado brasileiro que não embarcou mais no projeto do PT de continuar no poder e se afastou da candidatura de Fernando Haddad e de outros presidenciáveis de esquerda justamente porque se viu tratada com desdém por uma suposta elite intelectual e cultural brasileira não merece respeito.

Escutem de novo

Por mais absurdo que pareça o discurso do “meninos vestem azul e meninas vestem rosa” após a posse da ministra, cabe às mais diversas alas partidárias, independente da ideologia ou projeto político, compreender que milhões de brasileiros concordam com a fala de Damares. Por quê? Dialoguem com a população para compreender. Façam o trabalho de base que a igrejas fazem ao abraçarem essas pessoas, irem até onde ninguém vai oferecer conforto, sua palavra, seus ensinamentos e um modelo de vida. É melhor entender o processo antes de apontar o dedo para o teclado e vociferar xingamentos e deboche.

É preciso interpretar o que dizem as 12 faixas de “Sobrevivendo no Inferno” para compreender onde mora a verdade sobre uma parcela enorme da população que encontra na religião uma esperança frente ao abandono e a frustração de ver seus filhos perdidos para o tráfico e o mundo da criminalidade. Será que o esquerdista lacrador do discurso bonito compreende que a guerra do nós contra eles não resulta na mudança dessa realidade?

Esquerda tuiteira

Enquanto isso, o projeto que você julga um equívoco, mesmo que em 2022 apresente resultados longe dos vendidos aos eleitores na eleição de 2018, pode continuar a triunfar ou dar esperança para novos salvadores da pátria, como o ex-juiz Sergio Moro, bem avaliado e tido como herói nacional, sem que ninguém atrapalhe os planos eleitorais da autointitulada “nova direita”. E o máximo que o lacrador da esquerda tuiteira conseguirá é ser aplaudido por meia dúzia de iguais.

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