Elder Dias
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Cuidado ao cravar 17 e fazer arminha em 22: você poderá estar votando em Datena

O apresentador de TV é a nova estrela do PSL e, segundo o presidente da sigla, chega para disputar a Presidência. Estaria o partido querendo fazer surgir um novo Bolsonaro?

Como o global Luciano Huck, José Luiz Datena é um veterano da televisão brasileira e agora parece também querer se credenciar como o “novo novo” da política nacional. Ele é a nova aposta do PSL – partido pelo qual se elegeu Jair Bolsonaro, hoje sem filiação – para a Presidência da República. Mas os flertes do apresentador com partidos não são novidade: a primeira filiação dele data de 1992, no Partido dos Trabalhadores, e desde então, sempre muito assediado, já assinou ficha de outros quatro partidos.

Datena começou sua trajetória profissional na comunicação pelo rádio esportivo, no início dos anos 80, ainda em Ribeirão Preto (SP), sua cidade natal. Lá mesmo foi para a frente das câmeras, na repetidora local da Globo, a EPTV (sigla para Emissoras Pioneiras de Televisão), como repórter. Ficou conhecido na década seguinte, como narrador e apresentador na TV Bandeirantes, onde desembarcou a convite de Luciano do Valle, chefe da equipe de esportes da rede. Comunicador nato e com boas sacadas, logo criou o “apelido” Band. As quatro letras foram adotadas praticamente como o nome oficial não só da TV, mas de todo o grupo da família Saad.

Datena pode ser "terceira via" entre Lula e Bolsonaro. Coluna das Dez -  Blog do Ricardo Antunes

Luciano Bivar, manda-chuva do PSL, e sua nova aposta para a Presidência: o apresentador José Luiz Datena | Foto: Reprodução

O novo século trouxe a Datena o status de celebridade da TV. À frente de programas como o Cidade Alerta (na Record) e o Brasil Urgente (na Band, sua casa atual), se tornou um dos maiores expoentes, ao lado de outro experiente jornalista, Marcelo Rezende (morto em 2017, vítima de um câncer agressivo aos 65 anos), do jornalismo populicial – um neologismo que esta coluna trata de criar agora para designar o gênero que prioriza mostrar o inusitado, o bizarro e o violento com a linguagem das ruas atiçando os instintos mais primitivos da audiência, principalmente ao tratar de casos de segurança pública.

Desde o sucesso do SBT com o Aqui Agora – que conduziu Celso Russomanno (Republicanos-SP) das batalhas por consumidores lesados diretamente para a Câmara dos Deputados, a audiência dos programas populiciais têm criado muitos políticos bons de voto Brasil adentro, e não só de repórteres e apresentadores: uma das suas consequências é a anabolização da bancada da bala, já que policiais, juízes e demais autoridades ligadas à Justiça e à segurança pública ganharam muito espaço nas TVs. Em Goiás, um exemplo emblemático é Waldir Soares, o Delegado Waldir (PSL), eleito deputado federal em 2014 com uma votação a qual nenhum político tradicional jamais tinha alcançado.

Uma das ironias é que José Luiz Datena, em seu começo de carreira, conquistou dois prêmios Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, uma das maiores honrarias da profissão nessa temática. O primeiro deles, foi uma menção honrosa no início da carreira, em 1983, com a reportagem “Fome na região mais rica do País”, pela TV Ribeirão (EPTV), sobre um lixão da cidade de Ribeirão Preto. O segundo veio em 1987, com a reportagem “Heróis da resistência, injustiça e perigo: menores trabalhando”, pela mesma emissora.

Por causa de sua imensa visibilidade e área de atuação, Datena se tornou sonho de consumo dos partidos políticos nos últimos anos. Mas a política sempre permeou sua história. Em 1989, foi demitido da Rede Globo por ter subido no palanque do candidato a presidente Lula na eleição presidencial daquele ano. Três anos depois, filiou-se ao PT e foi esquerdista de carteirinha, literalmente – sempre atendeu aos recadastramentos periódicos do partido –, por 23 anos, até 2015.

Naquele ano, então, filiou-se ao PP (hoje Progressistas) para disputar a Prefeitura de São Paulo, mas acabou desistindo depois de denúncias de corrupção contra seu partido, que era o mais envolvido, em número de políticos, nas investigações da Operação Lava Jato. Teve rápida passagem pelo PRP, em 2017, mas se filiou ao DEM em 2018, na intenção de compor chapa majoritária em São Paulo, para o Senado. Chegou a ter pré-candidatura lançada, na coligação com João Doria (PSDB), mas novamente abriu mão, dizendo “não estar preparado para a política brasileira”. Em março de 2020, lá estava o apresentador de novo assinando ficha de nova sigla, o MDB, para se lançar outra vez como pré-candidato – a prefeito ou a vice – a uma eleição em que novamente acabaria passando ao largo da prova das urnas.

Olho clínico
Agora é a vez do PSL do pernambucano Luciano Bivar, que se apressa em dizer que a pretensão é a de que a estrela da Band concorra ao Planalto no próximo ano. Depois de trazer para sua sigla aquele que seria o eleito para o maior cargo do País em 2018, não se pode menosprezar o “olho clínico” do deputado e dono do partido.

No papel de Batman nº 1 diante das câmeras, ninguém duvida que Datena carregue, potencialmente, uma montanha de votos. Ninguém é maior do que ele hoje no cenário populicial. Falando de Legislativo, seria facilmente recordista de votos para a Câmara. Já ao Senado, a chance existe, mas, com apenas uma vaga, o buraco é mais embaixo; na disputa do governo estadual, a coisa fica ainda mais complicada.

E para presidente? Além de avaliar a viabilidade eleitoral, há outros detalhas a serem observados. O primeiro é se há espaço para eleitores apostarem em um outsider depois da experiência no mínimo controversa com Bolsonaro. Mesmo porque, incrivelmente, o presidente depois de 30 anos de Parlamento e mais 2 anos e meio no cargo principal da República, ainda se porta como um outsider para tentar se reeleger! Ora, por que então o eleitor apostaria em outro, que não o original?

Avançando para outro ponto, de fato, um “novo Bolsonaro” é algo irrepetível na história brasileira. Nos dois aspectos: como fenômeno eleitoral, em uma sigla nanica e sem contar com o apoio da mídia – Fernando Collor foi eleito em 1989 também pelo minúsculo PRN, mas teve o apoio da imprensa, notadamente da Rede Globo (curiosamente, Datena era repórter da emissora naquele ano e foi demitido por ter subido no palanque do petista Lula em sua primeira eleição presidencial); e como personalidade, na junção do extremismo ideológico com o fundamentalismo religioso negacionista.

Por fim, é preciso que o próprio Datena pese os ganhos e perdas que terá entrando de vez no pantanoso território da política. Como relatado acima, ele já fez que iria e refugou várias vezes, tal qual Luciano Huck. Votos ambos têm, mas também carregam uma imagem e, com ela, uma imagem que lhes dá o confortável ganha-pão por meio de contratos milionários.

No mais, seria interessante ver como Bolsonaro reagiria a uma candidatura de alguém que, por várias vezes, o entrevistou e o próprio presidente tem – ou tinha, até o momento – como um aliado na mídia.

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