Afonso Lopes
Afonso Lopes

Crônica de uma derrota esperada

Final de 2013. Os partidos oposicionistas estão em guerra total pela hegemonia na oposição. O governo apenas esperou o momento certo para agir

Iris Rezende: mais uma derrota do peemedebista ao governo do Estado após uma série de erros | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Iris Rezende: mais uma derrota do peemedebista ao governo do Estado após uma série de erros | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Não é difícil analisar os fatos depois que eles acontecem ou, pelo menos, quando se encontram em estágio final. Velha história da onça morta. Hoje, por exemplo, é fácil demais da conta apontar para a infinidade de grandes e pequenos problemas que os opositores ao governo Marconi Perillo ou desprezaram, ou julgaram insuficientes enquanto problemas, ou simplesmente não os levaram em conta devidamente. E do outro lado, na trincheira palaciana?

O que se viu foi exatamente o oposto disso. Mesmo controlando a mais poderosa máquina eleitoral do Estado, Marconi se comportou ainda no final de 2013 como se estivesse permanentemente ligado a uma tomada de 10 mil watts, atento a tudo o que acontecia ao seu redor e de olho nas ações dos adversários. A diferença entre esses dois grupamentos políticos pode ser resumido dessa força: a oposição com autossuficiência vazando pelos poros, o governo sabendo — e fazendo — exatamente o que era necessário fazer para manter os exércitos inimigos a uma distância segura.

Não deu outra. Marconi não apenas foi reeleito para seu quarto mandato como atingiu sua maior votação proporcional. Aos opositores, todos eles, restou um gosto de terra arrasada na boca. Iris Rezende encerra sua carreira com sua pior derrota. Ele ainda pode se candidatar a prefeito de Goiânia mais uma vez em 2016, mas estará numa faixa de risco que precisa ser bem avaliada por ele e por aqueles que o cercam. Ele saiu desta campanha muito menor, inclusive em Goiânia. Perdeu aquela condição natural de unanimidade que ele tinha conquistado. Para voltar, teria que remar tudo de volta, o que nunca é fácil.

Vanderlan Cardoso (PSB), que não conseguiu na campanha toda mais do que um mantra repetido zilhões de vezes, o tal Plano de Metas — de certa forma, lembrou a candidatura do ex-deputado federal Barbosa Neto ao governo em 2006, com as “obras mega-estruturantes”. É bonito e dá uma roupagem academicista à mensagem, mas é argumento de mais para um eleitor que decide muito menos com a razão e muitíssimo mais com o coração e bolso. Ele perdeu o posto de comandante de um possível terceiro exército político no Estado. Comanda agora apenas um pequeno pelotão sem rumo. Não está descartado previamente para o futuro, inclusive próximo, 2016, mas é outro que vai ter uma correnteza toda pra remar. Desta campanha, bem conduzida na TV, ele saiu com imagem maior do que em 2010, quando passava a impressão de ser um candidato contra Marco­ni e manipulado pelos palacianos do então governador Alcides Rodrigues. Embora em um grupamento pequeno, ele agora está credenciado para se apresentar com carteira de identidade política própria.

O PT recuou aos anos de 1980, quando lançava candidatos apenas para marcar presença. Foi o pior desempenho do partido para o governo do Estado em muitos anos. E desta vez, ao contrário até dos anos 80, não encontrou respaldo nem entre os velhos aliados nanicos do campo da esquerda. É claro que a reeleição da presidente Dilma Rousseff, e a manutenção das prefeituras de Goiânia, com Paulo Garcia, e Anápolis, com João Gomes, dá um certo alívio, mas é coisa pouca, quase nada.

João Gomes não tem o mesmo caminhão de carisma construído pelo ex-prefeito Antônio Gomide em Anápolis, enquanto Paulo Garcia precisa desesperadamente de muito dinheiro para equilibrar as contas que herdou. E esse problema de Paulo é realmente sério. Em Brasília, Dilma vai ter que rebolar muito para não perder de vez o controle de seu próprio governo, e as ajudas federais tendem a diminuir pelo menos em 2015. A única saída é aumentar a arrecadação própria, principalmente através do IPTU e ITU, que está realmente defasado. Mas como conseguir recuperar anos de atraso nos valores com uma maioria na Câmara Municipal volatilizada pela redoma que se enxerga no Palácio do Cerrado?

Vanderlan Cardoso não vingou como terceira força, enquanto Antônio Gomide saiu menor do que entrou

Vanderlan Cardoso não vingou como terceira força, enquanto Antônio Gomide saiu menor do que entrou

Já Gomide terminou a campanha estadual menor do que quando se anunciou candidato no final de março e renunciou ao cargo de prefeito de Anápolis. Naquele início de ano ele tinha postura de candidato ao governo do Estado. Hoje, não. Ele foi uma promessa que não vingou. Ele tem alguma culpa nisso por ter se permitido uma convivência muito próxima com a mosca azul, que o picou, mas talvez o PT como um todo seja o maior culpado. Em 30 anos, o partido em Goiás não conseguiu ir muito longe. Nem nos grotões, onde há a inegável influência positiva da Bolsa Família federal, o PT está realmente estabelecido. Essa ausência praticamente total de base partidária, somada à falta de alianças, tornou-se uma mistura fatal eleitoralmente.

Enfim, os opositores em Goiás continuam cometendo os mesmos erros sempre, a cada eleição. E provavelmente o principal erro é menosprezar a extraordinária capacidade de Marconi Perillo de se reinventar, se reciclar e corretamente avaliar as situações. Em 2018, ele não será candidato ao governo por força da legislação. Mas desde já pode-se imaginar que qualquer candidato que for escolhido candidato ao governo em seu grupamento estará entre os favoritos. E se as oposições não levarem isso em conta, a alegria e o choro após as eleições vão continuar nos mesmos rostos e nos mesmos olhos.

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