John Coffey é nome do personagem magistralmente interpretado pelo ator estadunidense Michael Clarke Duncan (1957–2012) em “À Espera de um Milagre” (“The Green Mile”, EUA, 1999). Ele é um negro gigante que, condenado por estupro e morte de duas garotinhas brancas, enfrenta o corredor da morte no presídio de segurança máxima conhecido como Green Mile (ou “Milha Verde”, em português).

Paul Edgecomb, o diretor da prisão – interpretado por Tom Hanks –, acaba por descobrir que aquele homem atrás das grades é, na verdade, uma espécie de milagre divino, ao ser curado por ele de uma terrível e crônica cólica provocada por infecção urinária. Mas havia outro detalhe mais importante ainda: além de ter poderes sobrenaturais, Coffey é também um inocente com destino à cadeira elétrica.

Após entender o que ocorria, Edgecomb então tenta por tudo salvá-lo da execução. E, diante da negativa do condenado, busca convencê-lo: “No dia do meu julgamento, quando eu estiver diante de Deus e Ele me perguntar por que eu matei um de seus verdadeiros milagres, o que vou dizer? Que era o meu trabalho?”. A resposta: “Diga a Deus que foi um ato de bondade que você fez (…) Porque eu quero que acabe de uma vez. Eu quero. Estou cansado, chefe. Cansado de estar na estrada, solitário como um pardal na chuva. (…) Principalmente, estou cansado das pessoas sendo cruéis umas com as outras. Estou cansado de toda a dor que sinto e ouço no mundo todos os dias. (…) São como pedaços de vidro na minha cabeça, o tempo todo.”

Coffey, o gigante inocente e gentil, se dizia pronto para morrer por ter uma qualidade em quantidade infinita: a empatia. Em seus desígnios misteriosos, absorvia fisicamente toda a maldade do mundo. Cada crime que acontecia do outro do planeta era por ele sentido como a picada de uma abelha. “E tem sido assim todos os dias”, relata o negro ao amigo policial.

A condição peculiar e extrema de John Coffey dá, no mínimo, um bom exercício de imaginação: como seria se cada pessoa sentisse, como as próprias vítimas ou as pessoas próximas a ela, a dor de cada violência, maldade ou injustiça cometida?

O prisioneiro de Green Mille do romance de Stephen King pode ser descrito como um arquétipo desse sentimento que é tão caro e hoje em dia, parece ser também tão raro.

John Coffey, o gigante negro condenado injustamente à morte: arquétipo da empatia | Foto: Reprodução

O ser humano se desenvolveu como espécie em um período relativamente curtíssimo da história natural. Bastaram alguns milênios para se tornar dominante – e alguns poucos séculos (contemos a partir da 1ª Revolução Industrial) para manipular o planeta a ponto de deixá-lo praticamente inviável a si próprio (tema que daria outro artigo).

O leitor assíduo desta coluna sabe que por aqui se costuma discutir basicamente temas ligados à política nacional, mas é impraticável, no momento atual, que não fale de algo tão grave e tão explícito como uma guerra movida a tanto ódio por povos que são, em sua origem, irmãos.

O uso discursivo fez com que se acostumasse a considerar qualquer ataque contra judeus como antissemitismo. Portanto, a defesa da Palestina e a crítica a Israel, no momento atual de guerra, poderia levar a essa acusação. Com o decorrer dos séculos da história e os acontecimentos que os preencheram, houve um apagamento sobre um fato: tanto hebreus como árabes descendem do mesmo tronco genealógico. Como tantos outros, são povos herdeiros de Sem, filho de Noé, o construtor da arca que protegeu o homem e outras espécies do dilúvio, segundo as Escrituras Sagradas. Daí a nomenclatura “semita”, que hoje é incorretamente atribuída, geralmente, apenas a quem discrimina ou persegue judeus.

Tanto o antissemitismo convencional como a islamofobia – o preconceito contra os muçulmanos, adeptos do islamismo – estão, mais do que presentes, ressaltados durante estas semanas de uma guerra há muito anunciada, por conta dos extremismos cada vez mais crescente de ambas as partes envolvidas.

Desde 2006, quem manda na Faixa de Gaza é o Hamas, um grupo de religiosos radicais que em seu estatuto, desde a origem, prega a aniquilação de Israel. Com essa “plataforma de governo”, ganhou as eleições legislativas há 18 anos, vencendo o Fatah, o partido nacionalista laico da Palestina. Em Gaza, o Hamas tomou o poder de forma autoritária, como se previa, e, a partir de então, aboliu as eleições e alimentou o ódio aos vizinhos judeus, com a busca de seu extermínio, meta estatutária do partido. O grupo é ainda uma espécie de posto avançado dos interesses do Irã na região.

Do lado israelense, também se caminhou para o radicalismo. Benjamin Netanyahu, que assumiu como primeiro-ministro mais jovem da história do país, ainda em 1996, foi reconduzido ao cargo novamente em 2009 e depois outras vezes. Nunca foi – muito pelo contrário – um entusiasta dos Acordos de Oslo, que selaram um início de paz nas terras em disputa. O jihadismo do Hamas levou Bibi, como é chamado, a se radicalizar e endurecer sua política contra os palestinos cada vez mais. Por fim, em seu mais recente retorno ao poder, juntou-se com os extremistas de direita para conseguir as cadeiras necessárias no Parlamento.

É algo tão mórbido e doentio que, exposto imageticamente, cada expectador da guerra pode escolher sua cena mais dantesca

Por tudo isso, a paz é cada vez mais uma quimera no Oriente Médio, especialmente nesse enclave entre Líbano, Egito e Jordânia. Todos padecem, mas quem mais sofre são os mais novos. A guerra iniciada pelo ataque terrorista de 7 de outubro é horrorizada em nível máximo com a exposição das mortes de bebês, crianças e adolescentes. Só em uma ação do Hamas teriam sido mortos e decapitados 40 pequenos. Do lado palestino, as contas de corpos infantis já ultrapassaram há dias o milhar. Falavam, até sexta-feira, em mais de 1,5 mil crianças mortas.

É algo tão mórbido e doentio que, exposto imageticamente, cada expectador da guerra pode escolher sua cena mais dantesca. Mesmo evitando encontrar algo assim, a missão de quem trabalha com jornalismo nestes dias é implacável e este colunista abriu, quase que por acaso, um vídeo no qual um pai chega a um local que parece ser um abrigo com sacos plásticos nas mãos. O conteúdo das embalagens eram pedaços de seu filhinho. A sequência, de poucos segundos, não tem sangue, mas é de um horror torturante.

Escrever estas linhas aqui sobre este episódio solo não é uma ação que ocorre impunemente. É um sofrimento repetido para quem se coloca na pele daquele pai. É um instante de se vestir de John Coffey e ter a mente picada por um enxame de abelhas. E estamos aqui falando de uma cena. Uma entre milhares semelhantes que aconteceram nestas semanas e certamente estão ocorrendo ainda neste momento.

E, sim, estamos falando de apenas uma guerra. Há pelo menos mais uma dezena de conflitos em curso em todo o planeta neste momento. Alguns tão cruéis quanto este, mas que não têm a mesma importância para as potências mundiais.

Ser empático dói, e isso sem que precise ser aplicado o cenário resultante de terrorismo e de mísseis despejados aos milhares. A guerra, quando vem, é o polo oposto da empatia. Como o chefe Paul Edgecomb rapidamente percebeu, John Coffey estava muito certo em se sentir cansado.