Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

Como se posicionam os postulantes ao Planalto sobre o conflito na Ucrânia?

Pode parecer oportunismo, mas é bastante útil ao eleitorado saber como seu nome preferido para votar está dialogando com a crise na Europa

De olho nas eleições, pré-candidatos a presidente modulam seus discursos sobre o conflito na Ucrânia | Fotomontagem

A guerra eleitoral, no campo das ideias, não pode se alienar da guerra de fato – triste, sangrenta, mortal, abominável sob todos os aspectos, ainda mais em pleno século 21 – no campo de batalha. Nesse sentido, cada postulante à Presidência da República, bem como seus principais apoiadores – partidos, movimentos, lideranças –, tem adotado seu próprio tom diante da invasão da Ucrânia por ordem do presidente da Rússia, Vladimir Putin.

Alguns tacham esse tipo de posicionamento como oportunismo, mas não é assim que isso deve ser assim encarado: é bastante útil ao eleitorado saber como seu nome preferido para votar está dialogando com a gravíssima crise pela qual o mundo passa no momento.

Obviamente, além de pré-candidato, Jair Bolsonaro (PL) faz também as vezes de chefe de Estado, o que faz com que uma declaração sua sobre o conflito não tenha nada de opcional, portanto. Foi nesse papel que esteve com seu colega russo no dia 16 de fevereiro, em Moscou, a despeito de todas as recomendações da etiqueta diplomática em relação a se mostrar simpático a um governante que estava a ponto de levar seu exército a atacar uma nação soberana, e já, naquele momento, estando com mais de 200 mil soldados na fronteira. A frase “somos solidários à Rússia”, no entanto, esboçou mais como outra amostra ruim da retórica sofrível do presidente brasileiro do que como alinhamento político-militar.

Não que Bolsonaro não tenha afeição pelo estilo Putin de ser, como de resto se sente muito bem ao lado de outros líderes autoritários, como foi demonstrado dias depois, com o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, na sequência do pequeno tour pela Europa – o desejo era visitar o também direitista Andrzej Duda, presidente da Polônia, que alegou não ter agenda para recebê-lo.

Ao voltar, o brasileiro passou pelo fiasco evitável de ver a “brincadeira” alimentada pela base bolsonarista – a de que sua visita teria conseguido resolver o conflito europeu – virar fumaça, literalmente, com os primeiros ataques ordenados por Putin à Ucrânia. No domingo, 27, mais uma aparente trapalhada: em conversa com jornalistas, Bolsonaro disse que tinha conversado “há pouco”, “por duas horas”, com o presidente russo, principalmente sobre o comércio de fertilizantes russos, essenciais para o agronegócio nacional. A imprensa chegou a divulgar a declaração como uma ligação telefônica entre ambos, o que logo foi desmentido pelo Itamaraty e, no dia seguinte, pelo próprio autor das palavras descuidadas.

Em cima do muro?
Na verdade, Bolsonaro, que sempre prioriza o próprio nicho eleitoral antes mesmo de pensar no País que governa, não quer melindrar nenhum lado: uma parte de seus seguidores apoia a investida russa porque a Otan – que tem dado suporte à Ucrânia – representaria os “globalistas”; outra parte está contra a invasão, porque, juntamente com a China, a Rússia representa o “novo eixo”, o “comunismo sino-russo”.

Também por isso, no mesmo domingo, o presidente havia dito que o Brasil permaneceria neutro em relação ao conflito, sem tomar lado. Não foi o que ocorreu na Assembleia Geral Extraordinária da Organização das Nações Unidas (ONU): o embaixador brasileiro na ONU, Ronaldo Costa Filho, votou pela condenação da invasão da Ucrânia pela Rússia. Mais do que isso, devolveu o Brasil aos melhores tempos de atuação do Itamaraty, uma das referências mundiais em diplomacia – e tão vilipendiado na gestão de Ernesto Araújo como chanceler. “Interromper as hostilidades é apenas o primeiro passo para a paz sustentável”, foi uma das frases do discurso de Costa Filho. Veja o discurso completo em vídeo:

Principal adversário de Bolsonaro e líder das pesquisas de intenção de voto, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se pronunciou poucas vezes diretamente sobre o conflito. Uma delas foi em entrevista a uma rádio.

“É lamentável que, na segunda década do século 21, a gente tenha países tentando resolver suas diferenças, sejam territoriais, políticas ou comerciais, através de bombas, de tiros, de ataques, quando deveria ter sido resolvido numa mesa de negociação. Acho que ninguém pode concordar com guerra e a gente está acostumado a ver que as potências de vez em quando fazem isso sem pedir licença. Foi assim que os Estados Unidos invadiram o Afeganistão e o Iraque. Foi assim que a França e a Inglaterra invadiram a Líbia. E é assim que a Rússia está fazendo com a Ucrânia”.

O petista também fez uma postagem nas redes sociais, com o mesmo teor, mas aplicando ao dia a dia, conforme seu estilo: “A humanidade não precisa de guerra, precisa de emprego, de educação. Por isso que eu fico triste de estar aqui falando de guerra e não de paz, de amor, de desenvolvimento.”

Por outro lado, na contramão de Lula, a bancada do partido no Senado chegou a emitir uma nota, depois apagada, em que primeiramente condenou os Estados Unidos por sua “política de longo prazo” de “agressão à Rússia” e também a Otan, por sua “contínua expansão” sempre “em direção às fronteiras russas”. A bancada usou mais da metade da declaração nesse rumo, até que, do meio para o fim da nota foi ao ponto, dizendo que a “aposta” da Rússia na guerra “agride o direito internacional público e o sistema de segurança coletiva cristalizado na ONU”. Obviamente, os adversários reproduziram com intensidade a primeira metade do texto – o que faz parte do jogo político, ainda mais em ano eleitoral. Em suma: os senadores petistas viram a casca de banana adiante e fizeram questão de pisar.

Ciro Gomes (PDT) foi mais direto que o petista: “O Brasil deve repudiar, sem meias palavras, a invasão da Ucrânia pela Federação Russa. Trata-se de violação frontal do direito internacional, da Carta das Nações Unidas e do princípio mais básico da nossa tradição de política exterior”, escreveu no Twitter.

De todos os pré-candidatos à Presidência, no entanto, ninguém ficou mais “entusiasmado” com o assunto do que Sergio Moro (Podemos). Foram várias declarações e compartilhamentos em seu Twitter: desde o início da invasão russa, 20 de 30 postagens suas tinham alguma relação com o conflito. Uma delas consistia de uma nota de apoio à Ucrânia, assinada com outros três pré-candidatos: João Doria (PSDB), Felipe D’ávila (Novo) e Simone Tebet (MDB).

O Movimento Brasil Livre (MBL), que apoia Moro, também entrou em modo militância, enviando “emissários” para a fronteira da Ucrânia: o coordenador Renan Santos e o deputado estadual por São Paulo Arthur do Val. Segundo a dupla, levaram apoio e também dinheiro: “Mesmo com bolsonaristas e petistas cornetando, conseguimos arrecadar quase 200 mil para ajudar ucranianos”, anunciaram. Um velho e equivocado artifício que marca o grupo, porém, voltou a ser utilizado: a meia verdade. No domingo, Renan publicou uma foto de crianças em frente a um tanque de guerra. A legenda dizia “Ucrânia, 2022” – só que a imagem é de 2016 e acabou marcada pelo Instagram como “fora de contexto”.

O conflito fez o mesmo MBL entrar em confronto, não na Europa, mas em São Paulo. Integrantes do grupo protagonizaram cenas de MMA com membros do Partido da Causa Operária (PCO), de extrema-esquerda, no Rio de Janeiro, em frente ao consulado da Rússia. No Brasil de 2022, a paz também está distante e uma grande guerra eleitoral aparece no horizonte.

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