Augusto Diniz
Augusto Diniz

Com foco em 2022, Bolsonaro retoma pilares ultraconservadores para criar partido

Aliança pelo Brasil, nova sigla que o presidente e seus filhos tentam criar, é uma ode ao líder político sem qualquer vergonha de assumir discurso conspiratório e messiânico

Em evento repleto de integrantes do governo, Jair Bolsonaro lançou o partido Aliança pelo Brasil, que visa a reeleição de seu líder em 2022 | Foto: Reprodução/Youtube

Na busca pela construção de um caminho mais sólido para aumentar a possibilidade de estar no segundo turno das eleições em 2022, o presidente Jair Bolsorano se desfiliou do PSL e deu o primeiro passo para a criação do Aliança pelo Brasil, uma legenda para chamar de sua. Para tornar real a fundação de uma sigla guiada pelo bolsonarismo, o chefe do Executivo nacional lançou a plataforma da Aliança pelo Brasil em evento na quinta-feira, 21.

O discurso adotado pelo programa do partido se volta à raiz da plataforma política da família Bolsonaro. O presidente da República escancarou mais uma vez que o cargo eletivo que ocupa é uma missão que lhe foi dada. Uma missão divina?

“Há, na vida de uma Nação, momentos privilegiados, em que a vocação de um povo se descortina diante de seus olhos. Consciente de sua identidade, o povo inteiro se move, escolhendo seus próprios caminhos, na luta contra a injustiça e a tirania, para libertar-se do jugo da mentira por meio do conhecimento da verdade, cujo autor é Deus, que dotou todos os homens de direitos inalienáveis e fundamentais”, diz o primeiro parágrafo do programa do Aliança pelo Brasil.

A dita vocação messiânica de um povo deu abertura, inclusive, para que apoiadores fiéis voltassem a gritar “mito” em referência a Bolsonaro, como era comum nos eventos de campanha, e até antes da disputa eleitoral, durante o ano de 2018. O programa do novo partido, que ainda vai passar por etapas para ser criado, apela para um povo que reencontrou sua voz para se livrar da “opressão daqueles que, não satisfeitos em assaltar os cofres públicos, queriam até mesmo roubar-lhe a identidade e o espírito”.

Essa narrativa se apega a algo que é caro à sociedade neste momento: o combate à corrupção. Mas distorce a compreensão da atuação dos órgãos de controle e fiscalização, estruturais ou policiais, na verificação e punição dos crimes cometidos por agentes públicos. E mistura a defesa da retidão na vida, aliada ao cristianismo, com uma distorção do referendo sobre a comercialização de armas de fogo no Brasil, que foi realizado em 2005.

“O primeiro sinal foi dado em 2005, quando o povo brasileiro disse não à indecente proposta
dos donos do poder, que acenavam com a falsa promessa de uma ‘paz perpétua’, desde que os brasileiros entregassem suas armas e assinassem um pacto suicida para a abdicação do seu direito à legítima defesa.” Em seguida, a carta do Aliança pelo Brasil fala em negativa popular ignorada pelo estamento burocrático.

Palavras bonitas usadas com a intenção de criar uma releitura mentirosa dos fatos. O referendo não definiu uma venda irrestrita e livre de armas de fogo. Convocou a população a definir se seria possível ou não a comercialização. A posse e o porte de arma de fogo continua a existir no País.

O programa do Aliança pelo Brasil usa a violência, o narcotráfico e o crime organizado como motivos para levar as pessoas às ruas nas manifestações de junho de 2013, o que não é verdade. Depois dos primeiros movimentos contra o aumento da passagem no transporte coletivo em São Paulo, que se espalhou para Goiânia e outras cidades, os rumos dos protestos ganharam proporções gigantescas contra tudo e contra todos.

No meio do coro dos insatisfeitos, apareceu um pequeno grupo que defendeu sim as pautas colocadas pelo novo partido que tenta se viabilizar antes das eleições municipais de 2020. E é para esse grupo de pessoas que o programa do partido se dirige, aqueles dispostos a comprar um discurso que não traz luz aos fatos narrados. “Felizmente, para tudo há um limite, mesmo para um povo lúdico, paciente e cordial, como o brasileiro.”

É curioso ver o documento do ato inicial do partido chamar o brasileiro de lúdico. Seria o povo deste País constituído por um povo que tem como maior objetivo de vida o divertimento e não qualquer outra coisa? Em seguida, as críticas pertinentes a “promessas de participação e de
representatividade que jamais se concretizaram, sufocadas pelo jogo espúrio dos conchavos e das negociatas”, que levaram as pessoas às ruas em 2013, escondem uma realidade que também existe no governo Bolsonaro.

Não está o presidente da República excluído do processo de conchavos e suspeitas de ilicitudes no meio político. Por que Bolsonaro insiste em manter um ex-presidente estadual do PSL como ministro do Turismo mesmo depois de este ser indiciado e acusado de prática de crime eleitoral com o uso de candidaturas-laranja em Minas Gerais para se beneficiar na campanha de deputado federal e botar a mão na grana do fundo eleitoral?

Por que o presidente extinguiu o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), justamente o órgão que verificou a suspeita de movimentações financeiras atípicas no gabinete e nas contas do filho quando ainda era deputado estadual, o hoje senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ)? Curioso que na formação do partido familiocrata Aliança pelo Brasil, o primeiro vice-presidente será justamente Flávio.

Outro filho foi escolhido como vogal, um dirigente partidário. O homem mais novo da família, Jair Renan Bolsonaro, fará parte da estrutura de controle do partido do presidente. Ou melhor, do “mito”.

Espantalhos de campanha

Em junho de 2013, como em todo o Brasil, os goianienses foram às ruas em protesto contra a corrupção e os serviços públicos ruins: os problemas só aumentaram e Dilma personificou o desgosto popular | Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

Em seguida, o texto do programa do partido retoma a narrativa do pânico utilizado na campanha contra figuras ou modelos que não existiam no Brasil, mas que muita gente comprou como verdade e acreditou na hora de definir o voto em 2018. “Em 2014 e 2015, uma vez mais, o povo brasileiro levantou-se em defesa de seus filhos e seus valores, dizendo “não” ao socialismo e aos corruptos que trabalhavam para implantá-lo no Brasil”, alerta para a paranoia tratada aqui como verdade o texto.

Defender os filhos contra uma ameaça inexistente é algo que só vale para seguidor fiel. E é esse o eleitorado que Bolsonaro quer consolidado ao seu lado, aquele que aceita tudo que o líder indicado por Deus determina. “Por isso, em 2016, através da incessante vigilância e de manifestações constantes, o povo brasileiro começou a expulsão do socialismo do poder.”

Veja que, para o Aliança pelo Brasil, o processo de impeachment contra a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) era uma garantia das “condições sociais e políticas para a queda e punição de seus representantes mais corruptos, bem como para a contenção do projeto totalitário, encampado pelo Foro de São Paulo, de reconstruir na América Latina o que havia sido derrotado na União Soviética”. Você não leu errado.

O programa do novo partido bolsonarista conseguiu colocar no mesmo parágrafo as palavras socialismo, Foro de São Paulo, corruptos, totalitário e União Soviética. A pessoa precisa ser aluna ou adoradora de Olavo de Carvalho para cair em uma conversa para boi dormir dessas. Mas o problema é que estamos na era da pós-verdade, em que qualquer coisa dita em um aplicativo de mensagens como o WhatsApp, sem qualquer comprovação ou indício de veracidade, se torna uma realidade na cabeça de quem está disposto a acreditar.

Além de todas as mentiras e conspirações usadas para unir os adoradores de Bolsonaro em torno do projeto de poder travestido em projeto político, o texto continua com a informação de que houve um combate a um “projeto de poder revolucionário”. E aqui tenho de tomar todo o cuidado e explicar que a palavra travestido não é um xingamento, nem estou chamando qualquer eleitor do presidente da República ou o próprio ocupante do cargo de travesti. Não custa nada avisar!

O programa dá a entender que Bolsonaro, sem ser citado nominalmente, seria a solução para o povo retomar as rédeas de um governo guiado pelos “valores e os anseios nacionais”. Seriam esses os “valores fundamentais da alma brasileira”. A palavra fundamentais escancara a proposta ultraconservadora de criação do partido Aliança pelo Brasil.

“Agora, em 2019, um novo passo precisa ser dado: o da criação de um partido político que
dê voz ao povo brasileiro, que garanta a ele efetiva representatividade e que esteja em consonância com os anseios populares; um partido político conservador, comprometido com a liberdade e com a ordem, e que possa servir ao povo brasileiro como um instrumento seguro para a repercussão de sua voz, para a sua plena representação e para a realização de sua vocação, em harmonia com as tradições históricas, morais e culturais da nação brasileira; um partido político soberanista, comprometido com a auto-determinação, e não com os objetivos e com as falsas promessas do globalismo.”

Providência divina

Placa com nome e símbolo do partido cravados com cápsulas de balas de fuzis, pistolas e revólveres | Foto: Reprodução/Twitter

E no parágrafo que vem em seguida, a carta explica o que seria a “consonância com os anseios populares” ao citar a “Providência Divina” como o caminho que guia as bases e objetivos do partido. “Em primeiro lugar, a Aliança pelo Brasil reconhece o lugar de Deus na vida, na história e na alma do povo brasileiro, que é um povo religioso e solidamente educado nas bases do Cristianismo, em suas variadas vertentes e expressões”, define o programa.

No desdobramento das explicações dadas pelo texto, fica evidente que trata-se de uma compreensão de que o correto é aquele que segue o cristianismo como base religiosa, o resgate à construção histórica da identidade do brasileiro a partir dos europeus vindos para cá e da tradição judaico-cristã. A plataforma finge não existirem em nossos valores e formação de País as influências negras, indígenas e dos imigrantes de outras nações.

“Por esse motivo, o partido toma como seus os valores fundantes do Evangelho e da
Civilização Ocidental, herdeira do virtuoso encontro entre as cidades de Jerusalém, de Atenas e
de Roma.” Tudo que está fora do entendimento do partido ou não faz parte das formações humanas citadas deve ser ignorado na construção de um Brasil próspero, “ciente de que o povo brasileiro acredita que Deus é o garantidor do verdadeiro desenvolvimento humano, pois a dignidade da pessoa humana advém do fato de todos os concidadãos brasileiros serem filhos de Deus, dotados por Ele de direitos inalienáveis”.

E o entendimento da fé cristã como uma regra para salvar o povo de todos os males leva a mais uma proposta de mudança de paradigma que é preocupante. Até na interpretação do Estado laico o Aliança pelo Brasil propõe mexer. A ideia é tratar a junção entre Estado e cristianismo como algo esperado, “mesmo porque o povo é majoritariamente religioso e não pratica exclusão de Deus de suas vidas – logo, não devem fazê-lo seus representantes”.

“De fato, jamais a laicidade do Estado significou ateísmo obrigatório – como ocorre nos
regimes totalitários que perseguem a religião. A laicidade não revoga a História da formação de um povo, nem se confunde com ódio à religião. Essa interpretação, aliás, é exatamente um dos muitos sintomas do que foi apresentado na introdução: subversão, aviltamento e ultraje dos valores mais caros ao povo.”

Quando o partido propõe um resgate à memória, identidade e cultura do povo brasileiro, é uma retomada apenas do que interessa ao projeto de poder de Bolsonaro e sua família. “São aliados os patriotas do passado, do presente e do futuro, unidos por um vínculo moral e de lealdade à pátria.” Mas a “plena adesão à herança cultural de nossa nação” aos que a família Bolsonaro compreende como “fundadores e formadores do Brasil”.

“A restauração da cultura envolve, ainda, o reconhecimento a tudo que de bom herdamos de
outras nações, a exemplo das tradições lusitanas e hispânicas, do Direito Romano, da filosofia
grega, da moral judaico-cristã, e ainda aquilo que o Brasil pode aprender, no presente, com outros povos, com adaptação à nossa realidade e aos nossos valores.” Todo o resto é ignorado. Inclusive casa com o preconceito demonstrado desde a campanha com povos indígenas e quilombolas.

E volta a conspirações que caem muito bem para justificar um discurso vazio e radical de defesa de uma pessoa e ataque aos escolhidos como inimigos. ” Por isso, o partido se esforçará por divulgar a verdade sobre os males e os crimes das várias faces do movimento revolucionário, como o socialismo, o comunismo, o nazifascismo e o globalismo, ideologias nefastas que tanto mal causaram e ainda causam ao Brasil, à América Latina e a todo o mundo.”

Só precisam explicar como conseguiram juntar socialismo, comunismo e nazifascismo na mesma frase. Entre as ideologias nefastas, que são tratadas por Bolsonaro como todas de esquerda – por mais que o presidente entenda nazifascismo como um regime totalitário e autoritário de esquerda, nem a história, a embaixada da Alemanha no Brasil ou a nação alemã conseguem entender essa loucura olavista -, existe um antidoto para esse conjuntos de forças malignas. Esse seria o Aliança para o Brasil.

Família armada

Assim como o globalismo, não existe salvador da pátria ou mito. Mas o partido prega a defesa, ao mesmo tempo, da vida, da legítima defesa, da família e da infância. A legenda diz que repudia o abordo e a cultura da morte e ser contra o que chamam de “direitos sexuais e reprodutivos”. A mesma sigla defende que a legítima defesa por meio do acesso a armas de fogo é um “direito fundamental de todos os brasileiros”.

Quem contraria essa garantia viola os “direitos naturais da pessoa humana”. Além de interferir no direitos individual das pessoas e defender outros já existentes, o complemento vem na forma mais atrasada da defesa da família constituída por homem, mulher e filhos. “A Aliança pelo Brasil se compromete também com a defesa da família como núcleo natural e fundamental da sociedade e defenderá sempre o direito do homem e da mulher de contraírem casamento e de constituírem uma família.”

Defende o direito a escolher como educar os filhos, inclusive em casa. Nada espantoso vindo de um presidente que defende a não oferta do acesso ao ensino público para quem mora em regiões distantes no Brasil que não contarem com escolas particulares. Entre os combates que o partido se compromete a encampar estão a “erotização da infância” e a “ideologia de gênero”, ” lutando para banir completamente essa chaga ideológica de nosso país”. Que bom que o presidente quer nos proteger de ameaças que não existem! Me sinto confortado e seguro a partir de agora.

Alguém precisa explicar o que vem a ser “manter a integridade da língua portuguesa”. Tomara que não seja com a obrigação com gestos de continência à bandeira dos Estados Unidos. “Gerar pessoas realmente educadas” é um dos pontos mais hilários e sem sentido do programa do partido Aliança pelo Brasil, mas que atende perfeitamente aos fiéis eleitores que acreditam que Bolsonaro seja um “mito”.

No quarto objetivo, que é o da garantia da ordem, da representação política e da segurança pública, a primeira frase é no mínimo intrigante. “Nenhum país poderá se dizer próspero e fundado sobre a justiça enquanto bandidos estejam no poder – munidos de armas ou de canetas.” Mas não é o Bolsonaro que repetiu por várias vezes que bastava uma caneta Bic para mandar ou desmandar no governo? É uma autocrítica?

Quando o programa cita a necessidade de existir segurança jurídica, com apelo à defesa do “o cidadão empreendedor, gerador de empregos, e o cidadão pagador de impostos, que carrega o custo do Estado nas costas”, é colocada uma crítica à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de proibir a prisão após condenação em segunda instância.

“É imprescindível, aliás, o combate ao chamado ‘ativismo judicial'”, diz o texto do partido. Aqui o Aliança pelo Brasil evidencia que lutará para interferir nas decisões que discordar, principalmente as vindas do STF. Claro que não seria esperado que, em alguns casos, o Supremo legislasse por meio de sentenças. Seria mais fácil uma cobrança para que o Legislativo cumpra seu papel e não deixe vácuos de poder.

Inclusive, o interesse do presidente e seu novo partido é o de anular decisões do Judiciário “buscando mecanismos de restabelecimento da autoridade dos Poderes usurpados frente a qualquer iniciativa nesse sentido, a exemplo de mecanismos de suspensão de atos judiciais que invadam competências legislativas”.

“O partido apoiará iniciativas de diminuição da burocracia e medidas para a extinção de órgãos burocráticos, conselhos, comitês grupos de trabalho, comissões ou coletivos que realizem regulação e controle de matérias importantes sem o necessário debate democrático e legislativo.” A medida não só preocupa como já tem resultados negativos.

Vale lembrar que a mancha de óleo que atinge o litoral do Nordeste e chegou ao Sudeste não foi combatida com rapidez pelo governo federal porque o presidente extinguiu dois conselhos ligados diretamente à política de combate e controle dos danos causados por óleo ou petróleo no mar. A justificativa do Aliança pelo Brasil seria “diminuir o poder excessivo que hoje possuem os burocratas não-eleitos”. A intenção pode até parecer boa, mas esconde a tentativa de acabar com os órgãos de controle que atrapalham os desmandos do governo, inclusive na gestão Bolsonaro.

“Colocar os burocratas anônimos e não-eleitos sob o controle popular, através de mecanismos de transparência e de accountability, além da redução de seus poderes (especialmente para questões propriamente legislativas, mais graves e importantes para a vida da população) são
medidas de urgência democrática”, diz a carta do partido do presidente, que tem uma simpatia por legislar no Poder Executivo por meio de decretos e medidas provisórias. A defendida redução dos poderes dos mandatários eleitos passa também por uma restrição da caneta Bic no Palácio do Planalto?

Governos ligados ao crime

A Amazônia foi citada em uma linha, quando o partido defende a integridade territorial brasileira. Seria uma hipocrisia que o Aliança pelo Brasil discursasse a favor do meio ambiente. Bolsonaro não se interessa pelo assunto, inclusive prefere sucatear órgãos de fiscalização ambiental e adora defender grileiros.

“Atenção primordial será dada, pelo partido, ao combate aos crimes de corrupção, de
narcotráfico e de terrorismo, especialmente porque, no Brasil, esses três crimes desenvolveram-se intrinsecamente ligados, seja pelo fato de que a corrupção dos governos socialistas no Brasil sustentou narcoditaduras no exterior, seja porque essas narcoditaduras serviram de caminho para organizações terroristas, seja porque o narcotráfico brasileiro, favorecido pela corrupção, pela revolução cultural e pelo garantismo socialista, adota, ele próprio, feições e métodos do terrorismo.”

A repetição cansativa da culpa de todos os problemas do País ligados a uma ameaça do socialismo não será abandonada no discurso bolsonarista. Até porque o pânico causado por uma ameaça que paire no imaginário de seus eleitores é rentável para o presidente. Mas alguém precisa lembrar Bolsonaro que o Estado em que está mais do que evidente, inclusive pelo trabalho da Operação Lava Jato, que o crime organizado, as milícias, o tráfico de drogas e os governos caminham juntos – algo que a Aliança omite no texto – é o Rio de Janeiro.

O objetivo número cinco, da defesa do livre mercado, da propriedade privada e do trabalho, é tão genérico que nem tem como ser discutido. O assunto é uma incógnita tão grande para o bolsonarismo que o texto do item começa com “a Aliança pelo Brasil repudia o socialismo e o comunismo, em todas as suas vertentes, e se empenhará para que sejam reduzidos e, quando possível eliminados, os controles e as interferências estatais sobre a economia”.

A discussão deveria ser sobre a livre iniciativa do mercado, a redução da regulação do Estado, com amostras de como isso pode ser feito, mas o programa abre o assunto com ataques a invenções que só cabem no discurso de quem grita no evento de lançamento de um parido “a nossa bandeira jamais será vermelha”. Quem um dia ameaçou mudar as cores da bandeira do Brasil do verde, amarelo, azul e branco para vermelho?

“O partido repudia a luta de classes, geralmente oculta e inoculada sob uma interpretação torpe e falsa da expressão “função social da propriedade”, e as tentativas de coletivização da propriedade, que ignoram o direito natural de cada um ao que é seu.” Avisem aos que tentam criar o novo partido que a Guerra Fria acabou e o muro de Berlim, na Alemanha, foi derrubado há 30 anos.

E cita também que “o trabalho efetiva a criatividade do homem, pelo qual participa da Criação divina”. Isso é o programa de um partido político ou a elaboração da doutrina de uma igreja protestante? A Aliança pelo Brasil diz que esses são os pilares para a restauração nacional. O que a legenda deveria evidenciar é o projeto de continuidade e perpetuação no poder.

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