Afonso Lopes
Afonso Lopes

A canalhice política contra Goiás

Em delação premiada, o ex-senador petista Delcídio do Amaral admitiu que a CPI do Cachoeira foi incentivada por Lula como vingança contra lideranças goianas

Ex-senador petista Delcídio do Amaral testemunhou que Lula da Silva estimulou CPI como vingança | Foto: Agência Senado

A informação não é uma surpresa. O ex-senador pe­tista Delcídio do A­ma­ral, em depoimento ao juiz Marcelo Bretas, do Rio de Janeiro, admitiu que a CPI do Cachoeira foi criada com o objetivo de prejudicar as lideranças políticas de Goiás, Estado que sempre representou uma forte presença oposicionista em nível nacional. Delcídio disse mais. Contou que a CPI foi incentivada pessoalmente por Luiz Inácio Lula da Silva, que queria se vingar de Marconi Perillo por causa do Mensalão.

A estratégia funcionou durante um certo tempo até que se descobriu um elo entre Cachoeira e a Delta Construtora. Foi aí que a coisa desandou e fugiu do controle. A CPI, criada e embalada para funcionar contra Goiás, que Delcídio classificou como “CPI regional”, se transformou em CPI nacional. As investigações, que até então visavam somente autoridades goianas, de repente encontraram a ponta de um novelo muito maior, e que fatalmente, segundo Delcídio, desembarcaria no colo do governo petista e suas campanhas eleitorais. A solução foi esvaziar rapidamente a CPI. A vingança de Lula não completou o ciclo que ele esperava. Pelo contrário, abriu uma fresta sobre seu comportamento e as campanhas do governo federal.

Embora a maioria conheça os fatos que antecederam a instalação dessa CPI, não custa resumir o que aconteceu, e por que Lula transformou Marconi em seu inimigo.

Em maio de 2005, um alto funcionário dos Correios foi flagrado exigindo e recebendo propina de um falso empresário — na realidade, era um advogado contratado por um fornecedor da empresa estatal exatamente com o objetivo de flagrar o ato. A partir desse fato, desenrolou-se um enredo de segredos da alta corte republicana do início da era Lula, onde a propina era moeda corrente para sustentar maioria governista no Congresso Nacional. O processo se tornou conhecido como “mensalão”, neologismo criado por um dos principais acusados, o ex-deputado e presidente nacional do PTB Roberto Jefferson.

Em Goiás, o governador Marconi Perillo, procurado pela imprensa, disse ter alertado o presidente Lula a respeito desses “financiamentos” clandestinos que sustentavam e azeitavam a máquina política em Brasília. Ele disse a Lula que a denúncia de “mensalão” era verdadeira, e que havia chegado ao seu conhecimento por uma deputada de sua base.

Em Brasília, Lula considerou a declaração de Marconi como um dos fatores que contribuíram decisivamente para a instalação da CPI dos Correios, que resultou na abertura de muitos dos segredos da relação promíscua entre o Palácio do Planalto e a sua base de sustentação no Con­gresso Nacional. As investigações revelaram que o propinoduto do “mensalão” atingiu a antessala presidencial através do então ministro da Casa Civil e deputado federal licenciado José Dirceu.

Lula foi reeleito no ano seguinte apesar de todos os desgastes. No início, ele dizia que não sabia de nada e que tinha sido traído. Esse discurso mudou ao longo dos anos. Ao mesmo tempo, Marconi Perillo foi eleito para o Senado, onde ficou até 2010. Naquele ano, voltou para o Estado e se candidatou ao governo. Lula fez de tudo para impedir a vitória dele. Tentou impor a candidatura do então presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, pelo PMDB, mas não conseguiu impedir a supremacia de Iris Rezende dentro do partido. Ainda assim, na campanha, ele veio a Goiás pedir votos contra Marconi. Deu em nada. Marconi foi eleito.

Em 2011, o Estado enfrentava uma séria crise administrativa. As rodovias, abandonadas pelo governo anterior, estavam completamente esburacadas. Os hospitais públicos amontoavam doentes pelos corredores, muitas vezes no chão porque até macas faltavam. O caixa estadual tinha sido raspado até o último centavo e, de quebra, o governo anterior tinha deixado um “estoque” de 10 mil concursados aprovados para contratação pelo governo iniciado em 2011.

Foi durante o início da recuperação das finanças estaduais que Lula teve a oportunidade de se vingar politicamente, em meados de 2012. Uma investigação da polícia federal contra Car­li­nhos Cachoeira, apontado como chefe de um grupo que explorava jogos de azar clandestinos, serviu como pano de fundo para a criação da CPI do Cachoeira. Conforme o depoimento de Delcídio do Amaral, Lula estava por trás dessa operação.

A motivação da CPI — que na realidade era uma CPMI, reunindo Câmara dos Deputados e Senado — foi uma canalhice política que atingiu duramente todos os interesses da população goiana. O Estado ficou paralisado durante meses, com o governo acuado por um vendaval de denúncias escolhidas a dedo para vazamentos. A vingança de Lula estava em curso, e foi levada adiante sem medir consequência para Goiás até que se percebeu que o fogo se voltaria contra os tais “vingadores”. Marconi conseguiu sobreviver, mas o senador Demóstenes Torres não se livrou do julgamento político em Brasília, e perdeu seu mandato. Demóstenes era também um alvo a ser abatido na vingança de Lula.

Qual foi o custo do ano perdido de 2012 por Goiás por conta dessa vingancinha, desse capricho de Lula contra adversários políticos? É muito difícil dimensionar o prejuízo econômico, social e político. Mas, certamente, foi imenso. Os empresários, que estavam reiniciando planos de investimento em Goiás, adiado por conta das incertezas administrativas do governo anterior, se assustaram com o abalo da estrutura política durante a CPI. Ambiente político tumultuado não combina com investimentos novos. Lula se lixou para seis milhões de goianos, e focou somente nos seus objetivos pessoais. Goiás também perdeu, pelo menos naquele momento, o protagonismo político exercido pelo senador Demóstenes Torres.

Esses fatos agora são apenas história. Goiás permanece focado em seu futuro, e que ele seja cada dia melhor. l

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