Afonso Lopes
Afonso Lopes

Caiado começa no centro das atenções

Se a primeira impressão é a que fica, o goiano já se tornou, em duas semanas, referência no Senado

Se mantiver atuação implacável, mas sem perder a ternura da argumentação política, Caiado certamente se manterá em alta no Senado | Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

Se mantiver atuação implacável, mas sem perder a ternura da argumentação política, Caiado certamente se manterá em alta no Senado | Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

O paletó de senador caiu muito bem em Ro­nal­do Caiado. Vá lá que ele acumula experiência de vários mandatos como deputado federal, mas ainda assim sua aparição nas duas primeiras semanas na nova casa foi simplesmente notável. Na linguagem do futebol, ele não sentiu o peso da camisa.

É como se o Senado fosse o seu métier desde sempre. Incrível isso, e raramente observado mesmo numa casa como aquela, que reúne alguns dos mais brilhantes políticos brasileiros. Para ficar num exemplo entre os grandes, a estreia do senador Aécio Neves, há quatro anos, foi muito mais discreta. E não por falta de experiência no Legislativo federal, já que, além de ex-governador de Minas Gerais, Aécio chegou a presidir a Câmara dos Deputados em um de seus mandatos como deputado federal.

Em termos comparativos, talvez Caiado pudesse ter como rival nesse tipo de desempenho o seu ex-colega Demóstenes Torres, que igualmente conquistou seu espaço no Senado muito rapidamente, se tornando logo uma das principais referências no campo oposicionista. Mas a comparação acaba aí. Demóstenes era um especialista na área jurídica enquanto Caiado se espraia sobre a emoção política.

O melhor termômetro para se medir a influência de um senador numa casa, repita-se, lotada de referências, é o fluxo dos repórteres setorizados. Quando praticamente todos eles elegem alguém como fonte permanente de consulta e entrevista, então significa que ali está o cara.

Caiado tem sido esse cara neste início de legislatura. É claro que o fato de ser o líder da bancada do DEM faz dele uma referência natural, mas isso não é suficiente para explicar o vendaval que ele aprontou por lá. Afinal, a bancada do DEM tem somente cinco senadores. É nanica, embora o partido ainda seja um dos grandalhões da vida partidária brasileira.

Muito mais representativo, por exemplo, é o bloco parlamentar da maioria, composto por 18 senadores do PMDB e quatro do PSD. O líder desse blocão quatro vezes maior que a bancada democrata é Omar Aziz, e nem por isso ele é habitué dos repórteres que cobrem o Senado. Em outras palavras, Caiado tem aparecido por tudo o que fala na tribuna e faz no plenário, e não pelos poucos votos que lidera.

É óbvio que cada político tem uma característica de atuação, e isso não significa necessariamente que um trabalhe melhor do que o outro. Há senadores que praticamente não fazem um único discurso e ainda assim são autores de boas leis. Outros ficam praticamente na “moita” o tempo todo e produzem barbaridades para seus Estados no encaminhamento dos interesses que representam. A discrição, portanto, não é um mecanismo inteligente de se avaliar se o senador é bom ou ruim.

Caiado tem tido um bom desempenho por ter resposta pronta para todas as questões importantes do ponto de vista dos opositores ao atual governo. Na semana que passou, por exemplo, o líder do PT, senador Humberto Costa, levou para a tribuna um assunto que tem causado um certo e inegável incômodo no Palácio do Planalto, o impeachment da presidenta Dilma Roussef. Quem se dispôs a responder o líder petista foi exatamente Ronaldo Caiado, e ele o fez de forma politicamente bastante contundente e implacável. Uma resposta tão acachapante que Humberto Costa preferiu deixar o “recibo” em branco.

Caiado também bradou duro contra o presidente Renan Calhei­ros, que teria tirado cadeiras das oposições na composição da Mesa Diretora, uma velha tradição na casa. Com Aécio Neves, que também protestou, houve bate boca feio, que foi parar nas manchetes dos jornais no dia seguinte. No pronunciamento de Caiado, bem mais político, mas não menos contundente, Renan ouviu e ficou calado.

Ter começado o mandato bem, cumprindo o papel de opositor como apontou o resultado das urnas de outubro, com a vitória da presidente Dilma Rousseff, não significa que será sempre assim. Caiado, às vezes, simplesmente perde as estribeiras e passa uma imagem colérica. Na Câmara dos Depu­tados isso nunca foi considerado um pe­cado grave. No Senado é diferente. Se ele se mantiver como tem feito neste início, sen­do duro e implacável, mas sem perder a ternura da argumentação política, certamente se manterá em alta. Se exagerar, corre o risco de ver a sua ima­gem ir para o brejo da caricatura, como parece ter ocorrido com a imagem do deputado Jair Bolso­na­ro, que tem vo­tos em seu Es­ta­do, o Rio de Ja­nei­ro, mas que não lidera mais do que a si próprio em plenário.

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