Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

Bolsonaro dá uma de “Pelé versão Romário” e faz gol de placa

Até então tida como intratável, a incontinência discursiva do presidente começou a ser “curada” a partir de sua filiação ao PL

Frase de 2005 do hoje senador Romário deveria servir para guiar a conduta verbal do seu correligionário Bolsonaro | Foto: Reprodução

Era janeiro de 2005. Aos 39, quase quarentão, Romário já estava longe do craque que uma década antes havia assombrado o planeta e tinha liderado tecnicamente a seleção brasileira ao quarto título em Copas do Mundo, depois de 24 anos sem conquista. No entanto, com a grife que sempre tivera, se mantinha em atividade por grandes clubes. Naquele início de ano, estava sem time, depois de uma passagem frustrada pelo Fluminense que terminara no outubro anterior e muitos cogitavam que ele encerraria a carreira.

Pelé foi um que, em declaração, caiu na especulação e opinou que o ideal seria mesmo o “Baixinho” pendurar as chuteiras. Como era não só esperado como sua obrigação, pela polêmica e pelos personagens envolvidos, a imprensa foi atrás do artilheiro para repercutir a fala do Rei. Irritadíssimo e bem em seu estilo, o veterano mas ainda não aposentado deu uma resposta icônica ainda hoje:

— Na verdade, o Pelé, calado, é um poeta. (…) Ele como jogador foi o maior de todos os tempos, é o nosso rei, o nosso deus, mas ele tinha que colocar um sapato na boca, era (sic) melhor para ele.

Deixemos de lado aqui os aspectos afeitos à psicanálise, segundo a qual quando Pedro me fala de Paulo, eu passo a saber mais de Pedro do que de Paulo – e Romário era um colecionador de tiradas geniais, mas também muito mais provocador em suas frases do que Pelé em qualquer dia de sua vida.

A questão é que, se a verborragia dá palco, também dá a altura para a queda de quem nele sobe. “Palavra é prata, silêncio é ouro”, diz um ditado árabe do século 9, e pensamentos semelhantes se encontram em diversos compêndios doutrinários e de costumes. A Bíblia, em seu livro de Provérbios (10, 19), diz que “na multidão de palavras não falta transgressão; mas o que refreia os seus lábios é prudente”. Em outros termos, ainda, de uma reflexão parecida, ficar calado quando se é ignorante em algo de que outros estão falando vai dar ao sujeito, pelo menos, uma aura de atento observador, deixando o papel de ignorante ou idiota para um terceiro.

Jair Bolsonaro (PL) passou três anos de governo dando as mesmas declarações que fazia aos “CQCs” e “Superpops” da vida quando era deputado. Nunca demonstrou apreço por qualquer traço de liturgia do cargo presidencial no uso da palavra. Na pandemia, usou dela sempre para ignorar e/ou ironizar todas as normas e as orientações dos aliados mais próximos – e mais experientes na administração pública – sobre como lidar com a emergência sanitária.

Mais do que isso: dobrou a aposta inúmeras vezes e bradou aos microfones: “está superdimensionado o poder destruidor desse vírus” (sobre o então pouco conhecido coronavírus); “gripezinha” (sobre a Covid); “e daí? não sou coveiro!” (sobre o número crescente de mortes no Brasil); “é a vacina chinesa do João Doria” (sobre a Coronavac, fabricada pelo Instituto Butantan); “se você virar um jacaré, é problema de você!” (sobre supostos efeitos colaterais da Pfizer); “pessoas taradas por vacina” (sobre técnicos da Anvisa); e “minha filha não será vacinada” (sobre a vacinação infantil).

Cronologicamente, foi tudo e isso e muito mais. E nada disso fez a popularidade do presidente melhorar, obviamente. Pelo contrário, sua luta insana contra as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e especificamente sua posição refrativa à imunização lhe trouxeram impacto bastante negativo.

Até então tida como intratável, a incontinência discursiva de Bolsonaro começou a ser “curada” a partir da confirmação de sua filiação ao PL. Uma raposa como Waldemar Costa Neto, com o presidente da República entre seus quadros, não tem tempo nem voto a perder. Com gente muito mais pragmática do que ideologizada no comando das ações, o presidente e seu entorno passaram a ter à disposição pesquisas qualitativas que demonstraram o óbvio: as declarações, principalmente sobre a pandemia, iam na contramão do sentimento da maioria da população. Daquele jeito não dava.

“Patrimônio nacional”
E o ano eleitoral começou com um Bolsonaro bem longe de ser “paz e amor”, mas deixando a OMS e a vacinação em paz. É muito verdade que o próprio arrefecimento da pandemia no Brasil, curiosamente por conta da alta taxa de imunização, e a necessidade de tocar a vida adiante porque a grana está curta e é preciso correr atrás do prejuízo fizeram o povo deixar em segundo plano o luto pelas mais de 650 mil vítimas da doença. A memória curta como patrimônio nacional é um trunfo que só precisa ser manejado da forma certa pelos políticos – e aqui não me refiro especificamente a nenhum deles.

A atitude de falar menos groselhas é apenas um dos itens a considerar na melhora, acima da margem de erro, dos índices recentes das pesquisas eleitorais de Bolsonaro. Talvez tenha até menos influência do que o fracasso e posterior retirada da candidatura de Sergio Moro, o Batman justiceiro que foi sem nunca ter sido. Mas essa renúncia, ainda que forçada, é uma atitude fundamental para angariar eleitores além dos que já lhe são fiéis – lembrando que, até recentemente, o único objetivo de Bolsonaro parecia ser manter sua base radical.

Um episódio do canal Porta dos Fundos, “Porrada”, é muito emblemático para entender como isso funciona: um homem vai até a porta da casa do amigo tirar satisfação porque ficou sabendo que ele estaria saindo com sua ex-namorada. O outro o atende da parte de cima da casa (é um sobrado). O fortão, irado, grita para ele descer, porque “vou te moer na porrada!”. O outro, sensato, responde: “Peraí, tu tá querendo que eu vá aí pra rua pra tu me bater, é isso? Então não vou não, ué, tá maluco, Júlio!?”.

— Tá com medo, né, seu covarde de merda?

E a tréplica: “Tô com medo, mas não é nem isso, é que o argumento é ruim mesmo (…) se tu viesse pela questão da curiosidade seria diferente, ‘chega aí, meu irmão, cê não sabe o que aconteceu’, já tava aí te ouvindo!”. O interessante (e surreal) é como termina a história – sem spoiler, confira no próprio vídeo:

Seria algo que maquiavelicamente poderia ser usado pela equipe de Bolsonaro.

Em suma: o presidente não precisa (nem vai) deixar de ser o que ele é, só precisa parecer que deixou, e isso já lhe atrairá um novo velho público para seus números eleitorais. Grande parte da turma do “nem Lula nem Bolsonaro”, na verdade, só precisa dessa ilusão para virar só “nem Lula”. E veja, para tanto, basta o “mito” ficar… calado!

Se uma pessoa não tem nada a dizer sobre determinado tema, a regra que deveria lhe ser colada por dentro da testa, no meio da massa cinzenta, é aquele velho provérbio árabe: não abrir a boca soará bem mais lírico, como poderia dizer, hoje, o senador Romário de Souza Faria (PL) a seu correligionário de partido.

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