Elder Dias
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Bolsonaristas da bancada da Bíblia: fariseus em pele de cristãos

Por pressão religiosa, a vaga no STF deve ter um desfecho nada virtuoso, no qual a lei será atropelada pela política – e pelo discurso de ódio

Silas Malafaia e Jair Bolsonaro: religião não pode estar atrelada ao Estado | Foto: Reprodução

Ele prometia uma “bomba” para a segunda-feira, 11. Adiantava que havia dois ministros na mira do tiro, para usar uma expressão adequada ao bolsonarismo. Aliado do presidente, o pastor Silas Malafaia atiçava seu rebanho de véspera, sabedor que isso aumentaria a repercussão.

Acabou divulgando um vídeo centrando o fogo no ministro Ciro Nogueira. A grande questão-bomba? O titular da Casa Civil teria jantado com o senador Renan Calheiros (MDB-AL), um dos grandes desafetos de Jair Bolsonaro (sem partido, após dois anos) no atual momento. Esse e outros jantares tiveram, segundo Malafaia, o objetivo de promover uma articulação de ministros palacianos na tentativa de emplacar o presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) como alternativa ao ex-ministro da Justiça André Mendonça para a vaga no Supremo Tribunal Federal (STF).

O titular do Cade é Alexandre Cordeiro de Cordeiro. Um presbiteriano, ou seja, evangélico, mas que talvez não se adeque ao advérbio “terrivelmente” prometido por Bolsonaro a seu eleitorado religioso (e os chefes dele) para um lugar entre os 11 da Suprema Corte.

O problema é que é um crente “terrível” o que quer Malafaia – e esse nome é o de Mendonça. Como que “o ministro da Casa Civil, um dos mais importantes cargos políticos, vai jantar com Renan Calheiros?”, então passa a questionar o pastor, tentando desgastar “o outro lado”.

Outros alvos de Malafaia foram a secretária de Governo, Flávia Arruda, e o ministro Fábio Faria, das Comunicações. Ambos também estariam entusiasmados com Cordeiro no STF.

E o pastor midiático não está sozinho. Outros pastores-políticos – mesmo sem cargo, eles se impõem como tal, pois elegem seus “postos avançados”, às vezes até mesmo parentes próximos – também exigem que seja Mendonça o novo ministro do STF. É o caso do deputado Marco Feliciano (PL-SP), uma das bocas mais caras do Congresso – em 2019, a reforma de seus dentes custaram mais de R$ 150 mil ao bolso do contribuinte em uma das mamatas institucionais do Legislativo. Outro é o apóstolo goiano César Augusto, da igreja Fonte da Vida, que na semana passada “relembrou” que a indicação do novo ministro tem de passar pelo crivo “de nós, líderes evangélicos”.

Foi realmente o que Bolsonaro prometeu. Mas parece que ele não está mais tão interessado nisso. Aliás, em que está interessado Bolsonaro? Isso é o de menos. O que está posto é o fato de que, dia a dia, bagunça a bagunça provocada por suas bravatas, o presidente que nunca soube o que seu cargo representa vai perdendo força por ter garantido o que não poderia entregar. Não por sua condição, mas por sua incompetência. Isso, porém, é conversa para outro texto.

Renan Calheiros, como relator da CPI da Pandemia, já deixou bem claro que vai carregar nas tintas de seu documento contra Bolsonaro. Mas tanto ele como Ciro Nogueira fazem política, a seu modo, e, ao contrário da antipolítica que prega o bolsonarismo, não vão deixar de se reunir por estarem em lados opostos. Para ambos – como para a maioria absoluta de quem sabe o que é política –, os adversários fazem parte do jogo e é preciso dialogar com eles. É pragmático, é a realpolitik.

Malafaia, porém, com seu discurso sectário e raivoso de sempre, destila outro tipo de pragmatismo. Ele quer impor não apenas um cristão assim reconhecido no STF, mas um cristão que se guie pelo que o pastor-político entenda como cristianismo.

No tempo de Jesus
E aqui precisamos voltar no início da história do que, em tese, seria a religião hoje de Malafaia. Quando Jesus esteve neste plano, sua missão de converter os pecadores e salvar a humanidade esbarrava em um grupamento interessante: os religiosos da época, que viam em sua liderança muito mais do que um profeta, mas uma barreira a seus interesses políticos e de poder.

Esse grupo da elite religiosa era composto predominantemente pelos fariseus. Durante toda a trajetória de pregação de Jesus, eles buscaram desacreditá-lo diante de seus discípulos; distorceram suas palavras; fizeram-lhe questionamento dúbios; enfim, usaram de todos os subterfúgios para o perseguir e o condenar. A sentença de Pôncio Pilatos foi baseada no fato de Jesus ter se considerado Filho de Deus, o que era uma blasfêmia condenável com a morte para os judeus.

Até ser tomada por Roma, a Judeia era governada como uma teocracia. E o Império Romano buscava respeitar essa cultura, até para evitar deflagrações de conflitos desnecessários. Assim Jesus foi para a cruz.

No Brasil do fim do século 20, a Constituição promulgada em 1988 ratificou a laicidade do Estado, com o respeito a todos os tipos de fé. Ou seja, a liberdade de crença, bem como a separação entre religião e governo, é um pressuposto.

O número de evangélicos cresceu bastante a partir dos anos 70 no Brasil, especialmente os de denominações pentecostais. O projeto de expansão da igreja evangélica como força religiosa hegemônica no Brasil vem se consolidando, seja pelo próprio número de fiéis praticantes – aqueles que vão aos cultos no domingo, em relação aos católicos que participam da missa –, como pela expansão midiática, com a compra de horários em TVs e, mesmo, das próprias TVs.

Até aí, tudo dentro da regra. O problema começa quando, para os propósitos de poder, um grupo coloque o proselitismo religioso acima da lei: nesse sentido, uma vaga na Suprema Corte é um tesouro para impor uma agenda teocrática ou, pelo menos, frear o que consideram agenda “comunista” – na guerra cultural, tudo que vai contra os valores “conservadores” desse tipo de “cristão”.

Um ministro-pastor, como pode vir a ser André Mendonça, poderia “sentar em cima” de projetos cuja paralisação interessasse aos líderes evangélicos. É bom aqui ressaltar que alguns direitos – a equiparação da homofobia ao crime de racismo, por exemplo – só foram estabelecidos por conta da manifestação do Judiciário quando provocado, já que tais pautas polêmicas nunca avançavam no Congresso, por conta da bancada da bíblia e de outros lobbies.

Voltando aos tempos de Cristo, aos fariseus interessava menos a pregação de amor e compaixão que saía da boca do Messias do que o fato de ele fazer curas em dias proibidos ou comer com mãos impuras. O apego era à lei, enquanto Jesus priorizava o amor para, a partir dele, validar a lei.

No caso atual, a coisa infelizmente caminha para um desfecho no qual a lei será atropelada pela política – e já sem nenhum amor, depois de tanto discurso de ódio por aqueles cujo centro da fé era alguém que falava em dar a outra face.

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