Afonso Lopes
Afonso Lopes

Bittencourt tem o melhor perfil

A eleição em Goiânia, caso Iris Rezende se confirme candidato, é sempre o maior (e pior desafio) para a base aliada estadual. Tecnicamente, o candidato do PTB reúne as melhores condições como alternativa ao líder peemedebista

 

Iris Rezende, Luiz Bittencourt, Waldir Soares, Giuseppe Vecci e Fábio de Sousa: quem vai ganhar o Paço? Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Iris Rezende, Luiz Bittencourt, Waldir Soares, Giuseppe Vecci e Fábio de Sousa: quem vai ganhar o Paço? Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Afonso Lopes

O que faz a eleição goianiense ser um prego pontiagudo nos sapatos da base aliada estadual? Difícil responder a essa simples pergunta. Esse eixo político já tentou de todas as formas se estabelecer vitorioso nas disputas da capital, mas sempre se deu muitíssimo mal. Isso revela que não foi por falta de mudança de planos eleitorais que o grupo se esfarela nas urnas goianienses a cada quatro anos. Também não foi por imobilismo em termos de candidato.

Desde 2000, a base aliada estadual tem lançado sempre candidatos preferenciais diferentes. Ainda assim, o resultado é sempre exatamente o mesmo: vitória do PT ou do PMDB. Por quê?
Talvez, se alguém levar em conta uma máxima furada na política, de que existem colégios eleitorais cativos deste ou daquele segmento partidário, seja mesmo uma questão de perfil do eleitor.

Mas a tese não se sustenta durante meia hora de debate mais aprofundado sobre o tema da fixação do eleitorado como de oposição aos interesses políticos da base aliada. Em 2000, esse mesmo grupamento venceu as eleições, muito embora naquela época tenha se apresentado como oposição ao status quo dominante do Estado. Ainda assim, aquela vitória mostra claramente que o eleitor goianiense não faz parte de um feudo, não é propriedade de um grupo ou de outro. Antes disso, o eleitorado goianiense é imune quanto a esses posicionamentos.

Agora, em 2016, mais uma vez Goiânia é o centro das preocupações da base aliada estadual. De imediato, tem-se como absolutamente certo que o ex-governador e ex-prefeito Iris Rezende continua sendo o grande favorito. Caso ele se confirme candidato mais uma vez, vai largar na dianteira. Mas percebe-se, ou no mínimo se desconfia, que Iris é “muito menos” favorito do que foi em outras disputas. Isso, obviamente, é uma perspectiva gerada com base nas atuais pesquisas de opinião, ainda bastante frágeis em matéria de consistência do posicionamento do eleitorado pela ausência do clima de disputa que cerca uma campanha. De qualquer fora, mais favorito ou menos favorito, o certo é que o líder peemedebista permanece como que pairando indelevelmente acima dos demais pretendentes.

Longe de significar a derrota pré-anunciada, essa dose de favoritismo de Iris serve como parâmetro para se avaliar como a base aliada estadual pode ser comportar este ano no seu enfrentamento. Iris é o cara a ser derrotado, como sempre. No papel, todas as táticas, que não são combinadas com o grande adversário, funcionam. Na prática, pode ser que nenhuma delas escape de mais uma derrocada. Mesmo assim, está no possível perfil das candidaturas o que se pode ler antecipadamente do cenário eleitoral que poderá ser montado para o eleitorado goianiense.

A estrutura dos perfis deve sempre levar em conta a base estruturada e conhecida do discurso de Iris por ser ele a referência, o tal cara a ser abatido eleitoralmente. Como ao parece a aliança estadual vá para as eleições com múltiplas candidaturas, resta observar também estruturalmente como se apresentam os vários discursos das candidaturas nesse grupamento.

O que Iris invariavelmente utiliza em suas candidaturas é o discurso de líder instintivo, de alguma conotação messiânica, de soluções prontas, mágicas e imediatas. Não há nada de errado nesse discurso, como prova incontestavelmente suas retumbantes vitórias em Goiânia, a mais expressiva delas em sua reeleição, em 2008, com quase 80% dos votos válidos. Quem quiser derrotar, ou pelo menos se oferecer ao eleitor, num confronto com Iris, forçosamente terá que escapar dessa estrutura de pregação eleitoral. Jogar com as armas de Iris é enfrentar o Barcelona em Camp Nou ou o Bayer de Munique no seu Alianz Arena: praticamente uma derrota certa. Assim, resta trabalhar eleitoralmente com discurso que vise o mesmo objetivo, mas por caminhos diferentes em termos de discurso. Dentro da metáfora do futebol, fazer o que o Corinthians fez contra o favoritíssimo Chelsea ao se sagrar campeão do mundo. Nesse aspecto, candidato com discurso mais técnico e estruturado pode fazer alguma diferença contra Iris.

Mas quem entre os aliancistas estaduais exibe esse tipo de perfil? Fora do PSDB, o dono desse tipo de posicionamento de campanha mais bem sucedido é Luiz Bittencourt, do PTB. Ele consegue fugir da mesmice do discurso fácil do megaestruturante para se esbaldar na profusão das teses do planejamento de governo. Ou seja, exatamente na direção contrária do que diz Iris Rezende ao eleitor. Além disso, ele alia a complicada estrutura do discurso com palavras coloquiais, de entendimento imediato, participativo. Isso o torna um dos grandes potenciais da aliança estadual nas eleições deste ano.

É tudo o que importa para derrotar Iris Rezende? Obviamente, não. Bittencourt consegue lidar bem com uma boa faixa do eleitorado, mas resvala negativamente no autêntico “bunker” irista. Não é por outra razão que pensadores no PSDB julgam que o deputado Waldir Soares, se confirmado candidato, será fundamental para penetrar nessa couraça eleitoral de Iris: ele também tem um discurso de manejo inteligente e instintivo, exatamente como Iris. O que falta de experiência a Waldir em relação a Iris é plenamente compensada pela disposição, inclusive física. Iris não tem a mesma pegada de outros tempos. Assim, se Waldir, veem esses pensadores e estrategistas eleitorais tucanos, dificilmente conseguirá superar Iris em sua “casa” em termos de discurso, é quase certo que terá alguma participação nesse eleitorado quase cativo do peemedebista.

Outro candidato com bom perfil é o deputado estadual do PSD Virmondes Cruvinel. Ele mescla o bom moço com a boa intenção e algum resquício técnico de administração. Se Bittencourt tem discurso que mais se aproxima do conjunto formador de opinião, e portanto potencialmente mais agressivo do ponto de vista da consistência de sua capilaridade, Virmondes fica no meio termo, com alguma penetração no tal “bunker” eleitoral de Iris.

Olhando dessa forma para o cenário que pode ser formado em Goiânia, esse trio, Bittencourt, Waldir e Virmondes, forma, sim, uma ameaça que Iris não pode deixar de levar em conta. E é absolutamente certo que ele, se confirmar sua candidatura a prefeito, certamente ficará atento. Não é por outra razão que Iris é o que é: um dos mais vitoriosos políticos de Goiás em todos os tempos.

Mas onde ainda caberia um candidato do maior partido da base aliada estadual, o PSDB, nesse cenário? Waldir, é bem verdade, é filiado ao partido, mas nem ele leva muito a sério sua ficha de filiação. Resta, então, os deputados federais Giuseppe Vecci e Fábio Souza. Vecci é tecnicismo puro, muito mais próximo do discurso de Bittencourt, embora inicialmente com menor abrangência por não abrigar naturalmente um projeto que leva ao conceito da participação dos setores pensantes da sociedade no debate das soluções.
Como estudioso e mestre que é na estruturação de governo no campo político e na área administrativa, a tendência do discurso de Vecci é apresentar soluções completas e acabadas, o que alija a tal participação.

Fábio Souza tem provavelmente um dos perfis mais intimistas do possível cenário de 2016, em Goiânia. É uma espécie de “bom irmão”, confiável, e também por isso com boas condições, embora com certa dose de incerteza. Perfil assim tanto pode pegar como fracassar completamente. Quando funciona, surpreende. Ele e Vecci disputam a preferência dentro do PSDB, e é muito difícil prever quem vai sobreviver às prévias do partido.

O conjunto geral revela que Bittencourt agrega mais valor eleitoral e de campanha numa análise centrada no aspecto do discurso, da linguagem com que os candidatos vão se apresentar para o eleitor. Sozinho, dificilmente ele conseguiria derrotar Iris Rezende por não conseguir inicialmente quebrar o “bunker” eleitoral do decano peemedebista. No conjunto da base, e na soma de todos os valores, a base aliada estadual pode se constituir uma séria ameaça ao irismo em Goiânia. Mas, como eterna ressalva, isso não foi combinado com Iris, e menosprezá-lo é o primeiro grande passo para mais uma derrota acachapante.

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