Afonso Lopes
Afonso Lopes

Bateu cansaço ou é só falta de dinheiro em caixa?

Não é o caso de se imaginar que o prefeito Iris Rezende perdeu o velho entusiasmo que sempre marcou suas administrações, mas o pique neste início não parece ser como das outras vezes

Prefeito cumprimenta trabalhadores em obra: dos inícios de administrações, o mais desanimado é o de agora

Ao participar do lançamento de um programa de combate ao mosquito transmissor da dengue, na quinta-feira, 12, no Jardim Curitiba, o prefeito Iris Rezende foi questionado por jornalistas sobre a composição de sua equipe de governo. Sua resposta foi, inicialmente, tranquila, e num certo sentido até bastante segura: “Não posso ser afobado”. Até aí, nada a acrescentar. A experiência de velho mestre lhe dá o direito de manter a calma e, assim, gerar tranquilidade a todos ao seu redor. Mas a questão talvez possa ser vista sob uma outra ótica também. Ele foi eleito em outubro do ano passado. Teve dois meses, novembro e dezembro, para estudar e mapear exatamente toda a estrutura administrativa, que por sinal ele conhece des­de os tempos dos carnavais das marchinhas e dos confetes e serpentinas, hoje em desuso constante. Ou seja, não seria afobação ter assumido o cargo e destinado os gestores de cada órgão. Dois meses e meio, computando também este início de janeiro, e a equipe não está completa.

O prefeito também não sabe exatamente qual é o quadro econômico-financeiro que recebeu para administrar. Faz sentido. Essa história de equipe de transição é mesmo coisa “pra boi dormir”. Só se tem uma real visão sobre as coisas depois que se assume o comando. Na foto, equipe de transição é uma coisa democraticamente bonitinha e civilizada. Só isso. Na prática, a equipe que está de saída mostra o que quer mostrar e a equipe que está chegando só vê o que é mostrado. Diagnóstico mesmo só depois da posse.

Nesse sentido, a explicação dada pelo prefeito aos jornalistas na quinta-feira, 12, de que não sabe a exatamente o tamanho da encrenca que recebeu como herança, é absolutamente compreensível. Mas aí surgem alguns percalços. No final de dezembro, já na antevéspera da posse, Iris chegou a admitir que sua equipe havia identificado um rombo nas contas de mais ou menos de 400 milhões de reais. Após a posse, o número dobrou, foi para 800 milhões. E pode ser, diante do que o prefeito falou na semana passada, maior ou menor do que isso, mas é mesmo um buraco preocupante.

O tal percalço é exatamente esse: se antes mesmo da posse ele já sabia que havia problemas complicados para resolver, por que não foi feito, com sua equipe técnica, um estudo prévio sobre a necessária reforma administrativa? Além disso, todos os goianienses sabiam que o caixa da Prefeitura estava inviabilizado. Se por problema de gestão ou não é outra história, mas os sinais eram evidentes: caos na saúde, problemas na tarefa diária de recolhimento de lixo e, no final, ruas e avenidas esburacadas. Era óbvio que faltou dinheiro para manter a cidade funcionando. E é também claro que não bastaria tirar um prefeito e colocar outro em seu lugar.

Por último, a impressão externa é a de que o prefeito está enfrentando uma guerra de egos políticos dentro do seu governo. Ao ponto de ele tatear como se estive no escuro atrás de apoio sólido — o que, de acordo com o tititi dos bastidores, ele tem encontrado até agora apenas em seus próprios familiares, principalmente em Ana Paula, sua filha e fiel escudeira. Isso pode ser resultado das urnas, de onde Iris saiu com minoria no Poder Legislativo. Em pouco mais de um mês após as eleições, ele conseguiu reverter a essa situação, mas maiorias assim, conquistadas politicamente e não eleitoralmente, são quase sempre frágeis. Parece ser esse o caso.

No mundo político, mesmo os aliados se comportam como lobos à espreita de fragilidades e oportunidades para ocupação de mais espaços. A demora no preenchimento total da equipe pode ser um especial cuidado de Iris para dimensionar exatamente o papel para cada setor político que faz parte do grupo vencedor, e assim não apenas manter como principalmente diminuir a fragilidade de sua base, inclusive na Câmara — mas não apenas lá. Esse trabalho de tessitura po­lítica é bastante complicado, e aí entra a enorme experiência que Iris acumulou ao longo de décadas nessa lida.

Também na quinta-feira, 12, o prefeito disse uma frase perfeita, embora incompleta. Ele garantiu que o fato de a equipe não estar completa não altera o ritmo de trabalho nem compromete o resultado da gestão. Certíssimo. Uma equipe pequena, compactada nos mesmos objetivos e coesa politicamente consegue realizar o mesmo que um grupo maior. O que compromete mesmo o desempenho de um governo é a falta de dinheiro para fazer a máquina administrativa rodar. E isso, o dindim, é tudo o que está em falta na Prefeitura de Goiânia. Aliás, não apenas lá. A primeira esperança de Iris chega agora, com a abertura de nova temporada de arrecadação via ITU e, principalmente, IPTU.

Enfim, relembrando o início de todas as administrações de Iris, a mais desanimada é a atual. Pode ser cansaço ou somente paciência de Jó por causa da falta de dinheiro em caixa. Isso vai se ver dentro de pouco tempo caso a arrecadação do ITU/IPTU fique dentro da previsão. Com novo fluxo no caixa, esses momentos de incerteza podem ser superados. Sem dinheiro, não há ânimo que resista. De qualquer forma, esse dinheiro precisa render mais do que no passado recente. Paulo Garcia tentou várias vezes diminuir o tamanho da máquina para colocá-la dentro do orçamento possível. Faltou base política para fazer isso. Esse é o ponto crucial para o governo de Iris: redimensionar o tamanho da Prefeitura. E da um trabalhão danado fazer algo assim, mas se ele não fizer, babau: o dinheiro vai continuar entrando por uma porta e saindo por várias.

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