Afonso Lopes
Afonso Lopes

Base aliada versus PMDB

Ao longo dos anos de poder, as coligações governistas do PMDB de Iris e a liderada por Marconi apresentaram fórmulas completamente opostas

O que faz a diferença entre o PMDB e seus aliados e a base aliada governista é o excepcional desempenho eleitoral de Marconi Perillo. A frase está correta? Sim, sem dúvida e sem reparos.

Marconi é pessoalmente o político mais bem-sucedido de toda a história política de Goiás. Nunca, até hoje, um outro político conseguiu se eleger quatro vezes governador do Estado, sendo duas vezes em processos de reeleição. Então, é óbvio que ele é, sim, um diferencial representativo. Mas não é só ele que distingue os desempenhos entre o PMDB e seus aliados e o conjunto da base liderada por Marconi. Há uma diferença que não se percebe no dia a dia, a não ser quando, e raramente isso é feito, se estabelece um quadro de comparações entre uma aliança e a outra no exercício do poder. E é uma baita diferença.

Mas, afinal, o que difere as duas mais poderosas alianças da política goiana desde o retorno das eleições diretas para os governos estaduais? Os estilos adotados por cada um desses eixos no tratamento dispensado aos aliados. Na época do PMDB, entre 1982 e 1998, os partidos que se aliavam eram obrigados a sobreviver com aquilo que sobrava na mesa farta do banquete do poder peemedebista. Desde então, com a primeira vitória da base aliada marconista, em 1998, esse eixo só tem expandido suas fronteiras partidárias. Essa é a tal diferença de estilo: com o PMDB, sobrava muito pouco para quem se alinhava no projeto de poder e de governo. Com a base aliada, esse poder está cada vez mais pulverizado entre as forças partidárias, e isso é, sim, um fator de renovação constante.

Para se ter uma melhor ideia do que se está falando, pegue-se como exemplo as eleições de 1998 e a de 2014. Na primeira, apesar de ter perdido o governo do Es­ta­do, o PMDB e seus aliados dominaram completamente o cenário. Para a Câmara dos Deputados, o partido elegeu 8 dos 17 deputados federais (Barbosa Neto, Lydia Quinan, Pedro Chaves, Luiz Bittencourt, Norberto Teixeira, Euler Morais, Juquinha das Neves e Nair Lobo) e somente 2 aliados, Pedro Canedo e Geovan Freitas, ambos pelo PL.

Em 2014, a base aliada marconista conquistou 13 cadeiras. O PSDB ficou com seis delas (delegado Waldir, Giuseppe Vecci, Célio Silveira, Alexandre Baldy, João Campos e Fábio Souza). As outras seis vagas ficaram com candidatos de seis partidos aliados: PDT (Flávia Morais), PR (Magda Mofatto), PTB (Jovair Arantes), PPS (Marcos Abrão), PSD (Heu­ler Cruvinel e Thiago Peixoto) e PP (Roberto Balestra).

É claro que fica claro, diante desses dois resultados, a enorme diferença que há na prática de poder entre o PMDB e seus aliados e a base aliada estadual de Marconi. Enquanto o PMDB concentra quase todo o poder, a base se espraia dentro dele.

E não dá pra falar nem ao menos que isso acontece unicamente no caso da eleição de deputado federal. Que se observe, então, a eleição de Goiânia, o principal trono político municipal do Estado. Enquanto esteve no co­mando do Estado, o PMDB invariavelmente lançou chapa puro sangue. Já a base aliada va­riou o tempo todo. Em quatro e­leições, 2000, 2004, 2008 e 2012, o PSDB só encabeçou a chapa na pri­meira, com Lúcia Vânia. Nas ou­tras duas, a indicação coube ao PP (em ambas, com Sandes Jú­nior). Na última, a cabeça da cha­pa ficou com o PTB (Jovair Arantes).

Essa diferença nos estilos de gestão política entre o PMDB e a base aliada de Marconi também pode ser conferida no berço de ca­da eixo. De 1982 até 2006, o PMDB sempre ocupou todas as can­didaturas majoritárias para o Es­tado, governador e senadores. Em 1998, quando venceu a eleição pela primeira vez, a base aliada contava com apenas quatro partidos: PSDB, DEM, PTB e PP. Hoje, como se sabe, a lista é enorme.

Há uma questão que deve ser colocada como força atenuante para a concentração de poder no PMDB sobre seus aliados. Na década de 1980, quando o país voltou à trilha democrática, inaugurou-se também o multipartidarismo, com apenas cinco partidos: PMDB, PT, PDT, PSD (não o atual, mas aquele originário da extinta Arena) e o PTB. Se atenua a situação inicial, não ameniza depois disso, quando a multiplicidade das siglas partidárias ocorreu, a partir dos anos de 1990.

Na prática, a aliança de Mar­coni se espalha para ocupação e preenchimento dos espaços partidários, valorizando e se renovando nessa diversidade. O PMDB de Iris Rezende sempre trilhou caminho diferente desse, e agora não tem opções para se renovar. E pode até se tornar caudatário nos processos eleitorais futuros.

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