Afonso Lopes
Afonso Lopes

Bala de prata ou tiro de festim?

Comando central da campanha de Iris Rezende criou suspense ao anunciar explosão de
um fato novo que mexeria com a eleição. Nem explodiu, nem repercutiu tanto assim

Era para ser um fato novo com poder de fogo suficiente para incendiar a reta final do segundo turno em Goiás. Imaginado como uma bomba poderosa por comandantes do quartel general eleitoral, a solução levada a Iris Rezende era bem mais singela: anunciar que, se eleito, Ro­naldo Caiado será o próximo se­cre­tário de Segurança Pública de Goiás. Não se sabe exatamente o que le­vou os idealizadores do plano a imaginar que a indicação do agora senador eleito como secretário de Estado po­deria causar impacto tão grande ao ponto de estrangular a curva histórica que tem se verificado até aqui em re­lação ao desempenho das candidaturas de Iris e Marconi nesta eleição, con­forme indicam as pesquisas eleitorais e o próprio resultado do primeiro turno. Cai­ado tem uma imagem forte, consistente e bastante positiva até quando se apresenta ideologicamente na linha radical, mas seguramente essa imagem jamais sequer se aproximou a de um “xerifão” justiceiro. A imagem de Cai­ado é muitíssimo mais refinada que isso.

Talvez o comando da campanha de Iris tenha cometido não somente um deslize ao provavelmente errar no diagnóstico do impacto. No fundo, e sobre isso o futuro oferecerá a resposta, pode ser que a “solução Caia­do/Xerife” cause um dano substancial à imagem que o senador trabalhou tanto anos para conseguir er­guer. Desde 1989, quando disputou a eleição presidencial, jamais a imagem de Caiado foi tão amena e positiva do ponto de vista da rejeição e de certo temor que causava. E é uma imagem tão consistente essa que ele conseguiu construir que não se identificou em nenhum momento com o quase sempre demagógico “caiadinho-paz-e-amor”. Ele continuou sendo um Caiado, com toda a força que isso representa, com todo o radicalismo que carrega intrinsecamente, mas sem qualquer vestígio de crueldade.

É óbvio que a campanha de Iris queria surfar nessa onda favorável a Ro­naldo Caiado. Até porque não resta mais nada a se fazer a não ser a­creditar em algum santo eleitoral mi­lagreiro. Iris está derrotado. Ele sabe disso, seus comandantes sabem disso, e os militantes, mesmo os mais apaixonados, sabem que a derrota, pelo curso normal dos acontecimentos, é inevitável. E para constatar que essa dura realidade bateu forte nas hostes iristas basta prestar alguma atenção nas manifestações atuais: praticamente ninguém mais fala em virada.

Houve um certo alento quando do anúncio da explosão da bomba que mudaria os destinos do turno final. Pe­emedebistas se animaram, militantes afiaram as baionetas. Mas a “ex­plosão” simplesmente não aconteceu. Caiado realmente teve uma vitória extraordinária na disputa pela única vaga ao Senado, mas daí a imaginar que ele poderia ser o efeito detonador de uma virada eleitoral para governador como possível futuro secretário de Estado é exigir demais.

É quase certo que o pleno êxito de Ronaldo Caiado na campanha de senador tenha gerado a impressão de que ele poderia ser o efeito bomba do segundo turno. Afinal, pela primeira vez des­de 1982 — quando do retorno à eleição direta de governadores — jamais um senador goiano foi eleito pela oposição (em 82, Mauro Borges venceu). O mais próximo do que se viu de oposicionista vencer para o Senado depois daquela eleição foi em 2010, quando foram reeleitos Demóstenes Torres e Lúcia Vânia, mas nesse caso deve-se levar em conta que houve divisão no grupo governista majoritário. A eleição de Caiado portanto representou a quebra de um tabu eleitoral que durou mais de 30 anos.

Somente esse fato pode oferecer alguma pista para se entender o que levou os estrategistas de Iris Re­zende a imaginar que um Caiado-secretário teria mais força eleitoral no segundo tur­no do que um Caiado-senador. Mas ainda assim é difícil compreender a matemática eleitoral desses estrategistas. Simplesmente, vai contra a lógica. É mais do que nadar contra a correnteza. É contrariar o senso.

Se era essa a “bala de prata” da campanha de Iris para esta última semana no segundo turno, o efeito bomba ficou com jeito de “tiro de festim”, além de prejudicar duramente a imagem que Caiado levou anos para conquistar. Na propaganda de Iris na TV, o “Caia­do/Xerifão/Justiceiro” aparece num desenho animado distribuindo sopapos. É exatamente essa imagem que Caiado havia superado, e com isso se tornado um político com baixa rejeição. Iris pode até vencer no domingo que vem por algum fato imponderável e ainda improvável, mas certamente não será por rebaixar um Senador da República a mero futuro secretário de Estado.

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