Afonso Lopes
Afonso Lopes

Avanços e recuos marcaram definição de candidatos

Foi, disparadamente, o mais eletrizante processo de definição de candidaturas a prefeito de Goiânia: Waldir e Iris largam na frente

Jamais se observou, desde 1985, no retorno das eleições diretas para prefeito de capitais e cidades consideradas como de interesse da segurança nacional, um afunilamento de candidaturas com tantas idas, vindas, jogadas políticas, frustrações, avanços e, finalmente, a definição do quadro final que vai para a disputa em outubro. Os três nomes com maior densidade eleitoral registrada em pesquisas Serpes e do instituto Paraná Pesquisas conseguiram sobreviver. Um deles, Waldir Soares, do PR, passou ao largo de dúvidas quanto à sua efetivação. Iris Rezende, PMDB, chegou a armar uma aposentadoria “precoce” e incentivar outros nomes do partido a se lançarem no processo, mas retornou nas últimas horas brandindo seu velho, surrado e ainda em uso discurso, o de atender aos apelos de seus companheiros peemedebistas. Vanderlan Cardoso, PSB, que passou a pré-campanha toda ameaçado pelo isolamento, no final comemorou o apoio de um dos peixes grandes, o PSDB.

Foi um jogo emocionante e de gente grande. O próprio governador Marconi Perillo acabou dando seus pitacos na mais ousada de todas as manobras que se viu. Ele levou o seu PSDB a uma inusitada negociação com o seu mais tradicional adversário, o PMDB, quando Iris Rezende ainda se encontrava “aposentado” politicamente. Na quarta-feira, 3, à noite, o martelo teria sido batido. Interlo­cutores de altíssimo coturno dos dois lados fechariam, na manhã de quinta-feira, 4, apenas os detalhes finais, como a indicação do candidato a vice na chapa liderada por Iris Rezende.

Se estava tudo certo, com sinal verde dos dois lados, por que algumas horas depois a união PMDB-PSDB não se concretizou? Por pressões internas tanto em um quanto no noutro grupo. Iris recebeu uma carga excessiva no PMDB, que incluiria, segundo se apurou, principalmente a sua esposa, a ex-deputada federal dona Iris Araújo, além de seu principal aliado com mandato, o senador Ronaldo Caiado, do DEM. Duran­te a tarde de quinta-feira, ao anunciar que “desaposentaria” para se candidatar mais uma vez a prefeito de Goiânia, Iris refugou a coligação com o PSDB marconista. Na base aliada estadual, as pressões também ocorreram, mas o governador se revelava disposto a suportar politicamente o tranco. A aliança PMDB-PSDB só não aconteceu, portanto, pela recusa de Iris.

O peemedebista perde eleitoralmente? Em tese, perde muito. Ele vai para a campanha dentro de um partido nitidamente rachado. Mas a aliança com o adversário talvez não o favorecesse no campo político interno. Ele poderia perder parte do apoio que ainda possui. A vantagem poderia ser tirada na disputa eleitoral propriamente dita. Além de ganhar um espaço bem melhor no palanque eletrônico, rádio e televisão, Iris contaria com um bom reforço estrutural. Não se sabe agora com o que ele realmente contará caminhando praticamente sozinho. Iris se mantém como principal referência política em Goiânia, e é com essa credencial que ele pedirá votos, mas ele nunca disputou uma eleição com margem de favoritismo tão apertada como agora.

Com a queda da possibilidade de aliança com o PMDB de Iris, os articuladores do PSDB reassumiram o antigo plano de fechar acordo com o PSB de Vanderlan Cardoso. Encontraram as portas escancaradas. Ao contrário do que ocorreu em outros momentos, desta vez Vanderlan não se opôs à aliança. Com isso, ele quebra um exclusivismo que já o derrotou nas duas vezes em que tentou chegar ao Palácio das Esmeraldas, 2010 e 2014. Naquelas eleições, o modo Vanderlan de fazer política e campanha, muito fechado às alianças, o deixou à margem da disputa principal – curiosamente, nas duas disputas os principais adversários eram Marconi Perillo e Iris Rezende.

A senadora Lúcia Vânia teve papel decisivo no desfecho dessa negociação. Antes de abrir as portas para o PSDB palaciano, ela tentou o apoio de outros partidos, como o PTB. Sem sucesso, emitiu sinais de que estaria pronta para fechar alianças dentro da base aliada estadual com os demais partidos. Foi nesse momento que o PSDB, rejeitado algumas horas antes por Iris Rezende, se aproximou. A negociação foi rápida e sem maiores problemas. Havia disposição positiva de ambos os lados.

Enquanto tudo isso acontecia, o deputado federal Waldir Soares comemorava o fato de ter passado sem maiores problemas pela convenção do PR, partido ao qual desembarcou após perceber dificuldades em registrar candidatura pelo PSDB. Mas ele também teve contratempos. O vice que ele havia escolhido, o médico Zacarias Calil, filiado ao PMB, foi retirado da coligação. O partido encerrou as negociações com o PR, dirigido pela deputada federal Magda Mofatto, e fechou aliança com o PSB, de Vanderlan Cardoso. Bem no seu estilo, Waldir reclamou uma barbaridade, mas no final entendeu que esse tipo de ida e vinda faz parte do jogo. Sua aliança é a menor dentre as três principais. Essa pode ser uma deficiência séria, que ele terá que compensar com o desempenho pessoal nas ruas para não se transformar na pior de todas as imagens de políticos que se destacam muito no início e que despencam ao longo da campanha, a de “cavalo paraguaio”.

É possível que sua tarefa tenha sido parcialmente facilitada. Sem Giuseppe Vecci, do PSDB, que se retirou no início da semana, e principalmente sem Luiz Bittencourt, do PTB, cujo partido fechou apoio com o PSD para apoiar a candidatura do deputado federal Francisco Júnior, as referências mais técnicas e contundentes dentre os candidatos estão fora do eixo de ataque contra Waldir. Na pré-campanha, os ataques mais duros sofridos por Waldir foram exatamente os desferidos pelo petebista. Waldir, portanto, pode colher um lucro formidável na campanha na forma como se definiu o quadro geral de candidaturas.

No PT, a deputada estadual Adriana Accorsi não teve problemas internos, e foi escolhida por aclamação geral. E ela realmente é, provavelmente, o melhor nome para representar o petismo em Goiânia. Sua tarefa é incrivelmente complicada. Além de carregar naturalmente os danos de imagem provocados pelo governo federal, ela herdará, como candidata oficial, os estragos na imagem do governo municipal, liderado pelo petista Paulo Garcia. É óbvio que esses são os principais e maiores ônus que vão cair sobre os ombros de Adriana. Mas os bônus também existem, e são importantes. Pes­soalmente, a imagem dela se destaca dentre o mundo masculino da sucessão. E esse destaque vai além dessa diferença. Adriana é uma mulher bonita, de fácil apresentação, e exibe uma imagem suave, sem a agressividade que é espécie de marca de boa parte da militância petista. Há também o fato de que o eleitorado fiel ao PT em Goiânia sempre foi numeroso, premiando os candidatos do partido com boa votação. Resta saber se esse potencial não foi seriamente danificado pelos desgastes.

Por fim, dentre as principais candidaturas, o deputado estadual Francisco Júnior vai para a campanha com sua imagem e discurso de bom moço. A agressividade dele é zero. Tem intimidade com o vídeo por protagonizar programas religiosos – ele é muito ligado à Igreja Católica. Normalmente, consegue fazer críticas sem que se perceba qualquer ranço autoritário. Como o jogo eleitoral deste ano está aberto, e não se sabe exatamente como o eleitor vai se comportar, ele tem esperanças de, no mínimo, se apresentar bem, e quem sabe subir posições rapidamente nas tabelas de opinião. Esse efeito, quando ocorre, provoca surpresas admiráveis.

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