Afonso Lopes
Afonso Lopes

Ataques podem ser a fronteira da derrota

PMDB ensaia início de fase agressiva para tentar agradar o eleitor, mas esse é um jogo de altíssimo risco

Otávio Lage e seu “chapéu atolado”, que serviu de mote para propaganda na TV, numa publicidade subliminar | Foto: O Popular

Otávio Lage e seu “chapéu atolado”, que serviu de mote para propaganda na TV, numa publicidade subliminar | Foto: O Popular

Os primeiros sinais da campanha eleitoral des­te ano articulada pelo PMDB foram emitidos de imediato. O partido deverá partir para uma guerra sem fronteiras contra o grupo que governa o Estado. O objetivo, obviamente, é o de vencer as eleições de outubro e, finalmente, retirar Marconi Perillo e a base aliada estadual do comando do governo de Goiás. Se essa estratégia vai dar certo ou não só o tempo vai responder, mas que o risco de fracasso é evidente, não há como negar. Aliás, altíssimo risco.

Em quase todas as campanhas elei­torais no Estado após o retorno do processo direto de escolha do go­vernador, quem mais bateu, mais per­deu. Há uma ou outra exceção. A pri­meira, no início da década de 1980, é a mais exemplar das exceções.

O país caminhava em direção à retomada da democracia eleitoral plena, e o discurso do então jovial Iris Rezende, do cassado contra o cassador (Iris retomava seus direitos políticos, cassados em meados da década de 1960 quando Otávio Lage, seu oponente em 82, governava o Estado), encaixou-se perfeitamente com o clima dominante na época. Foi uma lavada do início ao fim. Em nenhum momento se percebia capacidade de reação.

Mas resumir aquela campanha a um acerto de contas histórico é abortar detalhes importantes. Não foi somente esse tipo de discurso que provocou uma chuva votos para Iris Rezende. Aconteceram fatos que hoje, diante do marketing profissional eletrônico, poderiam soar como gestos inocentes. Um deles, se tornou uma peça histórica.

Na época, não existia essa propaganda eleitoral que hoje há no rádio e na TV. Era muito mais simples, e tudo se constituía apenas e tão somente na apresentação de uma foto do candidato tipo 3×4, dessas que se usam nos documentos pessoais, e na leitura de um curriculum. E só.

Otávio Lage tinha o hábito de usar chapéu panamá em suas andanças. De repente, na TV, surgiu a propaganda de uma fabricante de chapéus. E o arremate da peça publicitária era uma tremenda indireta eleitoral quase explícita: “É tempo de chapéu atolado”.

O pessoal do Iris ficou louco. É óbvio que aquela publicidade não estava sendo bancada pela fábrica de chapéus. Era a campanha de Otávio quem estaria por trás. A resposta veio logo em seguida. Nos tempos de congas, kichutes e bambas, os tênis populares da época, havia uma marca alternativa. Qual? Tênis Iris. Aí, foi só associar a marca ao ato de andar pelo Estado inteiro.

Não demorou muito e a Justiça Eleitoral mandou retirar as duas propagandas do ar. O principal detalhe era que, embora reais, os fabricantes do chapéu e do tênis nunca tinham anunciado na TV goiana até aquele momento, o que evidenciava o interesse político-eleitoral.

Apesar de coisas assim, a grande tematização da eleição de 1982 foi mesmo a pancadaria entre o “cassado e o cassador”. Havia esse clima de acerto de contas. Mas talvez esse discurso não pegaria como pegou se a candidatura de Otávio Lage não tivesse sido resultado de um racha histórico nas hostes governistas de então. O governador Ary Valadão apoiava Brasil Caiado, e Otávio com seu grupo abriu dissidência interna e derrotou os palacianos. Portanto, e esse é outro componente da eleição de 1982, a divisão interna pode ter avalizado no meio do eleitorado a ideia central do ataque irista, de que Otávio representaria um grupo agressivo e arredio.

Em nenhuma outra eleição para o governo de Goiás pós 1982 candidatos que se basearam em denúncias e agressões aos adversários conseguiram vencer. Em 1986, Mauro Borges era uma das maiores expressões políticas do Estado. Em sua campanha, bateu sistematicamente contra a administração de Iris. Conseguiu fazer um barulhão danado, mas o vencedor foi Henrique Santillo. Em 1990, o então senador Iram Saraiva deixou o PMDB e se candidatou pelo PDT. Bateu em Iris do início ao fim, e terminou com a pior votação. Ao mesmo tempo, Paulo Roberto Cunha, cuja centralização da campanha via TV era um violeiro, passou a campanha cantando que “estava certo”. E estava mesmo. Perdeu para Iris, mas deu um aperto danado. Para muitos, um acidente de carro com mortos na reta final da campanha, e que resultou em sérios ferimentos em Iris, salvou o peemedebista da derrota. Ou pelo menos, de um duríssimo segundo turno.

Em 1994, a campanha foi uma “baixaria” sem tamanho, protagonizada principalmente por Ronaldo Caiado e Maguito Vilela. Ronaldo bateu o tempo todo e duramente, mas apanhou também no mesmo tom. Lúcia Vânia, que resvalou na campanha agressiva, mas escapou no limiar da confusão, acabou como segunda colocada, e se classificou para o segundo turno, vencido por Maguito. Em vários momentos da campanha, a impressão que se tinha é que Caiado, e não Lúcia, é quem iria para o turno decisivo.

Em 98, Marconi venceu Iris Rezende usando um humor demolidor. Venceu as eleições, mas não foi somente em função dessa peça publicitária. Quatro anos antes, Iris venceu as eleições para o Senado tendo um de seus irmãos como primeiro suplente. E, como se isso não bastasse, dona Iris, sua esposa, era a primeira suplente de Maguito Vilela, favoritíssimo para o Senado. Outros dois fatores pesaram contra Iris. Primeiro, o atropelamento da candidatura natural à reeleição de Maguito, que vivia o auge de sua popularidade. E, por fim, e como consequência desse atropelamento, a divisão interna entre os derrotados maguitistas e os vitoriosos iristas. Tudo isso somando contra Iris e com Marconi à frente de uma até então inédita união total dos partidos que faziam oposição ao PMDB, ocorreu a mais espetacular virada eleitoral de todos os tempos em Goiás.

O ensaio geral do PMDB agora é de campanha na base da pancadaria. Se vai dar certo ou não, só o tempo dirá. Mas não será uma composição de ataque tão simples assim. Em primeiro lugar, porque o PMDB também tem muito o que apanhar. Depois, pode-se esbarrar na incoerência. O deputado Ronaldo Caiado, candidato ao Senado pela chapa de Iris, tem emitido claros sinais de que a guerra poderá ser pesada. Mas como ele vai bater num governo do qual o partido que ele próprio preside é parte integrante?

São questões que precisam ser bem resolvidas. Para a população, pancadaria na campanha é quase diversão. Um MMA da vida política real. Mas essa mesma população sabe que, depois da troca de sopapos, os lutadores sempre se cumprimentam, e alguma vezes até trocam gentilezas e sorrisos. A pancadaria, portanto, diverte o eleitorado, mas quase nunca rende votos.

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odlan cruzeiro

Afonso, tem de ter debates, tem de falar de violência, corrupção cachoeira, de marketing excessivo, saúde, educação, funcionalismo publico, sobre o atendimento do governo ao cidadão que não tem qualidade, detran, etc… E é verdade o que voce disse, o Nerso da Capitinga que ganhou a eleição para o Marconi. Agora não pode é ficar tentando mostrar a ilusão, e deixar a realidade de fora da politica.