Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

A morte de Olavo de Carvalho deve ser comemorada?

É preciso pensar que tipo de consideração de seus adversários merece o ideólogo que mudou (para pior) o debate político no Brasil

Olavo de Carvalho, o guru do bolsonarismo | Foto: Reprodução

“Dúvida cruel. O Vírus Mocoronga mata mesmo as pessoas ou só as ajuda a entrar nas estatísticas?”

Uma nota triste da semana passada foi para a morte, em Richmond, nos Estados Unidos, do escritor Olavo de Carvalho, autor da frase que abre este texto. Mais precisamente, a tristeza se refere ao que fizeram do acontecido, embora isso fosse esperado: uma disputa que colocou de um lado acusações de falta de empatia e de outro um cinismo revanchista.

Nada que o astrólogo e autodidata não tenha provocado em vida.

Considerado o principal ideólogo do bolsonarismo, o legado de Olavo é, segundo os próprios adeptos, a defesa intransigente da liberdade, como foram as palavras da nota oficial do governo federal, divulgada pela Secretaria de Comunicação,

Para os brasileiros não convertidos ao olavismo, o legado foi a criação e o cultivo no Brasil de um bolsão de ignorância, intolerância, dissensão e negacionismo. Não deixa de ser um feito amargamente gigantesco, já que mesmo quem nunca ouviu falar até hoje de Olavo de Carvalho adotou, na prática, os conceitos de seus discursos.

Basta voltar lá ao início do texto e reler a frase. Ela foi dita em janeiro do ano passado, quando o “Vírus Mocoronga” já tinha matado, somente em números oficiais, quase 200 mil brasileiros. A influência olavista fez com que a extrema-direita nacional tomasse, durante a pandemia, um caminho bem diverso da extrema-direita que governa (ou governava) outros países. Ricardo Duterte, nas Filipinas, Viktor Órban, na Hungria, e mesmo Donald Trump nos últimos meses de governo – e mais ainda agora, fora do poder – tornaram-se árduos defensores da vacinação como forma de combate à Covid-19.

No Brasil, Jair Bolsonaro (PL) apostou (e ainda aposta) todas as fichas na cloroquina e na ivermectina e resistiu (e ainda resiste) o quanto pôde à vacinação, primeiramente da população em geral e, por último, das crianças, em um ato irresponsável que comete com a convicção da certeza absoluta que só têm os muito tolos.

A frase que abre o texto é só uma amostra. Olavo desdenhou o que pôde e o quanto pôde do coronavírus. E morreu com ele no corpo, em uma mistura de ironia do destino com lições que a vida traz.

Os posts de comemoração de sua morte e de absoluta inapetência para a compaixão se espalharam pela turma adversária: à frase do caput, a jornalista Mariliz Pereira Jorge reagiu com uma palavra solitária: “Respondido”; o cantor Lulu Santos escreveu “Não desejamos mal a quase ninguém”, verso de uma de suas músicas mais conhecidas, Toda Forma de Amor; um anônimo nas redes lembrou que “quem tem dó é piano”; outro imitou o “taokey” de Bolsonaro para comentar outra frase de Olavo: “Estou com Bolsonaro até à (sic) morte. Espero que seja a morte de terceiros, mas se for a minha também estará ok.”

O site de humor Sensacionalista deu como manchete: “Onda de calor foi causada por porta do inferno se abrindo para receber Olavo de Carvalho, diz meteorologia”. Uma charge-meme clássica da Turma da Mônica, a que ela sempre faz um convite ao Cascão – apresentou a dentucinha chamando o amigo: “Vamos mijar no túmulo do Olavo de Carvalho?”. A resposta: “Não curto pegar fila.”

Ficou claro que os antibolsonaristas ou não comentaram ou tripudiaram a morte do ideólogo –chamado de “maior” ou até “o único” filósofo do Brasil por seus seguidores. O fato diz muito sobre o grau de adoecimento em que se encontra o debate político no Brasil. Por isso, este é o grande e ruinoso feito de Olavo: apesar de realmente ter vasta leitura, com seu curso de filosofia permeado de vocabulário chulo, introduzido na cabeça de seus discípulos em meio a pensamentos confusos a respeito de conhecimentos que ele não dominava (como o caso do refrigerante feito a partir de fetos abortados), ele conseguiu convencer direta ou indiretamente milhões de brasileiros de que era realmente um ser humano singular.

Não que não fosse realmente alguém extraordinário, mas esse adjetivo tem uma vasta amplitude semântica, que vai de Jesus a Adolf Hitler, de Darwin a Jim Jones, de Da Vinci à grávida de Taubaté. Olavo foi uma versão online do guru maior do espetacular conto machadiano “O Segredo do Bonzo”, em que o mestre ensina a como conquistar o coração das pessoas a ponto de fazê-las crer nos maiores absurdos e até morrer por eles.

Entre os pré-candidatos à Presidência, todos preferiram ignorar a morte do guru do bolsonarismo, à exceção obviamente do discípulo a quem Olavo considerou incapaz de ter lido qualquer de seus livros: ainda de madrugada, Jair Bolsonaro (PL) publicou em seu perfil uma série de tuítes lamentando o acontecido:

É bom que se diga que Olavo de Carvalho passou, nos últimos tempos, a ser um crítico às vezes contundente do governo de seu pupilo. Para o

Pode ser que realmente Bolsonaro não tenha assimilado exatamente o que Olavo queria, mas o mais provável é que não tenha tido condições nem a menor competência para colocar o plano delirante do guru em curso.

A ideia de Olavo era aniquilar o que sempre chamou de “marxismo cultural”. Ele entendia que políticas públicas liberais – não necessariamente de esquerda –, principalmente na pauta de costumes, deveriam ser destruídas totalmente.

Para ser didático, se deve ao ideário olavista a execração da Lei Rouanet como um antro de “mamatas” para artistas “esquerdistas” e “lacradores”, que, na visão da doutrina reacionária, usavam dinheiro público para se enriquecerem ao mesmo tempo em que pervertiam a sociedade com o que faziam. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Fernanda Montenegro e qualquer outro artista considerado comunista foram carimbados com esse rótulo e com o grito de “acabou a mamata!”, repetido inclusive pelo responsável pela Secretaria Nacional de Cultura, o ator Mário Frias, célebre por ter participado da novela global Malhação.

Não se pode dizer que Bolsonaro não tenha tentado atender ao escritor, o qual diz que o presidente o teria convidado para ser ministro da Educação. A pasta foi ocupada por Ricardo Vélez, depois por Abraham Weintraub, ambos indicados por Olavo e ambos de retumbante incompetência – o segundo destacando-se pela verborragia sem noção; também passaram por ministérios os discípulos Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores), um investigado por corrupção e envolvimento com garimpo e extração de madeira ilegais e outro responsável por jogar no lixo a respeitável imagem do Itamaraty na diplomacia.

Damares Alves é a remanescente, senão como discípula, mas como seguidora das disputas ideológico-cultural. Em tempo: Olavo de Carvalho considerava a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos uma “analfabeta em guerra ideológica”, como escreveu em 2020. Mas é ela, agora, quem comanda a frente ampla e sórdida do governo contra a vacinação de crianças. Com a criação de um serviço de disque-denúncia para relatar casos negativos em relação à imunização, com certeza, Damares ganharia uma estrela dourada na testa de seu antigo crítico.

Não fosse Olavo de Carvalho, talvez Bolsonaro tivesse feito um governo de extrema-direita, digamos, mais clássico. Sem a influência da ala ideológica sobre sua base, talvez tivesse sido convencido até pelo então ministro Luiz Henrique Mandetta, lá no início da pandemia, a encampar a vacina como uma grandíssima bandeira de seu governo. Tendo o SUS como apoio, as chances de Brasil ter um combate exemplar à Covid-19 seriam altas, assim como bem maiores seriam os índices do presidente nas pesquisas eleitorais.

Devemos a Olavo, certamente, boa parte desse péssimo desempenho na pandemia, que levou o governo e muita gente para o buraco, literalmente. Por consequência, o guru e seu negacionismo foram a causa da morte de muitíssimos inocentes. Se é desumano comemorar a morte de alguém, não dá para lamentar o fim do guru do bolsonarismo.

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