Em nossa rotina diária, eles passam despercebidos, mas os líquens – organismos formados por associação entre algas e fungos, por meio de uma relação harmônica entre as duas espécies diferentes – indicam a boa qualidade do ar. Ou seja, são bioindicadores. Estudos apontam que liquens em áreas de Preservação Permanente (APP) do Cerrado brasileiro são afetados pelo glifosato, um herbicida utilizado na agricultura para controlar ervas daninhas. Pesquisadores do Instituto Federal Goiano (IFGoiano) concluíram que a estrutura dos talos, a capacidade de realizar fotossíntese e metabolizar substâncias são danificadas pelo produto, segundo estudo publicado em 28 de agosto na revista “Brazilian Journal of Biology”.

Os dados mostram que os líquens expostos a maiores quantidades do herbicida têm mais células mortas. Em algumas espécies, a concentração de clorofila e a absorção da luz usada na fotossíntese também diminui. O estudo foi realizado a partir da coleta de duas espécies de liquens presentes em uma APP no município de Caiapônia, em Goiás, após serem retirados de troncos de árvores. A amostra foi analisada em laboratório do IFGoiano para investigar seu comportamento em diferentes concentrações e tempos de exposição ao glifosato.

Ao ser pulverizado sobre a plantação, o glifosato é carregado por correntes aéreas. E como os liquens são sensíveis à presença do herbicida, quando pulverizados, podem bioindicar a presença do poluente no ar, mesmo não estando expostos diretamente ao produto aplicado sobre áreas de produção agrícola. Segundo Luciana Vitorino, autora do estudo, a propagação não intencional do produto é o foco da investigação. “Nós queríamos avaliar o potencial destes líquens como bioindicadores da dispersão desse herbicida a partir de áreas agrícolas, impactando todas as comunidades residentes em áreas de vegetação nativa inseridas nas regiões agrícolas”, afirma a pesquisadora.

Outros estudos na área apontam que o consumo de glifosato causa vários problemas de saúde, incluindo câncer em seres humanos, que podem consumir o herbicida indiretamente por meio de alimentos contaminados. “O glifosato passou a ser tão comum nas práticas agrícolas que vários países europeus estão estudando banir sua utilização nos próximos anos dada a sua toxicidade”, explica Vitorino.

Os autores esperam que outros estudos consigam identificar a presença do herbicida em áreas urbanas e comunidades próximas de APP, locais em que a aplicação do produto não é esperada. Isso é importante considerando os danos que o herbicida causa em seres humanos e organismos vivos. Mais análises sobre os efeitos do produto também podem identificar como outras espécies de líquens respondem ao glifosato e de que forma podem ser ameaçadas conforme a agricultura avança sobre áreas naturais.

Fonte: Agência Bori