Saiba o que Paris tem a dizer a Goiânia e vice-versa
26 outubro 2026 às 17h57

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Narcisa Abreu Cordeiro
Especial para o Jornal Opção
A criação de Goiânia, na década de 1930, insere-se em um período de profundas transformações no pensamento urbanístico internacional. Naquele momento, o planejamento das cidades deixava de ser compreendido apenas como uma questão de desenho de ruas e edifícios e passava a incorporar conhecimentos de geografia, economia, sociologia, higiene, paisagismo e organização territorial.
Paris ocupava posição de destaque nesse movimento. Ali, a aproximação entre o Musée Social, a Sociedade Francesa de Urbanistas e o Instituto de Urbanismo de Paris contribuiu para consolidar o urbanismo como campo de conhecimento, atividade profissional e instrumento de transformação social.
Fundada em 1911, a Sociedade Francesa de Urbanistas reuniu profissionais comprometidos com a reflexão sobre o crescimento das cidades, a circulação, a habitação, os espaços públicos e a qualidade do ambiente urbano. Entre seus protagonistas encontrava-se Donat-Alfred Agache, cuja atuação contribuiu para a formulação de uma visão abrangente do planejamento urbano.
Em 1919, foi criada a Escola de Altos Estudos Urbanos, posteriormente transformada, em 1924, no Instituto de Urbanismo da Universidade de Paris. Enquanto a Sociedade promovia o intercâmbio profissional e a discussão de propostas, o Instituto se dedicava à formação e à pesquisa. Embora fossem instituições distintas, ambas participaram de um mesmo ambiente intelectual, no qual o urbanismo se afirmava como disciplina moderna.
Essa articulação entre reflexão teórica, formação especializada e prática profissional constitui uma chave importante para compreender a circulação internacional das ideias urbanísticas nas primeiras décadas do século XX.

É nesse contexto que podemos situar a construção de Goiânia, concebida como nova capital de Goiás. Seu plano original, elaborado por Attilio Corrêa Lima, com os desdobramentos posteriores de sua implantação, pertence a uma época em que diferentes experiências internacionais de planejamento eram debatidas e reinterpretadas.
A trajetória de Alfred Agache no Brasil, especialmente seu trabalho para o Rio de Janeiro, demonstra a presença efetiva de profissionais ligados ao urbanismo francês no cenário brasileiro. Entretanto, a investigação das relações específicas entre as instituições francesas e o projeto de Goiânia exige atenção aos documentos, relatórios, correspondências e referências bibliográficas dos profissionais envolvidos.
No caso de Goiânia, essa pesquisa ganha especial relevância diante das referências internacionais presentes no debate urbanístico da época e dos estudos de Armando de Godoy, inclusive suas considerações sobre experiências de cidades-jardins, como Letchworth, na Inglaterra.

A história da nova capital goiana deve, portanto, ser examinada para além de suas fronteiras regionais. Goiânia foi concebida em um período de intensa circulação de ideias sobre a cidade moderna, a organização territorial e a relação entre urbanização, natureza e sociedade.
Reconhecer esse contexto não significa atribuir a uma única escola estrangeira a origem do plano de Goiânia. Significa compreender que o pensamento urbanístico se desenvolve por meio de intercâmbios, estudos, experiências e adaptações, sempre reinterpretados de acordo com as condições locais.
A aproximação histórica entre a Sociedade Francesa de Urbanistas, o Instituto de Urbanismo de Paris e a formação das cidades brasileiras oferece, assim, uma perspectiva fecunda para investigar as bases intelectuais do planejamento de Goiânia.
Goiânia nasceu em diálogo com o pensamento urbanístico de seu tempo. Compreender esse diálogo é valorizar a história de sua concepção, reconhecer a dimensão internacional do urbanismo moderno e aprofundar o conhecimento sobre as ideias que contribuíram para dar forma à nova capital de Goiás.
Narcisa Abreu Cordeiro, arquiteta e pesquisadora, é colaboradora do Jornal Opção.

