Goiânia quis queimar seus mortos e acabou brigando com o Vaticano
28 outubro 2026 às 18h43

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Goiânia ainda não sabia direito como viver, mas seus construtores já estavam preocupados com a maneira como seus habitantes deveriam morrer. A cidade mal começava a sair do papel. Havia ruas para abrir, edifícios por levantar, distribuir água, instalar esgoto e convencer uma população inteira de que abandonar a antiga capital era uma boa ideia.

Em meio a tantas demandas, entre as preocupações dos homens encarregados de construir o futuro de Goiás, surgiu uma questão que dificilmente apareceria num folheto de propaganda imobiliária: o que fazer com os cadáveres? A resposta de alguns técnicos e administradores era simples. E, para boa parte da sociedade goiana da época, assustadora. Queimá-los.
Não se tratava de uma ameaça, evidentemente. Era uma proposta de cremação, apresentada como alternativa sanitária e urbanística aos cemitérios tradicionais. Goiânia teria avenidas largas, jardins, edifícios art déco, repartições públicas modernas e, se dependesse dos defensores da ideia, um forno crematório. O progresso chegaria a todos ( o primeiro crematório do Brasil foi implementado na década de 1970, em São Paulo). Inclusive àqueles que já não poderiam reclamar. Goiânia, “a cidade do futuro”, seria a primeira cidade do Brasil com crematório.
A proposta provocou controvérsia. A Igreja Católica, que exercia enorme influência sobre a sociedade goiana, tinha restrições doutrinárias à cremação ( a cremação é aceita pela doutrina católica desde 1960). Setores da imprensa transformaram o assunto em motivo de escárnio. Os adversários políticos de Pedro Ludovico Teixeira encontraram mais um argumento contra a nova capital.

Décadas depois, na edição 48 do Jornal Opção, de novembro de 1976, o jornalista Joaquim Rosa recuperou o episódio numa nota em sua coluna semanal. Segundo relato, a polêmica teria ultrapassado as fronteiras brasileiras e provocado até uma reação do Vaticano. Escreveu Joaquim Rosa:
“O Vaticano e o forno crematório de Goiânia
“Já existe forno crematório em São Paulo, para gente. Jornais sugerem a adoção do método, para solucionar a explosão demográfica de defuntos saturando os cemitérios. Poucos sabem que a ideia pioneira de incineração de cadáveres humanos nasceu, no Brasil, aqui em Goiânia. Quem bolou a medida e divulgou por esse mundo afora foi o jornalista Câmara Filho, então diretor do Departamento Estadual de Propaganda. Grande a repercussão no plano internacional. A imprensa europeia noticiou. A ‘Osservatori Romano’, órgão oficial do Vaticano, subiu a serra. O Papa gloriosamente reinante (todo papa reina gloriosamente) não gostou e eis o Núncio Apostólico se movimentando no Rio de Janeiro junto ao Itamaraty e, parece, diretamente, a Vargas, então “guia da nacionalidade”. Dom Emmanuel Gomes de Oliveira, arcebispo de Goiás, naturalmente solidário com o governo goiano, teria andado da sala para a cozinha, entre dois fogos: cumprir instruções vindas de Roma, para combater a ideia, e desagradar Pedro Ludovico, interventor federal, de quem se tornara grande amigo depois da vitória da Revolução de 1930. Aconteceu certa feita, este diálogo com o notável jornalista Câmara Filho:
— Forno crematório em Goiânia, seu Câmara? Isso dá excomunhão na certa.
O fundador de “O Popular” matou a charada:
— Goiânia. Já conhecida no Brasil inteiro, precisa despertar atenção do mundo. O forno crematório fez a promoção…”.
A história reúne quase todos os ingredientes de uma boa tragédia política brasileira: modernização, religião, propaganda, disputas de poder, uma dose generosa de vaidade e, naturalmente, os mortos. Estes últimos, embora fossem os principais interessados, não foram consultados.
Mas reduzir o episódio a uma extravagância dos fundadores de Goiânia seria um erro. Por trás da proposta havia um problema sanitário antigo, a transformação profunda dos costumes funerários e disputas sobre quem teria autoridade para decidir o destino dos corpos.
Para compreender por que um crematório poderia provocar tamanho escândalo, é necessário voltar a uma época em que os mortos não eram afastados das cidades. Pelo contrário. Durante séculos, eles permaneceram no coração delas.
Quando os mortos moravam nas igrejas
Na antiga Vila Boa, como em tantas cidades brasileiras de origem colonial, a morte fazia parte da geografia religiosa. As igrejas não eram apenas lugares de oração. Também funcionavam como espaços de sepultamento.
Enterrar alguém dentro de um templo representava uma distinção espiritual e social. A proximidade com os altares, os santos e os espaços considerados sagrados expressava a esperança de salvação, mas também reproduzia as desigualdades existentes entre os vivos.

A morte podia igualar os homens diante de Deus. Diante da sociedade, a igualdade demorava um pouco mais. Os lugares de sepultamento variavam conforme a posição social, os recursos financeiros e os vínculos com as instituições religiosas. Aqueles que dispunham de prestígio e dinheiro tinham maiores possibilidades de garantir uma sepultura em local privilegiado. Os menos favorecidos dependiam de outros espaços e formas de assistência funerária. Nem mesmo a eternidade estava livre das convenções sociais.
Essa tradição começou a ser intensamente questionada no Brasil durante o século XIX, quando médicos, higienistas e autoridades passaram a denunciar os riscos associados aos enterramentos dentro das igrejas e em áreas densamente ocupadas. Havia preocupações com a decomposição dos corpos, a circulação de odores, a contaminação do ambiente e as condições sanitárias das cidades.
Naquele período, a teoria dos miasmas atribuía a transmissão de diversas doenças pelo ar corrompido por matéria orgânica em decomposição. A microbiologia posteriormente demonstraria que as doenças infecciosas possuíam mecanismos específicos de transmissão, mas isso não elimina a importância histórica das preocupações com o saneamento, a água, o solo e a organização dos espaços funerários.
O problema não era exclusivamente goiano. Cidades brasileiras de diferentes regiões enfrentaram conflitos em torno da retirada dos sepultamentos do interior dos templos e da implantação de cemitérios afastados das áreas habitadas. A mudança atingia diretamente costumes religiosos e relações familiares. Para muitos, enterrar os mortos fora das igrejas significava romper com tradições mantidas durante gerações.
O Estado pretendia organizar a morte segundo critérios sanitários. A religião procurava preservar os rituais que lhe conferiam significado. O conflito estava estabelecido muito antes de Goiânia existir. Na antiga capital goiana, a história do Cemitério de São Miguel permite acompanhar parte desse processo de transformação das práticas funerárias. É nesse contexto que a discussão sobre a cremação precisa ser compreendida.
O crematório de Goiânia não surgiu do nada. Ele representava uma nova etapa de um processo iniciado quando médicos e administradores começaram a retirar os mortos do convívio cotidiano dos vivos. Primeiro, os cadáveres deixaram as igrejas. Depois, passaram a ocupar cemitérios organizados segundo preocupações sanitárias. Agora, alguns modernizadores propunham uma solução ainda mais radical: substituir a sepultura pela cremação. O cadáver deixaria de ocupar permanentemente um terreno.
Para os defensores da proposta, parecia racional. Os que eram contra não viam o problema como algo tão simples. Afinal, uma coisa era retirar os mortos das igrejas. Outra, bastante diferente, era colocá-los num forno.
Antes de Goiânia, a cidade de Goiás já discutia a cremação
A proposta de cremação em Goiás é anterior à própria construção de Goiânia. O historiador Deuzair José da Silva identificou antecedentes da discussão na legislação sanitária estadual da década de 1920, durante o governo apoiado pelo senador Antônio Ramos Caiado, o Totó Caiado. O Decreto nº 8.968, de 23 de abril de 1926, integra esse contexto de regulamentação sanitária.
A pesquisa A proposta de crematório em Goiás: a modernidade em questão, 1920-1930, apresentada em 2017, demonstra que o tema já circulava no Estado antes da transferência da capital. O detalhe desmonta uma interpretação excessivamente simplista da história: a cremação não foi uma invenção de Pedro Ludovico. E também não pode ser explicada exclusivamente como uma campanha publicitária destinada a chamar a atenção para Goiânia.
A proposta fazia parte de discussões mais amplas sobre higiene, saúde pública e modernização que já existiam em Goiás e que os defensores da nova capital insistiam em apresentar como símbolo do atraso. O velho Goiás, aparentemente condenado a representar o passado, também discutia soluções consideradas modernas. A história raramente respeita a propaganda oficial.
Pedro Ludovico e a obsessão pelo futuro
Quando Pedro Ludovico assumiu o poder em Goiás, após a Revolução de 1930, a transferência da capital tornou-se um dos principais instrumentos de seu projeto político. A construção de Goiânia representava mais do que uma mudança administrativa. Era uma ruptura simbólica. Vila Boa, associada às estruturas tradicionais de poder, seria substituída por uma cidade planejada, capaz de expressar uma nova organização política e econômica.
O discurso da modernização encontrou na arquitetura e no urbanismo seus instrumentos mais visíveis. A nova capital deveria apresentar ruas amplas, edifícios públicos monumentais, áreas verdes e uma organização espacial identificada com os princípios urbanísticos da época. A higiene ocupava lugar importante nesse projeto.

Não bastava construir uma cidade bonita. Ela também tinha que ser saudável. O planejamento urbano deveria favorecer a circulação, a ventilação, o abastecimento de água e a organização dos serviços públicos. Os cemitérios também entravam nessa equação.
Foi nesse ambiente que a proposta do forno crematório ganhou força. A nova cidade pretendia superar os problemas das antigas aglomerações urbanas. E os cemitérios tradicionais, com suas exigências de espaço e suas associações históricas com os problemas sanitários, pareciam incompatíveis com determinados ideais de racionalidade urbana.
A solução apresentada por alguns técnicos era concentrar a destinação dos cadáveres num equipamento específico. Em vez de ampliar continuamente as áreas destinadas às sepulturas, a cidade poderia recorrer à cremação.
O raciocínio era funcional. Mas a sociedade não era feita apenas de engenheiros. E o urbanismo, como os construtores de Goiânia descobririam, não tinha autoridade para redesenhar sozinho as convicções religiosas de uma população.
A ciência queria ventilação, solo livre e controle. A Igreja, rito, símbolo e doutrina. As famílias desejavam túmulo, flor, visita e memória. No meio disso, a política farejou oportunidade e transformou fé em munição.
Cem anos depois, a pergunta mais incômoda sobre esse tema permanece atual: a modernização cabe no forno quando a dor ainda cabe no túmulo?
Goiânia não brigou só com o Vaticano, mas com a ideia de morte que ela mesma carregava no peito.

