Por: Lisiane Hahn, Dilermando Pereira de Lima Júnior, Cleide Carnicer, Jhonatan Silva Lima, Sebastião Pergoraro, Marcelo Siqueira e Matheus Ferreira – Especial para o Jornal Opção

Em janeiro de 2021, um grupo de pescadores esportivos do Rio Araguaia, preocupado com a falta de conhecimento científico sobre a piraíba e com a conservação da espécie, decidiu agir. Era necessário iniciar, o quanto antes, um projeto dedicado ao estudo desse e de outros peixes de interesse para a pesca esportiva, atividade que movimenta o turismo na região e contribui para o sustento de milhares de pessoas que vivem da pesca no Rio Araguaia.

Apesar da importância ecológica, social e econômica de peixes como a piraíba, aspectos básicos de seu comportamento ainda eram desconhecidos. A espécie é migradora? Que extensão do rio utiliza para completar seu ciclo de vida? Todos os indivíduos migram ou apenas parte da população? Onde estão localizadas suas áreas de desova? Qual o tamanho médio das piraíbas do Rio Araguaia? Responder a essas perguntas é fundamental para compreender a ecologia da espécie e orientar estratégias eficazes de manejo e conservação. Afinal, sem dados científicos robustos sobre como e onde esses peixes vivem, se deslocam e se reproduzem, torna-se difícil definir medidas de conservação adequadas e avaliar sua efetividade.

Foi então que, por intermédio do biólogo Leandro Silveira do Instituto Onça Pintada (IOP) e do professor Dilermando Pereira de Lima Júnior, da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), que os pescadores chegaram à bióloga Lisiane Hahn, da Neotropical Consultoria Ambiental, especialista em migração de peixes e no uso de tecnologias de ponta para seu monitoramento, como a telemetria. A partir desse encontro, começou a elaboração de um projeto científico e a busca por parceiros que viabilizassem sua execução. Nascia, naquele momento, o “Projeto Piraíba”, posteriormente rebatizado de Projeto PeixAra (Peixes Araguaia), com a ampliação das pesquisas para outras espécies de peixes além da piraíba.

Equipe do Projeto Peixara em preparação para marcação de piraíbas às margens do Rio Araguaia.

Entre 2021 e 2023, o projeto foi implantado gradualmente, reunindo esforços de pesquisadores, pescadores, guias de pesca e empresas parceiras. O apoio incluiu recursos para a aquisição dos primeiros transmissores e, no caso da Neotropical, a disponibilização de equipamentos para a detecção dos peixes e de pessoal especializado, contribuições fundamentais para a consolidação do projeto. O projeto científico foi submetido à aprovação do ICMBio, órgão responsável por autorizar a captura e a marcação dos peixes e avaliar os relatórios técnicos da pesquisa. Com apenas três transmissores e um receptor de radiotelemetria, as primeiras atividades de campo começaram em agosto de 2021. Embora essa etapa inicial tivesse como principal objetivo testar e avaliar a técnica de monitoramento, os primeiros resultados já revelaram informações inéditas sobre a movimentação das piraíbas no Rio Araguaia.

Marcação eletrônica de piraíba

Uma das três piraíbas marcadas nessa fase inicial, em 13 de agosto de 2021, percorreu pelo menos809 km pelo Rio Araguaia durante o período de funcionamento da bateria do transmissor! Desse total, ao menos 310 km corresponderam a deslocamentos rio acima. A distância efetivamente percorrida pode ter sido ainda maior, já que, naquela época, a rede de monitoramento ainda era limitada e só começou a ser ampliada no fim de 2023. Atualmente o Projeto Peixara possui 7 bases fixas de telemetria distribuídas em uma extensão de aproximadamente 500 km do Rio Araguaia, entre os municípios de Ribeirãozinho (MT) e Nova Crixás (GO). Já a área coberta pelos rastreamentos móveis or barco chega a mais de 700 km de rio.

Bases fixas de telemetria para registro dos peixes marcados com radiotransmissores. BAN – Nova Crixás; COC – Cocalinho; ARU – Aruanã; BRC – Montes Claros de Goiás; ARA – Aragarças; TOR – Torixoréu e RIB – Ribeirãozinho.
Base fixa de telemetria instalada em Aragarças para detecção da passagem de peixes marcados com radiotransmissores.

Paralelamente aos primeiros testes e às pesquisas com telemetria, o projeto passou a investir também na capacitação de guias de pesca da região em boas práticas de pesca esportiva. O primeiro curso foi realizado em dezembro de 2022, no município de Cocalinho (MT), com apoio da prefeitura. Posteriormente, outros cursos e palestras foram promovidos em Aruanã e Aragarças (GO) e em Santa Terezinha (MT).

Nessas atividades, pesquisadores do projeto orientam os participantes sobre as melhores formas de manusear os peixes capturados na pesca esportiva, buscando aumentar suas chances de sobrevivência após a soltura (guia das melhores práticas disponível em @projetopeixara). Dez guias que participaram das capacitações foram convidados a atuar como colaboradores do projeto. Além de marcar com tags as piraíbas capturadas por seus clientes, eles passaram a coletar pequenos fragmentos de nadadeira para análises de DNA.

A iniciativa é um exemplo de Ciência Cidadã, abordagem que aproxima a sociedade da pesquisa científica ao envolver pessoas que não são cientistas profissionais na coleta e no compartilhamento de dados. No Projeto PeixAra, a participação dos guias amplia a capacidade de obtenção de informações diretamente no rio e fortalece a conexão entre conhecimento científico e a experiência de quem vive diariamente a pesca no Araguaia.

Curso de capacitação de guias de pesca em Aruanã
Kit de “tagueamento” de peixes e coleta de amostras fornecido aos guias do Projeto Peixara.

Um novo impulso veio em 2023, durante a Pesca Trade Show, feira de pesca esportiva realizada em São Paulo. Na ocasião, a bióloga Lisiane Hahn apresentou o projeto ao público, entre eles representantes do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), que demonstraram interesse em apoiar a ampliação das pesquisas. Esse apoio se concretizou em 2024, por meio de um Termo de Execução Descentralizada firmado entre o MPA e a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que já atuava como parceira direta nas pesquisas. A partir daí, o Projeto PeixAra ampliou significativamente sua atuação na bacia: o número de peixes marcados com radiotransmissores passou de 20 para 190.

Apenas dois anos após a ampliação das atividades de campo, o Projeto PeixAra já reúne resultados relevantes para a compreensão da ecologia dos peixes do Rio Araguaia. Entre eles estão o registro de deslocamentos de longa distância, que chegam a 890 quilômetros, e de peixes percorrendo mais de 60 quilômetros em um único dia, além da identificação de potenciais áreas de desova da piraíba na bacia. Os estudos também vêm registrando as taxas de sobrevivência de tucunarés, bargadas e cacharas capturados e soltos com a adoção das melhores práticas de pesca esportiva (dados em análise no momento).

Rastreamento por telemetria de tucunarés em lago do Rio Araguaia

O acompanhamento do tamanho das piraíbas ao longo dos anos traz informações importantes sobre a dinâmica da população e a biologia da espécie. Nesse trabalho, a participação dos pescadores esportivos foi fundamental: foram os registros feitos por eles, antes mesmo do início do projeto de pesquisa, que permitiram recuperar informações sobre o tamanho dos peixes capturados há mais de uma década. Sem esses dados históricos, não seria possível realizar essa comparação e identificar mudanças ao longo do tempo. A análise reuniu informações de 239 piraíbas registradas em dois períodos. O primeiro conjunto de dados, de 2012 e 2013, foi produzido a partir de registros de pescadores esportivos. Já o segundo, referente ao período entre 2021 e 2024, reuniu informações geradas por guias de pesca e pesquisadores. Os peixes analisados apresentaram comprimento total (medido da ponta do focinho à ponta da cauda) entre 80 e 224 centímetros. A comparação revelou uma mudança expressiva. Em 2012 e 2013, as piraíbas capturadas tinham, em média, 156,61 centímetros. Entre 2021 e 2024, essa média caiu para 128,44 centímetros, uma redução de aproximadamente 28 centímetros em pouco mais de uma década. A diferença entre os dois períodos foi estatisticamente significativa, indicando uma redução consistente no tamanho médio das piraíbas registradas. Além de revelar uma importante mudança ao longo do tempo, o resultado reforça o valor dos dados produzidos por pescadores e guias de pesca. Registros feitos antes mesmo da existência do projeto podem se tornar uma fonte valiosa de informação científica e ajudar pesquisadores a compreender transformações que só podem ser percebidas quando observadas ao longo de vários anos.

Parte dos resultados é divulgada periodicamente no perfil do projeto no Instagram, @projetopeixara, aproximando o conhecimento produzido pela pesquisa de pescadores, guias de pesca e da sociedade em geral.

Atualmente, o Projeto PeixAra desenvolve suas atividades de pesquisa em conjunto com a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), no campus de Pontal do Araguaia (MT), e conta com parceiros como os projetos no Araguaia ligados ao “PPBio Araguaia” (PUC-Goiás), financiado pelo CNPq, envolvendo pesquisadores da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e da Universidade Federal de Goiás (UFG), também com o apoio da Secretaria do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás (SEMAD/GO). Além de ampliar o conhecimento científico sobre os peixes da bacia, essa rede contribui para a formação de estudantes e profissionais no uso de tecnologias de ponta aplicadas ao monitoramento de peixes.

Base de marcação de peixes no Rio Araguaia e sua montagem

Em um rio da dimensão do Araguaia, compreender para onde vão os peixes, onde se reproduzem, quanto se deslocam e como sobrevivem à captura é muito mais do que responder a perguntas científicas. É produzir o conhecimento necessário para proteger espécies, orientar a pesca e contribuir para a manutenção de uma atividade que sustenta milhares de pessoas. Em um cenário em que diferentes interesses muitas vezes parecem separar quem pesquisa, quem pesca, quem produz e quem conserva, o Projeto PeixAra aponta outro caminho: mais do que a divisão, é a união em torno de objetivos comuns que faz a diferença. Ao reunir pesquisadores, pescadores, guias, universidades, empresas e poder público, o projeto mostra que diálogo, ciência, tecnologia e Ciência Cidadã podem transformar cada peixe monitorado em informação — e cada nova informação em uma ferramenta para ajudar a garantir que o Araguaia continue vivo, produtivo e repleto de peixes para as próximas gerações.

Confira quem são os autores do artigo

Lisiane Hahn – Bióloga, Coordenadora Técnica do Projeto Peixara e Diretora da Neotropical Pesquisa e Consultoria Ambiental

Dilermando Pereira de Lima Júnior – Biólogo, Professor e Pesquisador da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT, Campus Pontal do Araguaia) e Coordenador do Termo de Execução Descentralizada (TED) – UFMT/Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), pesquisador do PPBio Araguaia

Cleider Carnicer – Bióloga, pós-doutoranda na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT, Campus Pontal do Araguaia) e pesquisadora do Projeto Peixara

Jhonatan Silva Lima – Biólogo e doutorando na Universidade Estadual de Goiás (UEG) e pesquisador do Projeto Peixara

Sebastiao Pegoraro Monteiro Guimarães – empresário, pescador esportivo e estudante de Biologia

Marcelo Siqueira – advogado, empresário e pescador esportivo

Matheus Ferreira – veterinário da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador do Projeto Peixara