Cuidado e saúde entre os Inỹ Karajá de Buridina
29 agosto 2026 às 21h00

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Por: Estevão Martins Maciel, Vitória Maria de Oliveira, Julia Pádua Gouveia, Grasielly Queiroz Pereira Salgado, Barbara Lucas Pereira, Karine Aparecida Obalhe da Silva Piorski, Andreia Juliana Rodrigues, Poliene Soares dos Santos Bicalho e Josana de Castro Peixoto – especial para o Jornal Opção
Araguaia, o rio que também cura
Para os Inỹ Karajá da aldeia Buridina, em Aruanã, povo pertencente ao tronco linguístico Macro-Jê e povoadores originários da área core do Cerrado brasileiro, especialmente nos estados de Goiás, Tocantins e Mato Grosso, o cuidado com a saúde começa muito antes da chegada ao consultório médico. Ele nasce no território, na convivência comunitária, nos conhecimentos transmitidos pelos mais velhos, na observação dos ciclos da natureza e na profunda relação espiritual estabelecida com o Rio Araguaia.
Nessa perspectiva, saúde não significa apenas ausência de doença, mas equilíbrio entre corpo, espírito, família, comunidade e ambiente. Essa forma de compreender a vida desafia modelos tradicionais de atendimento em saúde construídos a partir de uma lógica exclusivamente biomédica. Embora a medicina ocidental tenha ampliado significativamente as possibilidades de prevenção e tratamento de inúmeras enfermidades, nos os povos indígenas ela é apenas uma das dimensões do cuidado. Entre os Inỹ Karajá, a cura é inerente à memória coletiva, a ancestralidade, aos conhecimentos tradicionais e ao território, onde a vida acontece.
A comunidade Buridina está localizada às margens do Rio Araguaia, no município de Aruanã, região conhecida por sua riqueza ambiental e cultural. Embora esteja próxima da área urbana, preserva práticas tradicionais que expressam uma identidade construída ao longo de séculos. A língua Inỹrybè, os rituais, o artesanato, os conhecimentos sobre plantas medicinais e a organização comunitária continuam presentes no cotidiano da aldeia, revelando a força de um povo que perpetua a sua cultura mesmo diante das constantes transformações do território. É justamente nesse contexto que surge uma questão cada vez mais relevante para pesquisadores, gestores públicos e profissionais da saúde: como construir políticas públicas capazes de dialogar com diferentes formas de compreender o processo saúde-doença? A resposta passa, necessariamente, pelo reconhecimento de que o atendimento à população indígena exige mais do que infraestrutura e equipamentos. É preciso sensibilidade cultural, escuta qualificada e respeito aos conhecimentos produzidos pelas próprias comunidades. Nessa perspectiva, a pesquisa que inspira esta reportagem analisa exatamente esse desafio. Seu objetivo foi compreender como os Inỹ Karajá de Buridina têm acesso à saúde pública e de que maneira as políticas nacionais voltadas aos povos indígenas conseguem, ou ainda precisam avançar, dialogar com os sistemas tradicionais de cuidado e saúde (pré)existentes na comunidade.
Nas últimas décadas, o país avançou significativamente na construção de um marco jurídico voltado à proteção dos direitos dos povos indígenas. A Constituição Federal de 1988 reconheceu a saúde como direito universal, enquanto a Lei nº 9.836, conhecida como Lei Arouca, instituiu o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SASI-SUS). Posteriormente, a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI) consolidou o princípio da atenção diferenciada, reconhecendo que os serviços de saúde devem considerar as especificidades culturais, territoriais e sociais de cada povo indígena.
Na prática, entretanto, transformar princípios legais em atendimento efetivo continua sendo um desafio. As grandes distâncias entre aldeias e centros especializados, a dificuldade logística, a rotatividade de profissionais, as barreiras linguísticas e a necessidade de formação intercultural das equipes fazem parte do cotidiano da saúde indígena em diversas regiões brasileiras. Esses fatores mostram que garantir o direito constitucional à saúde depende tanto da estrutura física quanto da capacidade de compreender diferentes modos de produzir cuidado.
Entre os Inỹ Karajá, essa discussão ganha contornos ainda mais profundos porque saúde e território caminham juntos. O Rio Araguaia, as matas do Cerrado, os locais de pesca, as plantas medicinais e os espaços sagrados constituem elementos inseparáveis da vida comunitária. Cuidar da saúde significa, portanto, cuidar também da natureza, da cultura e das relações sociais que sustentam a existência desse povo. Talvez por isso a maior contribuição de uma saúde intercultural seja justamente compreender que nenhuma política pública alcançará seu êxito enquanto deixar de ouvir aqueles que conhecem seu território há inúmeras gerações. Nos nossos projetos na região do Araguaia, que incluem o Araguaia Vivo 2030, o Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio) Araguaia, o Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração do Araguaia (PELD Araguaia), o “Coletivo Mulheres Cientistas em Rede” e o “Condefé – Tem Cagaita e Gabiroba no Cerrado”, apoiados pela FAPEG, pelo CNPq e pela Fundação Boticário, tentamos entender a construção de uma saúde intercultural entre os Inỹ Karajá da aldeia Buridina, em Aruanã (GO), em articulação com entre o atendimento oferecido pelo SUS e os saberes tradicionais ligados ao território, à ancestralidade e ao Rio Araguaia.

A construção das políticas públicas e o desafio da saúde intercultural: da tutela à garantia de direitos
A história da saúde indígena no Brasil acompanha a própria trajetória das políticas indigenistas nacionais. Durante grande parte do século XX, o atendimento prestado aos povos originários possuía caráter assistencialista, descontínuo e fortemente marcado por uma lógica de integração compulsória. O objetivo das instituições governamentais não era reconhecer a diversidade cultural dos povos indígenas, mas incorporá-los ao modelo dominante da sociedade brasileira. Nesse cenário, as ações de saúde eram frequentemente pontuais, concentradas no controle de epidemias e em intervenções emergenciais, sem considerar as formas próprias de organização social, territorial e cultural das diferentes etnias.
A criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), em 1910, representou a primeira iniciativa institucional voltada exclusivamente aos povos indígenas. Posteriormente, em 1967, o órgão foi substituído pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), que assumiu as responsabilidades relacionadas à política indigenista brasileira. Apesar dessas mudanças administrativas, o atendimento em saúde permaneceu fragmentado durante décadas, sendo alvo de críticas pela ausência de continuidade, pela insuficiência de recursos e pela dificuldade em responder às especificidades culturais das comunidades indígenas.
A Constituição Federal de 1988 marcou uma inflexão decisiva nesse processo ao reconhecer os povos indígenas como sujeitos de direitos originários, assegurando-lhes proteção às suas organizações sociais, línguas, costumes, crenças e tradições. A Carta Magna também consolidou a saúde como direito universal e dever do Estado, estabelecendo as bases para que os povos indígenas fossem contemplados por políticas públicas específicas, capazes de reconhecer suas diferenças culturais e territoriais.
A Lei Arouca e um novo modelo de atenção
Um dos marcos mais importantes dessa transformação ocorreu em 1999 com a promulgação da Lei nº 9.836, conhecida nacionalmente como Lei Arouca. A legislação instituiu o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SASI-SUS), incorporando oficialmente a assistência aos povos indígenas ao Sistema Único de Saúde (SUS). Mais do que criar uma estrutura administrativa, a lei reconheceu que a atenção à saúde indígena exigia um modelo próprio de organização, fundamentado na diversidade étnica, territorial e sociocultural existente no país.
A Lei Arouca introduziu um conceito inovador para a gestão pública brasileira: a atenção diferenciada. Esse princípio reconhece que oferecer o mesmo serviço para populações com histórias, culturas e territórios distintos nem sempre significa promover equidade. Para os povos indígenas, o cuidado deveria considerar não apenas aspectos clínicos, mas também suas práticas tradicionais de cura, formas próprias de compreender o adoecimento e relações culturais estabelecidas com seus territórios.
Embora representasse um avanço jurídico significativo, a implementação desse novo modelo revelou inúmeros desafios. A formação insuficiente de profissionais para atuação em contextos interculturais, as dificuldades logísticas em áreas remotas e a permanência de práticas centradas exclusivamente na biomedicina demonstraram que transformar leis em realidade exige mudanças institucionais profundas e permanentes.
A Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas
Em 2002 foi instituída a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI), documento que consolidou as diretrizes para a organização da assistência diferenciada. A política estabeleceu princípios como universalidade, integralidade, equidade, participação social e interculturalidade, reconhecendo oficialmente que diferentes concepções de saúde precisam dialogar na construção do cuidado.
A PNASPI também enfatiza que profissionais de saúde devem desenvolver competências para atuar em contextos interculturais. Isso significa compreender que, para muitos povos indígenas, a doença não é apenas um fenômeno biológico, mas resultado de relações entre corpo, território, espiritualidade, família e comunidade. O atendimento torna-se mais efetivo quando consegue estabelecer pontes entre diferentes formas de produzir conhecimento sobre a saúde.
A criação da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI)
Em 2010, outro passo importante foi dado com a criação da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), vinculada ao Ministério da Saúde. A nova secretaria assumiu a coordenação do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena, anteriormente administrado pela Fundação Nacional de Saúde (FUNASA). A mudança atendeu a antigas reivindicações do movimento indígena brasileiro, que defendia uma estrutura administrativa especializada e capaz de responder às demandas específicas das diferentes comunidades indígenas do país.
Desde então, a SESAI passou a coordenar políticas voltadas à promoção da saúde, prevenção de doenças, vacinação, vigilância epidemiológica, saneamento e assistência nas aldeias. Sua atuação também envolve planejamento, financiamento, formação de equipes e articulação entre os diferentes níveis do Sistema Único de Saúde, procurando assegurar uma atenção mais próxima das realidades territoriais dos povos indígenas.

Os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI)
Para tornar essa política operacional, o Brasil adotou um modelo inovador de organização territorial: os Distritos Sanitários Especiais Indígenas, conhecidos pela sigla DSEI. Diferentemente da divisão tradicional baseada em estados e municípios, os DSEIs foram estruturados considerando critérios geográficos, étnicos, culturais e epidemiológicos. A lógica é simples: os territórios indígenas nem sempre coincidem com os limites administrativos convencionais, exigindo uma organização própria de assistência em saúde.
Atualmente, existem 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas distribuídos pelo território brasileiro. Cada distrito coordena equipes multidisciplinares, polos-base, agentes indígenas de saúde e toda a logística necessária para garantir atendimento às aldeias sob sua responsabilidade. Esse sistema constitui uma das principais experiências internacionais de organização de serviços públicos de saúde voltados especificamente às populações indígenas.

O DSEI Araguaia e a comunidade Buridina
A comunidade Buridina integra a área de atuação do DSEI Araguaia. Uma característica singular dessa organização é que, embora a aldeia esteja localizada em Goiás, a coordenação administrativa deste Distrito encontra-se em São Félix do Araguaia, no estado de Mato Grosso. Essa configuração evidencia que a organização da saúde indígena não segue necessariamente as fronteiras estaduais, mas prioriza os territórios tradicionalmente ocupados pelos povos indígenas e suas relações históricas e culturais.
Esse modelo permite compreender que o território indígena vai muito além da localização geográfica. Ele envolve formas próprias de circulação, relações comunitárias, redes de parentesco, práticas culturais e conhecimentos tradicionais que influenciam diretamente o planejamento das ações em saúde. Assim, conhecer o território torna-se condição indispensável para compreender as necessidades da população atendida e organizar estratégias efetivas de cuidado e saúde.

O Posto de Saúde da Aldeia Buridina
A comunidade conta com uma unidade própria de atendimento, conhecida como Posto de Saúde da Aldeia Buridina ou Unidade de Saúde Indígena Aldeia Buridina. Localizada no Setor dos Karajás, em Aruanã, ela constitui o principal ponto de entrada da população local na rede de atenção à saúde indígena. Sua presença dentro do território facilita o acesso aos cuidados básicos e reduz parte das barreiras que historicamente afastaram os povos indígenas dos serviços públicos. Na unidade são realizados atendimentos ambulatoriais, ações de promoção da saúde, vacinação, acompanhamento de condições clínicas e dispensação de medicamentos. O posto também funciona como referência para o trabalho das equipes indígenas e para a organização dos encaminhamentos quando a situação não pode ser resolvida dentro da aldeia.
Na aldeia Buridina, a presença dos agentes indígenas de saúde, conhecidos pela sigla AIS, representa um dos principais elos entre a comunidade e os serviços públicos. Por integrarem o próprio povo Inỹ Karajá, esses profissionais conhecem a língua, os costumes, as relações familiares e as formas tradicionais de compreender o corpo, o adoecimento e a cura. Essa proximidade favorece a comunicação e contribui para que as orientações de saúde sejam transmitidas de maneira mais adequada à realidade local.
Ao lado dos agentes indígenas, atuam as equipes multidisciplinares de saúde indígena, as EMSI. Formadas por profissionais como médicos, enfermeiros, cirurgiões-dentistas, técnicos de enfermagem, auxiliares de saúde bucal, agentes indígenas de saúde e agentes indígenas de saneamento, essas equipes são responsáveis por grande parte das ações de atenção primária desenvolvidas nas aldeias. Entre suas atribuições estão consultas, vacinação, acompanhamento pré-natal, vigilância nutricional, controle de doenças crônicas, assistência à saúde da mulher, monitoramento do crescimento infantil e ações educativas. O trabalho também envolve a identificação de riscos ambientais e epidemiológicos, o planejamento de medidas preventivas e a articulação com outros pontos da rede pública.
A existência de uma farmácia na unidade possui importância estratégica para a continuidade dos tratamentos. Entretanto, nem todos os medicamentos ou recursos terapêuticos estão disponíveis localmente. Quando há necessidade de fármacos específicos, exames ou acompanhamento de maior complexidade, a comunidade depende da articulação com a rede municipal de Aruanã e com outros serviços do SUS.
O uso de medicamentos fornecidos pelo sistema público não elimina, contudo, as práticas tradicionais. Muitas famílias combinam os tratamentos prescritos pelos profissionais com plantas medicinais, orientações dos anciãos e conhecimentos próprios sobre o corpo e o território. Esses itinerários terapêuticos mostram que o cuidado Inỹ não se organiza pela substituição de um sistema pelo outro, mas pela articulação entre diferentes recursos de cura.
O problema surge quando os serviços urbanos desconsideram essa realidade e não validam os conhecimentos tradicionais como práticas de cura e cuidado de caráter ancestral. Essa postura pode criar tensões, dificultar a comunicação e reforçar relações históricas e culturais de desrespeito e ausência de estima mútua, que fulcrais em toda e qualquer relação intercultural. Reconhecer os saberes Inỹ não significa abandonar os conhecimentos científicos, mas compreender que uma atenção integral deve considerar as escolhas, os valores e as experiências culturais dos usuários, neste caso, indivíduos coletivos indígenas.

O caminho até os serviços especializados
Embora Buridina esteja próxima à área urbana de Aruanã, a localização não garante acesso imediato a todos os níveis de atenção. Exames especializados, cirurgias, internações e consultas com determinados profissionais exigem deslocamentos para outros municípios. Nesses casos, o cuidado depende de uma rede que envolve a unidade indígena, os serviços municipais, o DSEI Araguaia e os centros regionais de referência.
A distância transforma o tratamento em uma experiência que envolve não apenas o paciente, mas toda a família. O deslocamento pode exigir organização de transporte, disponibilidade de acompanhante, afastamento temporário do território e adaptação aos procedimentos de instituições urbanas. Assim, o acesso à saúde não se resume à existência formal de uma vaga ou consulta: depende das condições concretas para que o usuário consiga chegar ao serviço e concluir o tratamento.
A Casa de Saúde Indígena (CASAI) e o acolhimento fora do território
Quando o atendimento não pode ser realizado na aldeia ou em Aruanã, os pacientes podem ser encaminhados à CASAI. Essas unidades acolhem pessoas que precisam permanecer em centros urbanos para consultas, exames, cirurgias ou tratamentos prolongados. Além de hospedagem e alimentação, oferecem acompanhamento de enfermagem e apoio na relação com hospitais e serviços especializados.
Para os Inỹ Karajá de Buridina, a CASAI de Goiânia desempenha papel importante nesse fluxo. No entanto, chegar até a capital exige percorrer uma distância considerável. O percurso entre Aruanã e Goiânia pode representar horas de viagem, somadas ao tempo de espera por consultas, exames e procedimentos. Esse deslocamento evidencia como a geografia interfere diretamente na continuidade do cuidado.
Uma rede que precisa ouvir a comunidade
Fortalecer o cuidado entre os Inỹ Karajá de Buridina exige assegurar equipes estáveis, transporte adequado, medicamentos, exames e acesso aos serviços especializados. Mas requer igualmente consolidar relações de escuta. Os moradores da comunidade precisam participar do planejamento, do acompanhamento e da avaliação das ações que interferem diretamente em suas vidas.
Os Agentes Indígenas de Saúde demonstram que essa aproximação é possível. Por conhecerem o território e fazerem parte da comunidade, eles contribuem para construir uma rede menos distante e mais sensível à cultura Inỹ. Valorizar esses profissionais, garantir sua formação continuada e ampliar sua participação nos processos decisórios são medidas fundamentais para a efetivação da atenção diferenciada.
As equipes multidisciplinares também precisam de condições para permanecer no território e desenvolver vínculos duradouros. A alta rotatividade de profissionais dificulta a continuidade do acompanhamento, obriga a comunidade a reconstruir relações de confiança e reduz a capacidade dos trabalhadores de compreender as particularidades locais. Uma política intercultural não pode depender apenas da boa vontade individual: deve fazer parte da formação e da estrutura dos serviços.
Entre a aldeia, o posto de saúde, as unidades municipais, a CASAI e os hospitais especializados, forma-se um percurso complexo. Para que essa rede funcione, todos os seus pontos precisam estar conectados e reconhecer o protagonismo indígena. Cuidar da saúde dos Inỹ Karajá de Buridina significa garantir atendimento clínico de qualidade, mas também respeitar a língua, a espiritualidade, os conhecimentos tradicionais e a relação inseparável entre corpo, comunidade e território.
Interculturalidade: uma ponte entre diferentes saberes
Entre os Inỹ Karajá de Buridina, a interculturalidade não representa apenas um conceito acadêmico. Ela faz parte do cotidiano das famílias que frequentemente articulam o atendimento oferecido pelo SUS com práticas tradicionais de cuidado, utilizando plantas medicinais, conhecimentos transmitidos pelos anciãos e orientações dos especialistas tradicionais da comunidade. A coexistência desses sistemas demonstra que a saúde pode ser construída por diferentes caminhos, desde que exista respeito mútuo entre eles.
Talvez esse seja o maior desafio contemporâneo das políticas públicas voltadas aos povos indígenas. Mais do que ampliar estruturas físicas ou equipamentos, a consolidação de uma atenção verdadeiramente intercultural exige reconhecer que existem diferentes formas de compreender a vida, o corpo, a doença e a cura. No caso dos Inỹ Karajá de Buridina, ouvir a comunidade, fortalecer seus saberes e construir políticas públicas compartilhadas representam não apenas uma estratégia de gestão, mas um caminho essencial para assegurar dignidade, autonomia e o direito constitucional à saúde.

Confira quem são os autores desse artigo
Estevão Martins Maciel – Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Goiás e mestrando pelo Programa de Pós-graduação em Territórios e Expressões Culturais do Cerrado (PPG TECCER/UEG). Integrante do Programa “Araguaia Vivo 2030”.
Vitória Maria de Oliveira – Graduada em Farmácia e mestre pelo Programa de Pós-graduação em Territórios e Expressões Culturais do Cerrado (PPG TECCER/UEG) pela Universidade Estadual de Goiás. Integrante do Núcleo de saberes tradicionais e ambientais do Cerrado (NuSACER/UEG) e parceira em atividades que integram o Programa “Araguaia Vivo 2030”.
Julia Pádua Gouveia – Graduanda em Farmácia pela Universidade Estadual de Goiás e integrante do “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede” e do Programa “Araguaia Vivo 2030”.
Grasielly Queiroz Pereira Salgado– Graduanda em Farmácia pela Universidade Estadual de Goiás e integrante do “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede” e do Programa “Araguaia Vivo 2030”.
Barbara Lucas Pereira – Graduanda em Farmácia pela Universidade Estadual de Goiás e integrante do “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede” e do Programa “Araguaia Vivo 2030”.
Karine Aparecida Obalhe da Silva Piorski – Professora da Universidade Estadual de Goiás e integrante do “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede”, bem como do Programa “Araguaia Vivo 2030” e do “PPBio Araguaia”.
Andreia Juliana Rodrigues – Professora da Universidade Estadual de Goiás e coordenadora da atividade 4 (Mobilização, Sensibilização e Capacitação de Atores Locais) do Programa “Araguaia Vivo 2030”. Pesquisadora responsável pela educação socioambiental no “PPBio Araguaia”, no INCT em Ecologia, Evolução e Conservação da Biodiversidade (EECBio), no Peld Araguaia e CEHIDRA CERRADO. Coordenadora do “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede”.
Poliene Soares dos Santos Bicalho – Professora do Programa de Pós-Graduação em Territórios e Expressões Culturais do Cerrado (PPG TECCER) da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e coordenadora do Programa no período de 2019 a 2025. Desenvolve pesquisas nas áreas de povos indígenas, movimento indígena, Cerrado, artes indígenas e relações entre a ditadura civil-militar e os povos indígenas no Brasil. É líder do grupo de pesquisa Saberes, Sociedade e Natureza no Cerrado, coordenadora do Núcleo de Saberes Tradicionais e Ambientais do Cerrado (NuSACER/UEG) e atua como parceira em ações vinculadas ao Programa Araguaia Vivo 2030.
Josana de Castro Peixoto – Professora da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e da Universidade Evangélica de Goiás (UniEVANGÉLICA). Atua como vice-coordenadora da Atividade 4 – Mobilização, Sensibilização e Capacitação de Atores Locais do Programa Araguaia Vivo 2030, e como pesquisadora colaboradora na área de educação socioambiental do PPBio Araguaia. É integrante do “Coletivo Mulheres Cientistas em Rede” (UEG), do INCT em Ecologia, Evolução e Conservação da Biodiversidade (EECBio) e da equipe de pesquisa do projeto “Condefé – Tem Cagaita e Gabiroba no Cerrado”, apoiado pela FAPEG/Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.


