Por: Patrick Thomaz de Aquino Martins, Roberta Capim Rocha, Marcelo Henrique Schmitz, Luciano Fernandes Arbués Mota, Renata Mariana Póvoa Matos e Levi Carina Terribile – Especial para o Jornal “Opção”

É bem possível que você já tenha visualizado uma imagem de satélite, acessado o “Google Maps” ou compartilhado sua localização com um colega ou com um serviço de entrega. Em todas essas atividades, as geotecnologias estão presentes. Geotecnologias são um conjunto de ferramentas utilizadas para coletar, processar, analisar e apresentar dados da superfície terrestre. O que torna esses dados únicos é a sua vinculação a um sistema de coordenadas (latitude e longitude), motivo pelo qual são chamados de dados geoespaciais.

Essas características tornam as geotecnologias fundamentais também para os estudos ambientais, pois auxiliam pesquisadores e gestores públicos na compreensão da dinâmica dos ecossistemas, na identificação de impactos e na elaboração de estratégias para a conservação e o uso sustentável do território. Cientes dessas possibilidades, diversas pesquisas têm adotado essas ferramentas, tornando o monitoramento e a gestão dos recursos naturais mais eficientes. 

Como as geotecnologias vêm sendo utilizadas para conhecer melhor a bacia hidrográfica do rio Araguaia?

A bacia hidrográfica do rio Araguaia tem sido palco de estudos ambientais de grande importância, que se baseiam em métodos científicos para subsidiar o planejamento territorial, o manejo sustentável das águas e a mitigação da degradação ambiental. Entre os exemplos mais relevantes estão o projeto Araguaia Vivo 2030 financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG) e gerenciado pela TWRA (“Tropical Water Research Alliance”), o Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio) Araguaia, financiado pelo CNPq, e o Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração do Araguaia (PELD Araguaia), também financiado pela FAPEG, além do Instituto Nacional de Ciência & Tecnologia (INCT) em Ecologia, Evolução e Conservação da Biodiversidade (EECBio).

Vários estudos publicados aqui no “Araguaia em Foco” exemplificam casos práticos do uso das geotecnologias no âmbito desses projetos. O artigo que aborda a pesquisa sobre a piraíba, mostra como pescadores esportivos, guias e comunidades ribeirinhas podem se tornar verdadeiros “cientistas cidadãos”. Ao fotografar a soltura do peixe com um celular dotado de GPS, o aparelho registra automaticamente a data, a hora e as coordenadas geográficas. Esses dados, quando compartilhados com os pesquisadores, alimentam um banco de dados geoespacial que permite mapear rotas migratórias, áreas de reprodução e estimar sua distribuição potencial.

O GPS, sigla de Global Positioning System (Sistema de Posicionamento Global), é uma geotecnologia de navegação via satélite que fornece serviços de posicionamento, navegação e tempo com precisão cada vez maior. Ele integra o GNSS (Global Navigation Satellite System), que engloba outros sistemas de posicionamento por satélite, como o Galileo (União Europeia) e o BeiDou (China). Em dispositivos mais modernos (carros, drones, smartphones, tratores agrícolas, etc.), esses sistemas já são comuns e operam de forma integrada. Assim, o termo GNSS é tecnicamente mais preciso atualmente, quando nos referimos à tecnologia de posicionamento global por satélite, pois, além de ser um ótimo sinônimo para o GPS, também pode ser empregado para qualquer outro sistema embarcado no dispositivo, uma característica que tem se tornado mais comum a cada dia.

Outra geotecnologia importante é o Sistema de Informações Geográficas (SIG), que permite armazenar, processar, analisar e visualizar camadas de dados geoespaciais. Esta geotecnologia foi empregada anteriormente em um estudo divulgado aqui no “Araguaia em Foco” sobre a relação entre geodiversidade e a diversidade de espécies vegetais na bacia. Os pesquisadores combinaram em um SIG dados de relevo, rede de drenagem, ocorrência de vegetação e tipos de solo. Ao sobrepor essas camadas, foi possível identificar uma associação positiva entre a geodiversidade e a riqueza de plantas, indicando maior diversidade de espécies vegetais à medida que aumenta a variação do ambiente sob o ponto de vista geomorfológico.

Além do GNSS e do SIG, outra geotecnologia que merece destaque e que auxilia nas pesquisas da bacia do Araguaia é o sensoriamento remoto. Essa técnica consiste na obtenção de dados (normalmente imagens) sem contato físico direto com o objeto. No ensaio sobre macrófitas aquáticas da planície de inundação do rio Araguaia, por exemplo, um drone foi empregado para capturar imagens de altíssima resolução dos bancos de macrófita, da vegetação marginal e das ilhas fluviais. Essas imagens permitiram mapear a extensão de bancos de vegetação aquática e podem ser utilizadas no monitoramento da dinâmica sazonal de expansão/retração das macrófitas.

Coleta de dados e monitoramento ambiental nas expedições Araguaia

O uso das geotecnologias na bacia hidrográfica do rio Araguaia representa um capítulo importante de um esforço mais amplo de investigação. Nesse contexto, as geotecnologias têm funcionado como um catalisador essencial para o aprofundamento do nosso conhecimento, contribuindo para uma análise mais precisa e abrangente dos fenômenos naturais e antrópicos da bacia. Como este deve ser um processo contínuo, ainda existem demandas que podem tirar proveito destas tecnologias para que possamos atuar de forma mais eficiente na conservação e no uso racional do território. Compreender a dinâmica da cobertura vegetal natural e do uso do solo da bacia, por exemplo, é essencial para se atingir este objetivo.

As geotecnologias no estudo da cobertura vegetal e uso do solo na bacia hidrográfica do rio Araguaia

O conhecimento da cobertura vegetal e do uso do solo em uma região geográfica é fundamental para que os gestores previnam a deterioração ambiental, a perda de terras agricultáveis, a destruição de áreas úmidas e o declínio da vida silvestre. Em uma bacia hidrográfica, como a do rio Araguaia, a vegetação natural desempenha diversas funções que beneficiam a saúde e o bom funcionamento dos ecossistemas aquáticos, como a retenção de agrotóxicos e poluentes, a recarga dos lençóis freáticos e o controle térmico ideal para a biodiversidade aquática.

O Brasil atravessa, historicamente, um processo de transformação paisagística na qual a vegetação natural tem cedido espaço a usos antrópicos, ou seja, intervenções realizadas pelo ser humano. Esse processo iniciou-se nos domínios costeiros, como a Mata Atlântica, e migrou recentemente para áreas do Cerrado e da Amazônia, contexto em que se encontra a bacia hidrográfica do rio Araguaia. Um estudo recente publicado no periódico internacional “Environmental Management” pelos pesquisadores do Araguaia Vivo 2030 / PPBio Araguaia e do  INCT EECBio empregou séries temporais de dados geoespaciais combinadas com análises em SIG para reconstruir a trajetória da cobertura vegetal e do uso do solo na bacia do rio Araguaia ao longo das últimas quatro décadas. Os resultados são reveladores: a bacia perdeu vastas extensões de vegetação natural, especialmente florestas e savanas, para atividades antrópicas, impulsionadas predominantemente pela agropecuária. Nesse período, a pastagem consolidou-se como a tipologia predominante, expandindo-se de forma significativa no norte, noroeste e sudeste da bacia, enquanto a agricultura passou a ocupar, majoritariamente, o sudoeste.

Ao analisar o período mais recente (últimos seis anos), os dados geoespaciais revelaram não apenas a intensidade, mas também o padrão desse desmatamento, que passou a se concentrar no leste da bacia. Foram identificadas entre 1.000 e 3.680 ocorrências de desmatamento nesse período, afetando desde áreas menores que 10 hectares até grandes extensões (superiores a 100 hectares). Embora as áreas menores sejam mais numerosas, são as grandes áreas que respondem pela maior parte do volume total, o que indica uma expansão em larga escala do desmatamento. Isso significa que mais da metade da área desmatada na bacia corresponde a ocorrências de grande proporção.

Padrões espaciais na ocupação e uso do solo na bacia do Araguaia, em 1985 e 2022 (dados MapBiomas)

A dimensão da ilegalidade é outro achado alarmante do estudo. A grande maioria das ocorrências de desmatamento (71,9%) não possuía autorização de nenhuma esfera de governo (municipal, estadual ou federal). Esse dado sugere que a maior parte da supressão vegetal na bacia ocorre à margem da legislação ambiental, seja por desconhecimento, seja por cálculo deliberado de impunidade. Apesar de ter sido observada uma tendência de redução no número de desmatamentos não autorizados ao longo dos anos, o fortalecimento dos mecanismos de monitoramento e a integração entre os órgãos ambientais permanecem como desafios centrais.

A baixa cobertura de fiscalização agrava ainda mais o cenário. No ano com maior volume de ocorrências, menos de 15% dos desmatamentos foram fiscalizados. A fiscalização é crucial não apenas para inibir novas ações, mas também para impedir o uso produtivo das áreas degradadas, paralisando a degradação e permitindo a recuperação ambiental. Além disso, ela habilita outras medidas, como a aplicação de autos de infração (com multa financeira), a apreensão e destruição de equipamentos ou a instauração de ações civis públicas.

A contribuição das áreas protegidas na manutenção da paisagem natural da bacia

Se o panorama geral é de pressão crescente, há um contraponto importante: as áreas legalmente protegidas. O estudo revelou que, enquanto o perímetro periférico da bacia concentra as maiores taxas de conversão de vegetação nativa, a região central — que abriga o mosaico de Terras Indígenas e Unidades de Conservação — manteve-se notavelmente resiliente, com poucas ou nenhuma alteração significativa ao longo das últimas décadas. Essa região, onde se encontra a Ilha do Bananal, abriga áreas legalmente protegidas que garantem a reprodução física, social, econômica e cultural de grupos indígenas, funcionando como um verdadeiro refúgio biocultural. As Terras Indígenas Inawebohona, Parque do Araguaia e Utaria Wyhyna/Iròdu Iràna, habitadas por povos que mantêm práticas tradicionais de manejo do território, preservam não apenas a cobertura vegetal, mas também conhecimentos ancestrais sobre o uso sustentável dos recursos naturais. No mesmo espaço, o Parque Nacional do Araguaia, uma Unidade de Conservação federal, protege ecossistemas de várzea, savana e floresta que abrigam espécies ameaçadas e servem de área de reprodução para peixes, aves e mamíferos aquáticos.

Para além da porção central, as Terras Indígenas e as Unidades de Conservação distribuídas na bacia do Araguaia configuram-se como as áreas mais estáveis em termos de mudança de cobertura vegetal e uso do solo. Elas registram menores percentuais de transição entre categorias e a menor intensidade de alteração. No último caso, por exemplo, áreas sem proteção legal apresentaram taxas de mudança anual quase três vezes superiores às áreas protegidas.

As Unidades de Conservação de Proteção Integral, tais como parques nacionais e estações ecológicas, onde a manutenção dos ecossistemas deve ocorrer com o mínimo de interferência humana, são as mais estáveis: mais de 80% de suas áreas permaneceu inalterada nos últimos 40 anos. Em contrapartida, mais da metade das áreas sem qualquer proteção legal passou por uma ou mais conversões de uso no mesmo período.

Desafios e caminhos para um futuro sustentável

A expansão do uso antrópico do solo, embora necessária para o fornecimento contínuo de alimentos, fibras e renda, pode comprometer a capacidade dos ecossistemas de sustentar a própria produção agrícola a longo prazo. A supressão de vegetação nativa reduz a infiltração de água no solo, diminui a recarga de aquíferos, aumenta o assoreamento dos rios, eleva a temperatura das águas e fragiliza os serviços ecossistêmicos dos quais a própria agropecuária depende. É um paradoxo que precisa ser enfrentado com políticas públicas inteligentes e integradas.

Nesse sentido, a implementação de medidas para combater o desmatamento, como as apresentadas pelo “Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas no Bioma Cerrado” (PPCerrado), é vital para a construção de um modelo de desenvolvimento regional que concilie a segurança alimentar e a conservação ambiental. Entre suas diretrizes, destacam-se: a recuperação de pastagens degradadas, a integração de sistemas de monitoramento, a regularização e o reconhecimento de Terras Indígenas e o fortalecimento de Unidades de Conservação — todas podem ser implementadas com o auxílio das geotecnologias, a partir de dados geoespaciais disponibilizados gratuitamente por órgãos públicos, como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e iniciativas multi-institucionais, como o MapBiomas.

O padrão de desmatamento que incide na bacia do rio Araguaia, sobretudo nas áreas não protegidas, insere a região na fronteira agrícola brasileira e é consistente com a expansão de pastagens e com a reestruturação do uso da terra impulsionada pela soja no Brasil central. A manutenção da cobertura vegetal natural na bacia do rio Araguaia depende não apenas da existência de áreas legalmente protegidas, mas também do fortalecimento contínuo de políticas públicas capazes de conter a expansão de usos antrópicos sobre a paisagem, de modo a reduzir ao máximo seus impactos.

O controle do desmatamento, a fiscalização sistemática e a valorização das terras indígenas e das unidades de conservação tornam-se medidas centrais para conciliar a produção agropecuária com a conservação ambiental na bacia do Araguaia. As geotecnologias, nesse contexto, não são meras ferramentas técnicas: são instrumentos de cidadania, de planejamento e de esperança para que o Araguaia continue a ser, por muitas gerações, um rio vivo!

Confira quem são os autores do artigo

Patrick Thomaz de Aquino Martins – Professor na Universidade Estadual de Goiás (UEG) e pesquisador do Programa “Araguaia Vivo 2030” e do INCT EECBio.

Roberta Capim Rocha – Mestranda em Recursos Natruais do Cerrado (RENAC) pela Universidade Estadual de Goiás, analista de pesquisa no Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e coordenadora do MapBiomas Alerta Cerrado

Marcelo Henrique Schmitz – Professor na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).

Luciano Fernandes Arbués Mota – Graduando em Geografia pela Universidade Estadual de Goiás e bolsista do Programa “Araguaia Vivo 2030”.

Renata Mariana Póvoa Matos – Mestranda em Geografia pela Universidade de Brasília (UnB).

Levi Carina Terribile – Professora na Universidade Federal de Jataí (UFJ), pesquisadora do Programa “Araguaia Vivo 2030” e do PPBio Araguaia, e uma das coordenadoras do INCT EECBio.