Por: Ludgero Cardoso Galli Vieira e equipe técnica da Expedição Araguaia 2026* – Especial para o Jornal “Opção”  

* Confira ao final do ensaio os autores e equipe da expedição Araguaia 2026

A partir do dia 1º de fevereiro, terá início a Expedição Araguaia 2026, uma das maiores (senão a maior…) expedições fluviais e científicas do Brasil. Pela sua magnitude e abrangência, esta expedição se apresenta como um projeto complexo e desafiador: serão percorridos aproximadamente 3.500 quilômetros de corpos hídricos (contando trajetos de ida e volta) e amostrados 150 lagos conectados tanto ao canal principal do Rio Araguaia quanto em sete importantes tributários: Ribeirão Água Limpa, Rio Vermelho, Rio do Peixe, Rio Crixás-Açu (que drenam o Estado de Goiás), Rio Cristalino, Rio das Mortes (que drenam o Estado do Mato Grosso) e Rio do Coco (que drena o Estado do Tocantins). 

Nossa equipe partirá da foz do Rio das Mortes, no ponto de encontro com o Rio Araguaia, e subirá cerca de 370 quilômetros do curso d’água, onde serão estudados 38 lagos. Ao longo da expedição, será realizada a coleta de uma ampla variedade de informações ambientais, biológicas e sociais, além da produção de registros destinados à comunicação e divulgação. O projeto contará com uma equipe multidisciplinar composta por 35 profissionais, incluindo 25 pesquisadores, 6 tripulantes e 4 piloteiros, que atuarão de forma integrada para ampliar o conhecimento sobre o Rio Araguaia e seus sistemas associados.

Equipe de pesquisa da expedição Araguaia, macrófitas aquáticas e preparação para a coleta de peixes

Com seus 2.100 quilômetros de extensão, o Rio Araguaia é considerado um dos últimos grandes rios de planície ainda livres de barragens no Brasil. Além disso, destaca-se por sua megabiodiversidade, pois a bacia hidrográfica que o sustenta abriga espécies características tanto do Cerrado quanto da Amazônia, bem como espécies adaptadas à transição entre esses dois biomas. Quando analisado como rota de dispersão de grandes animais, como a onça-pintada, o Rio Araguaia se consolida como o maior corredor ecológico viável do mundo, conectando três dos principais biomas brasileiros: Pantanal, Cerrado e Amazônia. Além de sua importância ecológica, a região desempenha um papel crucial para o país por abrigar importantes atividades econômicas. Historicamente, o rio sempre foi essencial para o estabelecimento e desenvolvimento dos modos de vida de populações originárias, tradicionais, ribeirinhas e, mais recentemente, de uma crescente população urbana. Todas essas comunidades compartilham um apreço profundo pelas belezas da região e mantêm uma conexão intrínseca com o ritmo natural do rio, moldado por seus pulsos de inundação – ciclos de secas e inundações que são fundamentais para os processos ecológicos e sociais ali estabelecidos.

A Expedição Araguaia 2026 será a quinta edição de uma jornada científica dedicada a acompanhar, ano após ano, a dinâmica de um dos rios mais emblemáticos do Brasil. Expedições como esta, que realizam o monitoramento contínuo do rio, são essenciais para identificar sinais precoces de degradação, avaliar os impactos do desmatamento e das mudanças climáticas, além de subsidiar decisões mais responsáveis para o manejo desse ambiente. Sem esse acompanhamento sistemático, muitas transformações ocorrem de forma silenciosa e, quando finalmente se tornam visíveis, as ações de recuperação podem ser inviáveis. Para ilustrar a importância do monitoramento em longo prazo, tomemos como exemplo um conjunto de dados reais publicados em uma das mais prestigiadas revistas científicas internacionais sobre ambientes aquáticos. Imagine um programa de monitoramento ambiental localizado na região da Ilha do Bananal, dentro da bacia do Rio Araguaia, que realizou medições anuais da área coberta por água (isto é, a superfície de água) entre os anos 2000 e 2007 – um intervalo de oito anos. Neste curto período, praticamente não é possível perceber mudanças significativas na superfície de água da região, conforme os gráficos apresentados abaixo, a partir do trabalho de Teixeira e colaboradores, publicado em 2024 na revista científica internacional Hydrobiologia.

Contudo, ao estender a análise para um intervalo temporal muito maior, entre 1987 e 2019 (totalizando 33 anos), observamos uma diminuição nítida e preocupante da cobertura de água, com uma redução de cerca de 34% neste período. Esse exemplo demonstra como análises em escalas temporais reduzidas podem mascarar transformações significativas, enquanto um monitoramento de longo prazo revela tendências de degradação que exigem atenção urgente. Portanto, o Rio Araguaia e seus afluentes necessitam de programas de monitoramento ambiental que considerem grandes escalas temporais para que possamos compreender plenamente a dinâmica desses ecossistemas e implementar medidas preventivas e corretivas de forma efetiva.

Redução da superfície de água na região da Ilha do Bananal com dois recortes temporais, entre os anos 2000 e 2007 (painel A, à esquerda) e entre 1987 e 2019 (painel B, à direita). 

A magnitude da Expedição Araguaia 2026 é evidenciada pela vasta quantidade de informações geradas e pelas diversas atividades realizadas pela nossa ampla rede de pesquisadores, organizados em 18 grupos temáticos. A seguir apresentamos um breve resumo de cada grupo de trabalho, com muitas das atividades já descritas em reportagens anteriores aqui do “Araguaia em Foco”, destacando sua relevância e as principais aplicações de seu trabalho.

1) Caracterização ambiental da água (condições físicas e químicas): O monitoramento da qualidade da água requer a aferição de diversos parâmetros ambientais. Alguns deles são medidos no momento da coleta, como profundidade do ponto de coleta, transparência da água, temperatura, pH, turbidez, condutividade elétrica, sólidos totais em suspensão, concentração de oxigênio dissolvido, saturação de oxigênio e potencial de oxidação-redução. No entanto, para outros parâmetros, como as concentrações de clorofila-a, sódio, amônio, potássio, cálcio, magnésio, fluoreto, cloreto, nitrito, brometo, nitrato, fosfato, sulfato, metais pesados e defensivos agrícolas, é necessário levar amostras de água de cada um dos 150 lagos estudados para análise laboratorial. Essas variáveis ambientais, juntamente com outras variáveis biológicas, sociais e relacionadas ao uso e ocupação do solo que serão obtidas por outros grupos de pesquisadores, servirão como base para a criação de um índice integrado de saúde hídrica, capaz de refletir as condições gerais dos ambientes estudados.

2) Coliformes: Os coliformes são um grupo de bactérias, como a Escherichia coli, amplamente utilizados na avaliação da qualidade da água. Sua presença e concentração estão frequentemente relacionadas a atividades humanas, tais como o uso de áreas de pastagem e a expansão urbana, que contribuem para o aporte desses microrganismos por meio do escoamento superficial durante as chuvas e do lançamento de efluentes domésticos nos corpos d’água. O estudo de coliformes em programas de monitoramento da qualidade da água de rios é essencial, pois esses microrganismos são indicadores confiáveis de qualidade sanitária e de contaminação fecal. A presença de coliformes sugere a possível contaminação por fezes e, consequentemente, a presença de outros microrganismos patogênicos, como bactérias, vírus ou protozoários responsáveis por doenças transmitidas pela água, incluindo hepatite A, febre tifoide e diarreias infecciosas. Portanto, concentrações de coliformes fora dos padrões legais indicam que a água não é segura para o consumo humano (potabilidade) e usos recreacionais, como banho ou prática de esportes aquáticos.

3) Mercúrio: O mercúrio é um elemento químico naturalmente presente no ambiente, mas altamente tóxico, mesmo em pequenas concentrações. Com o tempo, ele se acumula nos ecossistemas terrestres, principalmente por meio da deposição atmosférica, sendo armazenado no solo e na vegetação. No solo, o mercúrio associa-se fortemente à matéria orgânica e a partículas minerais, formando importantes reservatórios de longo prazo. Na vegetação, o elemento é absorvido principalmente pelas folhas diretamente da atmosfera, incorporado à biomassa e, posteriormente, retorna ao solo com a queda e decomposição de folhas e galhos. A remoção da cobertura vegetal, por meio do desmatamento, intensifica a erosão e o escoamento superficial, facilitando o transporte de mercúrio associado a partículas do solo para rios e lagos. Além disso, os incêndios florestais liberam grandes quantidades de mercúrio previamente acumulado no solo e na vegetação para a atmosfera. Esse mercúrio atmosférico pode ser redistribuído e novamente depositado nos ecossistemas aquáticos, aumentando o risco de contaminação. Diante do avanço do desmatamento e do aumento da frequência de incêndios na bacia do rio Araguaia, é essencial compreender os estoques naturais de mercúrio nos ecossistemas terrestres e os processos que controlam o transporte do elemento para a atmosfera e os ambientes aquáticos. Este conhecimento é fundamental para avaliar o impacto ambiental e propor estratégias de preservação da bacia hidrográfica.

4) Fitplâncton: O fitoplâncton é um grupo de microrganismos fotossintetizantes em suspensão na coluna d’água. Eles desempenham um papel essencial nos ecossistemas aquáticos, sendo a base da cadeia alimentar e produzindo oxigênio por meio da fotossíntese. Devido ao seu ciclo de vida curto e à sua alta sensibilidade a mudanças ambientais, o fitoplâncton é um importante bioindicador da saúde dos corpos d’água, podendo refletir perturbações como despejo de efluentes, variações no nível da água e alterações climáticas. Entre os microrganismos do fitoplâncton, destacam-se as cianobactérias, que demandam atenção especial. Em condições de poluição e altos níveis de nutrientes (como fósforo e nitrogênio), as cianobactérias podem proliferar rapidamente, gerando florações. Essas florações podem liberar toxinas na água, comprometendo a saúde dos ecossistemas aquáticos e das populações humanas e animais que dependem dessas águas. Nos últimos anos, a mudança climática, o aumento da temperatura global, a poluição e o avanço da urbanização têm sido fatores agravantes para a proliferação de florações de cianobactérias. Por isso, o monitoramento espacial e temporal do fitoplâncton, especialmente durante as expedições, é essencial para avaliar e assegurar a preservação dos rios e lagos na bacia do Araguaia. Este monitoramento é crucial para entender o estado de conservação dos corpos hídricos e para proteger as populações humanas que dependem desses recursos.

5) Zoooplâncton: Apesar de serem fundamentais para a vida nos ambientes aquáticos, os benefícios proporcionados pelo zooplâncton comumente passam despercebidos pelo grande público. Esse grupo de micro-organismos, formado principalmente por rotíferos, cladóceros, copépodes e amebas testáceas (ou tecamebas), vive suspenso na coluna d’água de rios, lagos, lagoas e mares. Eles funcionam como o principal elo na cadeia trófica aquática, transformando a energia das algas em biomassa que sustenta peixes e outras espécies maiores. Além disso, ao controlar o crescimento excessivo de algas, ajudam a manter o equilíbrio ecológico e a qualidade da água. Outro aspecto notável do zooplâncton é sua resistência evolutiva. Algumas espécies produzem ovos de resistência, uma adaptação que lhes permite sobreviver a condições ambientais extremas, como longos períodos de seca. Essa característica possibilita a persistência do grupo mesmo em cenários de adversidade, garantindo sua continuidade nos ecossistemas. Devido à sua baixa mobilidade e alta sensibilidade ambiental, o zooplâncton sofre impactos diretos de poluentes e alterações nos corpos d’água. Essa característica, no entanto, os torna eficientes bioindicadores. Sua rápida resposta a mudanças ambientais os qualifica como ferramentas valiosas para o monitoramento da saúde dos ecossistemas aquáticos e a preservação das águas.

6) Macrófitas aquáticas: As macrófitas aquáticas são plantas encontradas em ambientes aquáticos e visíveis a olho nu. Esse grupo apresenta uma ampla diversidade de espécies com diferentes características morfológicas, sendo capazes de colonizar variados habitats. Com base no grau de adaptação ao ambiente aquático, as macrófitas são classificadas em diferentes grupos ecológicos: (i) espécies emergentes (plantas enraizadas no sedimento, cujas folhas e partes superiores se desenvolvem acima da superfície da água; (ii) flutuantes livres (plantas que flutuam na superfície da água sem estarem fixadas ao substrato; (iii) submersas enraizadas (plantas enraizadas no sedimento que crescem completamente submersas na água); (iv) submersas livres (plantas que permanecem submersas, mas não são fixadas ao substrato; (v) enraizadas com folhas flutuantes (plantas enraizadas no sedimento, mas com folhas que flutuam na superfície da água); e (vi) epífitas (plantas que crescem aderidas à superfície de outras plantas aquáticas). Essas espécies desempenham funções ecológicas fundamentais nos ecossistemas aquáticos. Além de atuarem como produtores primários, são responsáveis por aumentar a heterogeneidade ambiental, criando nichos que favorecem a riqueza e a diversidade de outros grupos ecológicos.

7) Perifíton: As algas perifíticas formam um grupo diverso de organismos fotossintetizantes, caracterizados por viverem aderidos a substratos submersos variados, que podem ser bióticos (como plantas aquáticas) ou abióticos (como rochas e sedimentos). Essas algas desempenham o papel de produtores primários na cadeia alimentar, contribuindo significativamente para o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos. Devido à sua alta sensibilidade ao enriquecimento de nutrientes (eutrofização) e à presença de contaminantes nos ambientes aquáticos, as algas perifíticas possuem grande relevância como indicadores ambientais. Além disso, sua variedade morfológica as torna fundamentais para processos ecológicos importantes, como a ciclagem de nutrientes e o sequestro de carbono, impactando diretamente a dinâmica de rios, lagos, riachos e planícies de inundação. Durante a expedição, iremos coletar as algas perifíticas associadas às macrófitas aquáticas com o objetivo de descrever essa comunidade. Após sua identificação, esses organismos serão utilizados como base para estudos de biomonitoramento, auxiliando na avaliação da qualidade ambiental e na preservação da região.

8) Macroinvertebrados associados às macrófitas: As macrófitas aquáticas oferecem uma grande variedade de microhabitats para diversas comunidades aquáticas. Entre essas comunidades, destacam-se os invertebrados aquáticos, organismos dependentes da estrutura fornecida pelos bancos de macrófitas para reprodução, refúgio e alimentação. Esses invertebrados são representados por larvas (e, em alguns casos, também adultos) de insetos aquáticos, além de outros grupos como anelídeos, nematóides, crustáceos, moluscos e aracnídeos. Dentre os invertebrados aquáticos, os insetos aquáticos representam a classe mais abundante e diversa. Além de integrarem a base da cadeia alimentar, os invertebrados aquáticos desempenham papel fundamental na ciclagem da matéria orgânica e de nutrientes. Sua composição e abundância refletem a qualidade ambiental, uma vez que englobam táxons sensíveis e tolerantes a alterações ambientais, sendo amplamente utilizados como indicadores da saúde dos ecossistemas aquáticos. Dessa forma, o conhecimento da biodiversidade desses organismos permite compreender a estrutura dessas comunidades, bem como monitorar e inferir os impactos de mudanças ambientais locais, como a eutrofização e as alterações no uso do solo no entorno, e de processos em escala de bacia hidrográfica, como variações no regime de fluxo e nos padrões de precipitação.

9) Peixes: A bacia do rio Araguaia abriga aproximadamente 450 espécies de peixes, sendo a bacia com o maior número de espécies entre os ecossistemas aquáticos do Cerrado. Entre essas espécies, destacam-se peixes amplamente conhecidos, como a piraíba, a pirarara e o pirarucu, que despertam interesse tanto ecológico quanto econômico e cultural. Além de desempenharem um papel ecológico fundamental nos ecossistemas aquáticos, os peixes são de grande importância socioeconômica para as comunidades do Vale do Araguaia. Eles representam uma valiosa fonte de proteína para populações ribeirinhas e são protagonistas em diversas atividades pesqueiras, tais como a pesca de subsistência (fundamental para a segurança alimentar das comunidades locais.), a pesca artesanal (essencial para a geração de renda e atividades tradicionais) e a pesca recreativa (contribui significativamente para o turismo na região). Apesar de toda essa importância, ainda existem muitas lacunas de conhecimento sobre os peixes na bacia do Araguaia. Por exemplo, quais são os locais dentro da bacia que abrigam mais espécies? É possível prever as mudanças na quantidade e nas espécies de peixes que ocorrem ao longo do rio? Como os impactos das atividades humanas afetam os peixes? Portanto, os dados gerados na expedição serão integrados às informações já obtidas nos últimos anos, ampliando nosso conhecimento sobre a biodiversidade de peixes da bacia. Este esforço visa promover a sustentabilidade das populações de peixes, fundamentais para a conservação ecológica, o bem-estar das comunidades e o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.

Coleta de peixes, monitoramento por radiotelemetria da piraíba, aves do Araguaia e exemplares de macroinvertebrados e de zooplâncton.

10) Vegetação terrestre: A equipe de flora tem se dedicado ao estudo da vegetação na bacia do rio Araguaia, uma região que ainda apresenta grandes lacunas de conhecimento botânico, especialmente nas áreas de planícies alagáveis, devido à dificuldade de acesso a esses ambientes. A realização de coletas científicas é fundamental para ampliar o conhecimento sobre as plantas da região, contribuindo diretamente para a conservação da biodiversidade, a formulação de políticas públicas e o uso sustentável dos recursos naturais. Nesse contexto, o bioma Cerrado se destaca por ser um dos mais ricos em diversidade vegetal no mundo e, ao mesmo tempo, um dos mais ameaçados pela ação humana. O estudo sistemático da flora do Cerrado é essencial para identificar espécies pouco conhecidas ou endêmicas, compreender as adaptações das espécies às condições locais de solo, clima e regimes hidrológicos, e subsidiar estratégias de manejo sustentável e restauração ecológica. Além disso, essas pesquisas valorizam o Cerrado e garantem a manutenção de serviços ecossistêmicos importantes, como a proteção dos recursos hídricos, pelo papel das plantas na regulação do ciclo hidrológico e na qualidade da água, e o equilíbrio climático, já que a vegetação do Cerrado atua no sequestro de carbono e na regulação da umidade e temperatura regionais. O fortalecimento da pesquisa científica e a divulgação dos resultados são passos fundamentais para sensibilizar a sociedade sobre a importância de preservar esse bioma e promover a convivência sustentável entre as atividades humanas e a biodiversidade da região.

11) Aves: A observação de aves, ou aviturismo, é uma modalidade de turismo de natureza voltada à contemplação das aves, contribuindo para a educação ambiental, a sensibilização para a conservação ambiental e da biodiversidade e a geração de renda sustentável. Essa iniciativa também promove a valorização de áreas naturais e o fortalecimento de comunidades locais, integrando conservação e desenvolvimento socioeconômico. A equipe de Aves desempenha um papel essencial no fortalecimento do turismo de base comunitária, realizando o levantamento e o registro das espécies da região, promovendo oficinas de capacitação para guias locais e organizando outras ações relacionadas. Essas atividades são fundamentais para a estruturação e consolidação de uma rede de turismo regional inclusiva e sustentável. Até o momento, a equipe já percorreu 18 municípios, registrou e fotografou mais de 440 espécies de aves e disponibilizou 430 listas na plataforma de ciência cidadã eBird (www.ebird.org), ampliando o conhecimento sobre a avifauna local e fortalecendo iniciativas de conservação.

12) Insetos terrestres e identificação molecular por “DNA barcoding”: Os insetos representam o grupo mais diverso de organismos do planeta e desempenham papéis ecológicos fundamentais, mas sua diversidade ainda é pouco conhecida em grande parte da bacia do Rio Araguaia. Durante a Expedição Araguaia 2026, duas armadilhas passivas de coleta contínua serão instaladas no próprio barco para realizar uma amostragem de insetos terrestres ao longo de todo o percurso, permitindo uma caracterização qualitativa da fauna associada às diferentes regiões visitadas. Parte do material coletado será identificada por meio da técnica de DNA barcoding, que utiliza pequenos fragmentos do genoma para a identificação precisa das espécies, inclusive aquelas de difícil reconhecimento morfológico, possibilitando também a detecção de espécies ainda não descritas pela ciência. Além disso, alguns exemplares serão destinados à montagem de uma caixa entomológica, que será utilizada em atividades de extensão universitária e divulgação científica, aproximando o público da biodiversidade do Araguaia. Essa iniciativa permitirá ainda a construção de uma biblioteca de referência de informações genéticas para a fauna de insetos da região, criando uma base estratégica para estudos futuros de biodiversidade, monitoramento ambiental e aplicações em DNA ambiental (eDNA).

13) Genética e Ecologia Molecular: O DNA ambiental (eDNA) tem se destacado como uma inovação tecnológica de grande impacto para estudos ambientais e de monitoramento da biodiversidade, especialmente para a bacia do Rio Araguaia. Essa abordagem moderna permite identificar as espécies de uma região sem a necessidade direta de captura ou manipulação dos organismos. Resquícios de material genético (DNA) presentes em amostras do ambiente, como água, solo ou ar — incluindo células, injeta de animais, pelos, fezes, mucos ou teias de aranha —, são analisados para revelar informações sobre a composição da fauna, flora e de microrganismos presentes no local. Por unir alta eficiência com uma boa relação de custo benefício e impacto, o método tem sido amplamente utilizado em projetos de levantamento e monitoramento da biodiversidade, trazendo benefícios claros em regiões geograficamente amplas e de alta biodiversidade, como o Rio Araguaia. Portanto, com essa ferramenta, torna-se possível não apenas identificar questões ambientais de forma mais ágil, mas também planejar ações direcionais para a conservação, contribuindo para a manutenção do equilíbrio ecológico e garantindo a proteção da biodiversidade da região para as futuras gerações.

14) Capacitação de Turismo da Vida Selvagem: Abrir um canal de comunicação com as prefeituras e investir em capacitações voltadas para o turismo de vida selvagem é uma ação estratégica que beneficia não apenas o meio ambiente, mas também as comunidades locais e a economia regional. Essas iniciativas garantem a preservação do Rio Araguaia e fortalecem suas comunidades, promovendo uma convivência harmoniosa entre desenvolvimento humano, cultural e ambiental. A combinação de parceria institucional, capacitação local e conscientização ambiental cria as bases para transformar o turismo no Araguaia em um modelo de sustentabilidade e referência nacional e internacional. Além disso, provoca mudanças profundas na relação das comunidades com seu entorno, promovendo inclusão econômica, social e a valorização de sua própria identidade enquanto protagonistas na conservação do legado do Rio Araguaia.

15) Produção audiovisual: Com foco na divulgação do potencial para turismo da vida silvestre ou de natureza para a região, um novo documentário será produzido durante a Expedição Araguaia 2026, dando continuidade aos trabalhos anteriores e ao documentário “Expedição Araguaia, lançado em 2025 no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, o FICA, na cidade de Goiás. O principal objetivo dessa iniciativa é apresentar as belezas naturais e evidenciar como o turismo pode desempenhar um papel central na conservação ambiental e no fortalecimento das comunidades que vivem ao longo do Rio Araguaia. Por meio de imagens impactantes, depoimentos e análise das dinâmicas locais, ele terá o objetivo de educar, inspirar e engajar espectadores a promoverem um turismo mais sustentável, garantindo o equilíbrio entre desenvolvimento e preservação para as próximas gerações.

16) Comunicação: Registrar e divulgar por fotos e vídeos as atividades realizadas durante a Expedição Araguaia 2026 nas redes sociais representa uma poderosa ferramenta para a educação, sensibilização e engajamento coletivo, e nosso grupo tem um enorme engajamento com as comunidades locais com essas ferramentas (acompanhe as postagens em nossos instagrams, em @araguaiavivo e @ppbio.araguaia). Além de promover a conscientização sobre a preservação ambiental e os desafios enfrentados, esses conteúdos ajudam a aproximar a ciência do cotidiano das pessoas, inspirar a próxima geração de cientistas e fortalecer o papel do projeto como referência em ações de sustentabilidade e transformação social. No contexto digital atual, uma boa utilização das redes sociais não é apenas uma escolha estratégica, mas um meio indispensável para ampliar o impacto e o alcance das atividades científicas realizadas durante a expedição.

17) Monitoramento por radiotelemetria da Piraíba e demais peixes de grande porte: Entre a grande diversidade de peixes do rio Araguaia, destacam-se os grandes bagres, como a piraíba, que pode atingir até 2,5 metros de comprimento, e a pirarara. Além de serem espécies icônicas para a pesca esportiva, esses peixes desempenham um papel crucial no equilíbrio ecológico do rio e possuem grande importância social e econômica para as comunidades locais. Apesar de sua popularidade entre pescadores e ribeirinhos, muitos aspectos básicos de sua biologia e ecologia ainda permanecem pouco compreendidos: Eles realizam migrações para reprodução e alimentação ao longo da bacia? Em que época do ano essas migrações ocorrem? Quais distâncias percorrem ao longo do rio? Para responder a essas perguntas e avançar no entendimento das espécies, o Projeto Peixara tem utilizado tecnologias de ponta, marcando bagres do rio Araguaia com transmissores de telemetria, acompanhando seus movimentos por meio de bases fixas instaladas ao longo do rio e também com monitoramentos móveis realizados com antenas. Em 2026, uma importante parceria entre o Programa Araguaia Vivo e o Projeto Peixara irá expandir significativamente esse trabalho. Durante a Expedição Araguaia 2026, o barco-hotel estará equipado com tais antenas de monitoramento. Essa abordagem inovadora permitirá a coleta de dados inéditos e fortalecerá as ações de pesquisa, conservação e uso sustentável dos grandes bagres da bacia. A união de esforços entre os vários projetos destaca a importância de gerar conhecimento científico aplicado à preservação da biodiversidade e ao manejo sustentável dos recursos naturais, assegurando a conservação dessas espécies emblemáticas e os benefícios sociais e ecológicos que proporcionam.

18) Formação da nova geração de cientistas brasileiros: Formar uma nova geração de cientistas é uma necessidade urgente e estratégica para enfrentar os desafios globais, ampliar os horizontes do conhecimento, promover a inovação e garantir um futuro sustentável. A participação dos estudantes de graduação na Expedição Araguaia 2026 oferece uma oportunidade única para que eles vivenciem, na teoria e na prática, os conteúdos ensinados em sala de aula e nos estágios em laboratórios de pesquisa. O contato direto com o ambiente natural não apenas aprofunda a compreensão dos temas abordados, mas também desperta uma consciência ambiental e social mais aguçada. Ao se deparar com a dinâmica do rio e a riqueza de vida que ele abriga, os alunos desenvolvem um olhar mais crítico, reflexivo e comprometido com os desafios ambientais. Essas vivências práticas transformadoras também têm um impacto duradouro na formação de futuros cientistas, contribuindo ativamente para o desenvolvimento e a aplicação de estratégias atuais e futuras de conservação da bacia hidrográfica do Rio Araguaia.

“Making of” e Produção de conteúdo para comunicação e captação para o documentário “Expedição Araguaia”, produzido em 2025 e lançado no FICA 2025, na Cidade de Goiás.

Concluindo, a Expedição Araguaia 2026 representa uma iniciativa indispensável para aprofundar o conhecimento sobre a biodiversidade e as dinâmicas socioambientais de uma das regiões mais ricas e, ao mesmo tempo, ameaçadas do Brasil. Além de produzir dados científicos valiosos para a conservação do ecossistema, a expedição promove conscientização ambiental, capacitação local e potencializa o desenvolvimento sustentável da bacia do Rio Araguaia. Contudo, para que esses esforços alcancem resultados concretos e duradouros, é essencial contar com financiamento adequado e investimentos robustos, seja por meio de recursos públicos ou privados. Como já discutimos aqui no Araguaia em Foco anteriormente, a ciência no século XXI é altamente colaborativa, pois envolve muitos recursos e desenvolvimentos tecnológicos. Os recursos para os nossos diversos trabalhos no Araguaia, incluindo as grandes expedições e o enorme esforço que se segue para analisar todo o material coletado e processar todas as informações, vêm de diversas fontes e envolvem vários projetos e programas de pesquisa, como o “Araguaia Vivo 2030” (@araguaiavivo), financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG) e gerenciado pela Tropical Water Research Alliance (TWRA), do PPBio Araguaia (@ppbio.araguaia), executado pela PUC-Goiás com financiamento do CNPq, o recém-iniciado Programa Ecológico de Longa Duração (PELD)  Araguaia, um programa do CNPq também financiado pela FAPEG, e o Instituto Nacional de Ciência & Tecnologia (INCT) em “Ecologia, Evolução e Conservação da Biodiversidade, financiado pelo CNPq e FAPEG, isso sem falar em vários parceiros de trabalho, como o Instituto Onça Pintada (IOP), que vem discutindo a criação do “corredor do Araguaia” há mais de 20 anos, e o Projeto Peixara, que está realizando o monitoramento por telemetria de espécies de peixe de grande porte e que inclusive participará da Expedição Araguaia 2026.

O apoio financeiro proveniente da integração desses vários projetos assegura desde a aquisição de tecnologias avançadas, como o uso de DNA ambiental, até a logística de trabalho em campo, bem como a formação de pesquisadores e a implementação de projetos de manejo e conservação. Além disso, o envolvimento de agentes financiadores reforça o impacto da pesquisa, garantindo que ações científicas sejam ampliadas, ganhem escala e cheguem à sociedade por meio de práticas sustentáveis e políticas públicas eficazes. 

Investir na ciência e em iniciativas como a Expedição Araguaia não é apenas uma questão de preservar o meio ambiente, mas também de fomentar o desenvolvimento econômico e social da região, criando um legado positivo para as gerações futuras.

Confira quem são os autores do artigo

Ludgero Cardoso Galli Vieira – Professor da Universidade de Brasília, campus de Planaltina (FUP/UnB), Vice-Coordenador do Programa Araguaia Vivo 2030 da TWRA/FAPEG e Pesquisador do PPBio Araguaia (PUC-Goiás/CNPq) e do PELD Araguaia (FAPEG).

João Carlos Nabout – Professor na Universidade Estadual de Goiás, coordenador da Atividade de biodiversidade aquática no Programa Araguaia Vivo 2030 da TWRA/FAPEG, pesquisador do PPBio Araguaia (PUC-Goiás/CNPq), Diretor Científico do CEHIDRA Cerrado (UEG/FAPEG) e coordenador do PELD Araguaia (FAPEG).

Fabrício Barreto Teresa – Professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e coordenador da atividade de Turismo e Pesca do Programa “Araguaia Vivo 2030” da TWRA, pesquisador associado ao PPBio Araguaia (PUC-Goiás/CNPq) e vice-coordenador do PELD Araguaia (FAPEG).

Anny Kelly Nascimento de Oliveira – Doutoranda em ecologia e evolução pela Universidade Federal de Goiás, voluntária do Programa “Araguaia Vivo 2030” da TWRA.

Brennda Menezes da Silva – Doutoranda em Ecologia e Evolução pela Universidade Federal de Goiás (UFG), voluntária do Programa “Araguaia Vivo 2030” da TWRA.

Fernanda Fraga Rosa – Bióloga e pesquisadora bolsista do Programa “Araguaia Vivo 2030” (TWRA/FAPEG) e “PPBio Araguaia”.

Giovanna de Oliveira – Mestranda em Recursos Naturais do Cerrado pela Universidade Estadual de Goiás e pesquisadora voluntária do Programa “Araguaia Vivo 2030” da TWRA e do PPBio Araguaia.

Indiara Nunes Mesquita – Bióloga e pesquisadora bolsista do Programa “Araguaia Vivo 2030” (TWRA/FAPEG) e “PPBio Araguaia”  (PUC-GOIÁS/CNPQ).

Jascieli Carla Bortolini – Professora da Universidade Federal de Goiás e Pesquisadora do Araguaia Vivo 2030 (TWRA/FAPEG), do PPBio Araguaia (PUC-Goiás/CNPq) e do PELD Araguaia (FAPEG).

Juliana Simião-Ferreira – Professora na Universidade Estadual de Goiás e pesquisadora voluntária do Programa “Araguaia Vivo 2030” da TWRA e do PPBio Araguaia.

Larissa Araújo da Silva – Graduanda em Ciências Biológicas pela Universidade de Brasília, voluntária do Programa “Araguaia Vivo 2030” da TWRA.

Layon Junior Silva Santos – Gestor Ambiental pela Universidade de Brasília, campus de Planaltina (FUP/UnB), bolsista do Programa Araguaia Vivo da TWRA/FAPEG.

Letícia Martins Rabelo – Doutora em Ecologia e Evolução, pela Universidade Federal de Goiás, bolsista do Programa “Araguaia Vivo 2030” da TWRA e do PPBio Araguaia.

Lígia Pereira Borges de Mesquita – Doutoranda em ecologia e evolução pela Universidade Federal de Goiás, voluntária do Programa “Araguaia Vivo 2030” da TWRA e do PPBio Araguaia.

Lisiane Hahn – Coordenadora técnica do Projeto Peixara. 

Lorena Lana Camelo Antunes – Bióloga e pesquisadora bolsista do Programa “Araguaia Vivo 2030” (TWRA/FAPEG) e “PPBio Araguaia” (PUC-GOIÁS/CNPQ).

Marcela Fernandes de Almeida – Doutoranda em ecologia e evolução pela Universidade Federal de Goiás, voluntária do Programa “Araguaia Vivo 2030” da TWRA.

Marília Lourenço Alves da Silva – Ecóloga e analista ambiental pela Universidade Federal de Goiás, bolsista do Programa “Araguaia Vivo 2030” da TWRA.

Natalia da Silva Pereira – Mestranda em Ecologia e Evolução pela Universidade Federal de Goiás e voluntária do Programa “Araguaia Vivo 2030” da TWRA.

Renata de Oliveira Dias – Professora na Universidade Federal de Goiás (UFG), integrante do Laboratório de Genética & Biodiversidade (LGBIO) e Pesquisadora do Programa Araguaia Vivo 2030, do PPBio Araguaia e do INCT EECBio

Shelda Aguiar Guimarães – Graduanda em Gestão Ambiental pela Universidade de Brasília, campus de Planaltina (FUP/UnB), bolsista do Programa Araguaia Vivo da TWRA/FAPEG.

Thais Rodrigues Oliveira – Professora na Universidade Estadual de Goiás (UEG), Coordenadora do Laboratório NAUFO da UEG (núcleo audiovisual de produção de foleys e sons), e Pesquisadora do Programa Araguaia Vivo 2030, do PPBio Araguaia e do INCT EECBio.

Andreia Juliana Rodrigues Caldeira – Professora da UEG e coordenador da atividade 4 do Programa “Araguaia Vivo 2030” da TWRA e pesquisadora responsável pela educação ambiental no “PPBio Araguaia” e no INCT EECBio.

Ana Clara Diniz – Publicitária e Especialista em Marketing e Branding, comunicadora do Programa Araguaia Vivo 2030 e do Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede (CNPq).

Thales Yann da Silva Orlando – Bolsista do Programa “Araguaia Vivo 2030” da TWRA e do PPBio Araguaia.

Vitória Cristhina da Silva Santos – Graduanda em Gestão Ambiental pela Universidade de Brasília, campus de Planaltina (FUP/UnB), bolsista do Programa Araguaia Vivo da TWRA/FAPEG.

Mariana Pires de Campos Telles – Professora da PUC Goiás e da Universidade Federal de Goiás (UFG), coordenadora geral do Programa “Araguaia Vivo 2030” e do “PPBio Araguaia”, Coordenadora do CGEN e pesquisadora do PELD Araguaia e do INCT EECBio.