O projeto histórico do Grande Goiás. Precisamos retomar parte da Bahia e o Triângulo Mineiro

A bandeira do nosso movimento é retomar o Distrito Federal, o Tocantins, o Triângulo Mineiro e parte da Bahia, que era de Goiás

Arnaldo Bastos Santos Neto

Mapa de Goiás dois goias-mapa

Ao ler reportagens recentes sobre o ressurgimento de movimentos separatistas no Sul e no Sudeste do Brasil, recordei uma estória que me foi contada por um amigo imaginativo. No texto a seguir abro espaço para sua voz: “Quando fiz pós-graduação num Estado do Sul do Brasil, vivi um momento curioso. A disciplina trabalhava com temas de Teoria do Estado, uma matéria importante para quem estuda o Direito Público e o Constitucionalismo. Numa das aulas, o professor, decerto querendo movimentar um pouco mais os debates, levantou a questão do separatismo sulista. A turma era quase toda constituída de sulistas, com exceção de um paulista, um baiano e eu, goiano. Mal o tema foi posto em discussão e a briga tomou conta da sala. Primeiro entre os próprios sulistas. Uns favoráveis, outros contrários. Uns destacavam a viabilidade do novo país enquanto outros alertavam para as dificuldades. Um disse que o sul bancava o Brasil com seus impostos. O paulista, chateado com a observação, interveio lembrando que quem sustentava o Brasil, na verdade, eram os do seu Estado. E lembrou que quando pretenderam uma secessão, em 1932, os sulistas marcharam na direção de São Paulo para sufocar o movimento. Terminou dizendo, meio de birra, que iriam pagar com a mesma moeda, também marchariam armados contra a sedição sulista. O baiano falou também, naquele jeito manso e sossegado, e disse que tudo bem, mas que os sulistas escolhessem outro lugar para passar as férias, que as praias do Nordeste seriam vedadas aos cidadãos do novo Estado do Sul. Falou isso em tom de troça, com um riso divertido, o que fez todo mundo rir e descontraiu um pouco o ambiente.

“Neste momento lembraram de mim, que estava num canto, matreiro, desconfiado daquela conversa, relembrando antigas conversas na Faculdade de Direito da UFG, um verdadeiro redemoinho na cabeça. Queria ficar quieto. Não estava ali para levantar batalhas. Goiano dá um boi para não entrar numa briga… mas tinham que me provocar. O que eu iria dizer… teria coragem de expor o nosso plano? ‘E você, goiano, qual a sua opinião’, alguém perguntou. Vi que não dava para fugir da refrega. Ia parecer covardia ou falta de opinião. Aprumei, pigarreei e comecei lembrando da nossa bandeira. Vocês já viram a bandeira do Estado de Goiás? Viram que lá tem cinco estrelas? Vou explicar por quê. Cada estrela representa uma província no nosso sonho histórico, a nossa ambição política maior, que todo goianinho aprende cedo em casa, ensinado pelos pais, sempre com a recomendação de manter segredo: construir o Grande Goiás, um Estado unitário no coração do continente.

Mapa de Goiás 2 mapa_goias-municipios

“As estrelas do canto direito representam nossos Estados-irmãos, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, ambos filhos da mesma cultura sertaneja. Não podemos viver sem eles. Para onde forem Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, nós iremos. Geografia é destino. Temos um destino compartilhado. No outro canto, estão o Tocantins e o Triângulo Mineiro. O Tocantins é nossa província rebelde, uma parte desgarrada do território goiano. Nunca aceitamos a separação! Não existem tocantinenses. Existem goianos do Tocantins, tão somente. A província rebelde será reconduzida à condição de província do Grande Goiás, que, como disse, será um Estado unitário. E o Triângulo Mineiro, até hoje mais ligado a Goiânia que a Belo Horizonte, foi nosso no Século 19, e nos foi tirado por um imperador arbitrário, um símbolo do desprezo que o poder central sempre nos devotou. Certamente é o nosso maior ressentimento histórico.

“O Poder Judiciário ficará dividido entre Cuiabá e Campo Grande, o Poder Legislativo ficará em Uberlândia e o Poder Executivo terá sede em Goiânia. No Tocantins, por dez anos, os moradores não terão autonomia política, ficando sem votar para prefeitos ou vereadores, como punição pela rebeldia perpetrada após a malsinada Constituição de 1988 permitir a secessão. A estrela central na nossa bandeira é a estrela do Grande Goiás, estrela maior do Último Ocidente.

“E ainda, continuei, iremos reivindicar a volta do ‘Quadradinho’. O ‘Quadradinho’, como sabem, é como a gente se refere ao Distrito Federal. Fizemos a gentileza de ceder aquela região para o governo federal, mas, no caso de dissolução da federação brasileira, o DF não terá mais função. Nós o queremos de volta. É chão goiano, sempre será. Todos os moradores poderão permanecer, claro… são bem-vindos. Mas os que ficarem terão de jurar fidelidade à nossa bandeira e ao novo país. Nosso plano para o ‘Quadradinho’ é simples: como Goiás é um Estado muito conservador, o que cria muitas tensões, especialmente com os jovens e os mais liberais quanto a costumes, iremos reservar a região para ser uma área liberada, onde tudo será permitido, cassinos, nudismo, casas de swing e strip, consumo de maconha. Uma espécie de Las Vegas do Cerrado. Goiás será como Utah e o ‘Quadradinho” será como Nevada, para lembrar os Estados vizinhos nos EUA, onde num pode tudo (Nevada) e noutro não pode nada (Utah).

“Nossa prosperidade estará garantida. Vamos poder proteger nossa indústria incipiente da concorrência dos produtos paulistas e sulistas. O Triângulo Mineiro é uma joia e os outros Estados-irmãos não ficam atrás. Só o Estado de Goiás tem o tamanho da Alemanha e mesmo assim temos menos que um décimo da população de lá. Temos espaço e água de sobra. E poderemos aplicar as nossas leis, as leis que moram no espírito do povo goiano, o direito natural que herdamos dos nossos antepassados, os velhos goianos, e não estas leis artificiosas que brotam de Brasília como cogumelos todos os dias. Nossas leis serão claras e justas, ditadas pela reta razão, feitas para durar, para que fiquem gravadas na consciência do povo. O Tocantins será nosso novamente e nossos filhos não terão nas suas certidões de nascimento esta diferença horrenda que se estabeleceu após a ignóbil separação da província rebelde.

“Resolvi finalizar: o Extremo Oeste da Bahia, vocês sabem, também será reivindicado, mas de forma pacífica, aos nossos amigos baianos, com quem queremos ter um acordo comercial privilegiado, até para termos uma saída para o mar. Um dos lemas do nosso Movimento Outubrista (uma homenagem ao mês em que ocorreu a Revolução de 30, que levou Pedro Ludovico, o maior dos goianos, ao poder) é: ‘onde é Cerrado é Goiás’. Então, o Extremo Oeste da Bahia também é nosso. As pessoas desta região são mais ligadas a Goiânia do que a Salvador. É Goiânia que procuram quando precisam de hospitais mais sofisticados ou para educação de seus filhos. São sertanejos e não litorâneos. Mas isto será objeto de negociações e compensações. Não queremos brigar com nossos amigos da Bahia. A população decidirá por plebiscito.

“Todos escutaram o que eu disse em silêncio. Disse de uma vez só, sem intervalos, quase um discurso, e até fiquei surpreso por expor nossas ideias tão claramente. Dava para ver um misto de espanto e curiosidade na expressão de alguns. Até que o professor se inclinou na minha direção e disse: ‘Goiano, escuta aqui, você está falando sério?’ E eu respondi: ‘Uai, se vocês estiverem falando sério, pode ter certeza que lá em Goiás nós vamos falar sobre isto a sério também’. Alguns riram, outros começaram a juntar suas coisas, alguns ainda olhavam para mim um tanto quanto incrédulos. O professor achou por bem dar a aula por encerrada”.

Confesso que depois que escutei esta estória, contada numa mesa de bar por meu amigo, entre uma cerveja e outra, nunca mais consigo olhar para a bandeira de Goiás do mesmo modo. Eu gosto da nossa bandeira, é uma boa bandeira, simples e evocativa. Mas nunca tinha pensado nas estrelas. Agora olho para as cinco estrelas e fico matutando. Então, é isso que significam… Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins e Triângulo Mineiro. Talvez até o Extremo Oeste da Bahia. Cerrado por toda parte. Tudo é chão goiano, chão sertanejo! E até que Brasília daria uma Las Vegas fantástica, talvez até melhor que a original nortenha… aquele Congresso Nacional, por exemplo, seria um cassino maravilhoso. Até o clima é parecido… Ah, o Grande Goiás, nosso sonho histórico…

Arnaldo Bastos Santos Neto é professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás.

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Marina Porto A. Freitas

Hahaahahhahaha muito bom!!! Vc é demais, Arnaldo!

Bandeirante

Tem que incluir São Paulo também nessa grande União Caipira, temos a mesma cultura…

wender sergio

ai e sonhar demais!

Mario Ramos

Interessante o texto, revela o subconsciente regional mal resolvido do Brasil e talvez de todos os países com grandes extensões territoriais. Morei em Pernambuco e vi esse sentimento oculto aflorar em intensidades ainda maiores, assim como em vários outros pontos do nosso Brasil. Mas caro professor, vale salientar que cultura é um mero detalhe na hora de escolhermos nossas bandeiras, o que vale mesmo é o sentimento de pertencimento. É fato que o Triângulo Mineiro divide peculiaridades com o sul goiano, assim como com o oeste das Minas, mas nunca vi ninguém aqui dizer que é goiano, mas sim mineiro,… Leia mais