Nabyh Salum, o “doido” que foi um dos poucos médicos a deixar um legado para Goiás

O médico, que morreu aos 83 anos, foi decisivo para a construção da sede da Associação Médica de Goiás e para a ampliação de seu patrimônio. Era um visionário, um iluminista

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Iúri Rincon Godinho

Nabyh Salum — que morreu na quarta-feira, 30, de pneumonia, aos 83 anos — era chamado de “doido”. Em seu velório, na quinta-feira, 1º, no Jardim das Palmeiras, os bem informados diziam que ele foi um dos raros médicos a deixar um legado para as futuras gerações, o que só vem provar que os “loucos” lúcidos, como Nabyh Salum, movem o mundo.

O radiologista ficará na história como o homem que construiu a sede própria da Associação Médica de Goiás e, antes de todo mundo, previu e orientou como seria o imenso prédio que se constrói agora, o Órion, que será o maior complexo médico-hospitalar do Estado.

Quando Nabyh Salum começou a dizer, no início dos anos 1970, que construiria a sede, o chamaram de “doido”. Quando disse que a sede ficara pequena e que daria para fazer duas torres verticais gigantescas de consultórios e até um hotel no mesmo terreno, voltaram a chamá-lo de doido novamente. Agora o Órion é uma realidade como o médico racionalista e visionário predisse: duas torres que sobem aos céus na Avenida Portugal e aumentará em 6,5 vezes o patrimônio da AMG (de 12 milhões para 78 milhões de reais, em valores de 2014), com perspectivas reais de viabilidade financeira eterna para a Associação, até mesmo podendo pensar na possibilidade de dispensa de pagamento das anuidade pelos sócios.

Juscelino Kubitschek da medicina

A sede da Associação Médica de Goiás: em fase de construção

A sede da Associação Médica de Goiás: em fase de construção, uma obra moderna

Nos anos 70 ele era um doutorzinho elétrico que fazia um barulho extraordinário por onde passava. Nabyh Salum, pequenino (no tamanho e gigante nas ideias e ações) e agitado, tomava café-da-manhã, almoçava e jantava nas reuniões para levantar dinheiro visando a construção da sede própria da Associação Médica. E ele não queria nem aceitava qualquer coisa: “Temos de ter uma casa suntuosa, que dê exata noção da nossa importância”. Guardadas as proporções, era o Juscelino Kubitschek da medicina.

A sede começara a virar realidade durante a presidência de Alberto Rassi, mas Nabyh Salum foi nomeado desde o princípio para a construção. A área de 8 mil metros quadrados, escolhida pela diretoria da AMG e doada pelo governo, era tão longe que nem havia ruas para se chegar até lá. Cada médico pagou 2 mil cruzeiros, divididos em 10 parcelas de 200. Os recursos não foram suficientes e a entidade decidiu pedir um empréstimo à Caixa Econômica Federal.

Quando ficou pronta, edificada por uma empresa do Rio de Janeiro, as instalações encantaram Goiânia. O prédio reluzia sozinho no imenso descampado da Avenida Portugal. De tão longe, nem asfalto tinha. De lá dava para ver boa parte da capital. O fato de o estacionamento ser na parte de trás da AMG, onde hoje estão as quadras e piscinas, servia para dar a impressão de que o prédio flutuava livre no espaço. O projeto arquitetônico tinha linhas modernas. Parecia, até, projeto de Oscar Niemeyer, o arquiteto-mago que, ao lado de Lucio Costa, que pensou Brasília.

Na noite de inauguração, em 24 de agosto de 1974 (animada pelo show dos Demônios da Garoa), esteve presente o presidente da Associação Médica Brasileira, Pedro Kassab. Ele ouviu a fala sempre surpreendente, rápida e original de Nabyh Salum, repleta de sinônimos que, se compilados em livros, quase dariam um dicionário: “Uma nação só terá segurança, desenvolvimento e saúde se o seu guarda-vidas estiver no lugar que conquistou”.

Decente e humanista

Nabyh Salum, ao centro nos anos 70, durante a construção da primeira sede da AMG

Nabyh Salum, ao centro nos anos 1970, durante a construção da primeira sede da AMG

Durante sua presidência na AMG, reabriu as associações médicas que haviam sido fundadas durante a gestão de Luiz Rassi ainda na década de 50 e que se encontravam inativas, nas cidades de Mineiros, Jataí e Rio Verde. Quando algum colega precisava de atendimento de emergência ou de um tratamento mais avançado, a AMG custeava a vinda e o tratamento em Goiânia. Sua intenção era amparar os médicos em todos os sentidos. Por isso, chegou a propor que adquirissem terrenos no cemitério Jardim das Palmeiras para os médicos que não tinham condições financeiras. Os primeiros contatos para a fundação da Unimed Goiânia também aconteceram durante a gestão de Nabyh Salum, no início da década de 70.

Ele brincava dizendo que trocou a medicina para ser fotógrafo (radiologista). Foi bem mais do que isso. Seu concorrido aniversário de 80 anos no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, deu mostras de que, mesmo debilitado fisicamente pelo Mal de Parkinson (ele se tratava em Brasília — com resultados surpreendentes), ainda preservava o prestígio. Era amado, admirado. O mais preciso é trocar o “era” por “é”. Porque sua história positiva, de um homem — mais do que um médico — que construía, o tornará eterno, como o café e Balzac.

Nabyh Salum, Marlene Salum e Luiz Rassi

Nabyh Salum, Marlene Salum e Luiz Rassi. Nabyh e Rassi, médicos, morreram no mesmo ano

A missa de seu velório teve a presença de dois padres, um católico e um da igreja maronita (os árabes cristãos). Nela se encontraram Júnior Câmara (Grupo Jaime Câmara, que edita “O Popular”) e Batista Custódio (editor do “Diário da Manhã”); os ex-governadores Irapuan Costa Junior e Maguito Vilela: o ex-prefeito de Goiânia Francisco de Castro; e o maior colunista social de todos os tempos em Goiás, Lourival Batista Pereira. Sua “loucura” fez com ele se projetasse para além dos muros da saúde. Sua “loucura” iluminista era sanidade construtiva. Frise-se que era um indivíduo decente e profundamente humano, no sentido de que seu humanismo era prático, não teórico ou ideológico. Em tempos tão difíceis, em que a moral se tornou apenas retórica, Nabyh Salum vivia o que pregava. Era um apóstolo do bem e da ideia de que o mundo pode ser melhor, desde que as pessoas coloquem a mão na massa e deem a sua contribuição.

Nabyh Salum era um patrimônio goiano e com sua morte faz do segundo semestre de 2016 um ano negro para a história da medicina local, com as perdas dele e de Luiz Rassi no espaço de um mês.

Iúri Rincon Godinho, jornalista e escritor, é publisher da Contato Comunicação.

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