Mudança de rumo sugere que Bolsonaro aposta num brasilcídio

O presidente parece pensar em 2022, a próxima eleição, quando precisa pensar na vida das pessoas hoje, agora. A economia só melhora se o coronavírus for contido

1939. Jair Bolsonaro “é” primeiro-ministro da Inglaterra e toma uma decisão drástica: “Vamos atacar a União Soviética, os Estados Unidos e a França”.  “Como?”, pergunta Winston Churchill, o, digamos, general Augusto Heleno da época. O capitão replica: “Vamos atacar nossos inimigos de amanhã, não os de hoje”. Brincadeira à parte — os ingleses, afinal, sabiam que o inimigo era a Alemanha nazista de Adolf Hitler —, Bolsonaro parece não perceber que o principal inimigo de todos os brasileiros — neste momento — é o novo coronavírus. É o vírus que tem de ser atacado de frente.

Faça-se tão-somente uma ressalva: Bolsonaro não está equivocado quando frisa que a economia precisa ser preservada. O fato é que, mesmo que se volte ao trabalho e à liberdade de antes, a economia patropi vai passar por uma severa recessão, porque, como o mundo está globalizado — hiper conectado —, a recessão de outras nações, como a China, vai afetar duramente o Brasil. Entretanto, a crise, com o isolamento atual, vai mesmo afetar os mais pobres — ainda que o governo, com a contribuição da sociedade, adote medidas compensatórias. Portanto, a preocupação do presidente não é inteiramente descabida (e, sublinhe-se, que ele, influenciado pelo chicago-sênior, não acredita no Estado do Bem-Estar Social).

Presidente da República, Jair Bolsonaro | Foto: Reprodução

Porém, ainda que o mercado precise ser preservado de alguma forma, não se pode de repente mudar as regras atuais, sobretudo quanto a sobrevivência das pessoas está em jogo, especialmente quando uma estratégia foi adotada, e do ponto de vista médico, tem dado resultados positivos. O isolamento está funcionando como uma espécie de redutor da contaminação — o que não significa que mais pessoas, talvez milhares, deixarão de ser contaminadas a médio prazo.

Conta-se que o principal influenciador de Bolsonaro é seu filho Carlos Bolsonaro, um vereador do Rio de Janeiro. Mas talvez o presidente esteja ouvindo o clamor de alguns empresários e, nos bastidores, de economistas, como o ministro da Economia, Paulo Guedes. Na terça-feira, 24, o presidente, no seu pronunciamento à nação, postulou a reabertura do comércio e das escolas e o fim do “confinamento em massa”. Há empresários pedindo o mesmo — ao menos a reabertura do comércio, com o objetivo de evitar uma quebradeira geral, que pode levar, segundo o presidente da XP Investimentos, o Brasil a ter 40 milhões de desempregados. Daí o caos social. Fome, enfim.

“Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transportes, o fechamento de comércio e o confinamento em massa. O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima de 60 anos. Então, por que fechar escolas?”, disse Bolsonaro. Esquecendo-se, talvez, dos 46 mortos e das centenas de infectados — alguns deles, possivelmente, ainda não cientes do fato.

“O vírus chegou. Está sendo enfrentado por nós e brevemente passará. Nossa vida tem que continuar. Os empregos devem ser mantidos. O sustento das famílias deve ser preservado. Devemos, sim, voltar à normalidade”, sublinha Bolsonaro. Tem razão? Por que o governo, inicialmente, incentivou o confinamento? Para evitar que o Brasil se tornasse a Itália dos trópicos. Pode-se até defender o mercado, porque sem o mercado há empobrecimento, mas não se pode ignorar o coronavírus, que não é nenhuma “marolinha”. Há histeria? Por certo, mas não poderia ser diferente. No geral, a população está se comportando muito bem, respeitando e acatando as determinações dos governos e as orientações dos especialistas. Neste momento, seguir os ditames da ciência, a voz da razão, é o caminho que pode garantir a sobrevivência da maioria.

Paulo Guedes, Jair Bolsonaro e Davi Alcolumbre: hora de ser responsável | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Bolsonaro também atacou a imprensa. Mas é a imprensa que tem dado suporte para os governos e autoridades médicas orientarem a população. E, mesmo numa situação de crise e alarme, a imprensa tem sido responsável, evitando a irresponsabilidade do sensacionalismo.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre — contaminado pelo coronavírus —, foi taxativo: “O Brasil precisa de liderança séria e comprometida com a vida da população. Consideramos grave a posição externada pelo presidente da República hoje, em cadeia nacional, de ataque às medidas de contenção ao Covid-19. Posição que está na contramão das ações adotadas em outros países e sugeridas pela própria Organização Mundial da Saúde (OMS)”.

O que fez Bolsonaro tentar mudar uma estratégia que, em parte, está certa? As pesquisas eleitorais, a queda da popularidade. O presidente esquece que, além das 46 mortes, há 2.201 casos de pessoas contaminadas. Em todo o mundo, já morreram quase 17 mil pessoas — e o número só cresce — e há cerca de 380 mil casos.

O que se pede a um presidente é que seja responsável e que não atrapalhe as medidas de contenção do coronavírus. Que se preocupe mais com a saúde da população e menos com a eleição de 2022. Economistas gabaritados têm dito que a recuperação da economia só virá com o combate sistemático ao coronavírus. O que Bolsonaro está sugerindo é que se volte às ruas como se nada estivesse acontecendo. Neste momento, está propondo um “brasilcídio”. O país precisa de um presidente que não o desestabilize… (E. F. B.)

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