Marta Suplicy sugere que Dilma faz um governo tabajara e defende impeachment

“No ano que vem a crise estará mais séria, porque” a presidente “perde oportunidades de se colocar como uma líder e” não faz “uma proposta decente de união nacional. Ficou reduzida a um projeto de permanência no poder”

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Euler de França Belém

A senadora Marta Suplicy, do PMDB de São Paulo, concedeu uma alentada entrevista (duas páginas) aos repórteres Ana Dubeux, Denise Rothenburg, Leonardo Cavalcanti e Luiz Carlos Azedo, do jornal “Correio Braziliense” (domingo, 11). De cara, atacou o governo da presidente Dilma Rousseff: “É muita operação tabajara junta. É muita incompetência”. A tentativa de dividir o PMDB no Congresso Nacional e a ação truculenta contra um ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) fazem parte do que a ex-petista chama de “organização tabajara”. “Estava na cara, não tinha como dar certo. Inábil, inábil. Tudo é inábil, isso que é difícil. Falta de habilidade, falta de competência, falta de escutar, talvez insegurança.” Quem vai pagar o pato? “O brasileiro.”

Há quem diga o seguinte: o governo é corrupto, mas a presidente Dilma Rousseff é honesta. Por mais estranho que possa parecer, é verdade — a petista-chefe é espartana e não há indício de que tenha, pessoalmente, se envolvido em alguma falcatrua. Porém, o governo está contaminado e o governo é seu, não é dos corruptores e dos corruptos. Mesmo cercada pelo aparato do sistema de informação, que a rigor sabe tudo, a presidente não agiu para coibir a corrupção na Petrobrás e em outros setores de sua gestão. No mínimo, foi omissa. Perguntada sobre qual o motivo de sua insatisfação com o governo de Dilma Rousseff, do PT, Marta Suplicy discorda dos que a “isentam” de responsabilidade: “Mistura tudo, porque não consigo separar a confusão toda, os desvios de recursos, a má gestão, a história do Conselho da Petrobrás, as intervenções que levaram a gente a esta situação de crise tão séria, de desestruturação da economia”. Em síntese, Dilma Rousseff é a principal “responsável” pela crise econômica e ética.

Para além da corrução, que é sistêmica, no entendimento de Marta Suplicy, há a falta de autoridade e de visão de Estado. Dilma Rousseff estaria sem rumo. “Depois de eleita, ela não reconheceu que tinha levado o país a essa situação [de crise acentuada] e que medidas ali seriam necessárias. Ela não tomou as medidas. Pelo discurso de posse, parecia que ela estava morando em outro país. Era um discurso que não tocava a realidade. Aquilo foi agravando a situação, o problema econômico já antevisto. A desestrutura já estava feita. Mas a situação em que estamos hoje não estava imposta. Foi acelerada pelo processo de negação. Hoje, vivemos uma crise que é política, econômica, ética. (…) Acredito que no ano que vem a crise estará mais séria ainda, porque ela [Dilma Rousseff] perde oportunidades de se colocar como uma líder e fazer uma proposta decente de união nacional, porque ela não apresenta um projeto de nação. Nas últimas semanas, ela ficou reduzida a um projeto de permanência no poder. (…) O que percebo é que há um tal desespero, que qualquer coisa é válida para se manter no poder”.

Impeachment contra crise de mais 3 anos

Marta Suplicy e Dilma Rousseff dilma-com-marta-Fernando-Bezerra-Jr-EFE

Apesar do discurso mais ou menos enviesado, a peemedebista Marta Suplicy apoia o impeachment da presidente Dilma Rousseff. “É algo bastante sério. Nunca tivemos uma situação tão difícil para um presidente, porque tem o TSE, o TCU, tem a sociedade indignada, 8% ou 10% de popularidade. É uma situação extremamente difícil. Dadas as condições legais, dificilmente o Congresso não acompanha essas condições de impeachment. Aí é além dela. É pelo Brasil, pela possibilidade de a crise não durar mais três anos e pela possibilidade de uma união nacional que consiga ter uma liderança com credibilidade, porque isso ela não tem”.

Há uma nova liderança? Ainda não, frisa Marta Suplicy. “Mas vai aparecer. Tendo a possibilidade do vice [Michel Temer], acho que é uma pessoa que teria essa liderança no sentido da credibilidade. Ele conseguiria fazer, pela sua habilidade, uma união nacional para a construção de um projeto de saída da crise e de desenvolvimento nacional para entregar este país em 2018 para uma eleição livre, e que a gente possa passar essas turbulência e tomar as medidas que vão ser necessariamente difíceis”.

Os repórteres, percebendo uma certa vagueza no pensamento da senadora, insistem: “A sra. então se inclui nesse Congresso que aprovará o impeachment?” Pressionada, Marta Suplicy é explícita: “Sim, se tiver todas as condições, né? Porque acho que é uma decisão que nenhum senador tomará facilmente”. Em seguida, a senadora acrescenta: “É um momento em que se tem que ter grandeza, que se tem que pensar no país. Não se pode mais pensar só em se manter no poder. Esgotaram-se as possibilidades. Agora, temos que pensar que o Brasil é maior e está sofrendo muito”.

Para a senadora, é preciso pensar num “projeto de reestruturação econômica do Brasil”.

Dilma Rousseff boicotou trabalho de Michel Temer

Michel Temer e Dilma Rousseff 6192_0_gr

A presidente fez uma reforma ministerial, com o PMDB ocupando mais espaço, mas o PT continua no centro do poder, com a possibilidade de dinamitar as ações dos ministros e líderes peemedebistas. “Se há um governo de coalizão, tem que ter à mesa, pelo menos, dois partidos”, sublinha Marta Suplicy.

Há o consenso de que Dilma Rousseff prestigiou e, em seguida, puxou o tapete do vice Michel Temer, que era seu articulador político (na verdade, o que se queria era que, basicamente, controlasse o, até há pouco, incontrolável Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados). O “Correio” pergunta: “Ela não deixou o Michel Temer trabalhar?” A versão de Marta Suplicy: “Não é deixar o Michel trabalhar, é boicotar o trabalho dele. E, depois que o trabalho foi boicotado e ele se viu compelido até a sair, ela foi negociar com o PMDB jovem”.

Esquema “não” financia estrutura do PMDB

A ex-petista nada tem de ingênua e, por isso, arranjou uma explicação plausível para ter se transferido para o PMDB. “O PMDB é um partido com tantos caciques que não existe um cacique que mande e que enquadre as pessoas. É interessante viver essa experiência em um partido onde quem manda é a política e a conversa.” É uma estocada evidente em Lula da Silva, o petista-chefe que, sem José Dirceu para competir, tornou-se praticamente o Luís XIV do PT (“O PT sou eu”, poderia dizer). “O PT tem o Lula, que é símbolo maior do partido, é a pessoa que dá a última palavra.”

Falar do sujo, o PT, é esquecer o mal lavado, o PMDB? Marta percebe nuances. “A diferença é que no PT existe uma manutenção da estrutura partidária com recursos públicos. E no PMDB não vejo isso, vejo pessoas sendo investigadas, que eventualmente podem se tornar rés, ir para a cadeia. (…) Mas principalmente (no PMDB) não há uma transferência de recursos públicos na veia partidária, no sentido sistêmico”, acredita a neopeemedebista, quiçá ingenuamente, mesmo se sabendo que não há inocência em política a partir de certo patamar.

Fernando Baiano e a depuração partidária

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Inquirida sobre Fernando Baiano [foto ao lado], apontado como lobista do PMDB (sua delação premiada está revelando que mantinha laços com o petismo), Marta Suplicy diz que não leu “nos jornais que… financiasse a estrutura partidária do PMDB”. O que a senadora está sugerindo é que financiava, isto sim, figuras isoladas do partido. De fato, não está inteiramente errado, mas os financiamentos, se comprovados, bancaram exatamente aqueles que controlam a estrutura do PMDB. As coisas não são, ao contrário do que sugere a ex-petista, desconectadas.

No PT, segundo Marta, os problemas são sistêmicos. “É tão endêmico que serão muitos anos para se fazer (algo), se se conseguir.” A senadora está falando da dificuldade de se fazer uma depuração no curto prazo.

Corrupção contaminou geral a política brasileira

A corrupção, no entendimento de Marta Suplicy, contaminou geral a política brasileira — não só o PT, o PP e o PMDB. “Tem [denúncia] contra o PSDB [casos do falecido senador Sérgio Guerra e Aloysio Nunes Ferreira]. Acho que só o PSOL não deve ter, né? Não sei. Mas partido grande, me diga um que não tenha. Tem no PSB, com o Bezerra, né? Todos têm. A contaminação é grande na política brasileira.”

Mensalão e a suposta ingenuidade da ex-petista

Há um consenso de que Marta Suplicy e muitos petistas não se envolveram no mensalão e no petrolão. Quando aconteceu a denúncia do mensalão, a ex-petista diz que ficou surpresa e decepcionada com o partido. Sabe-se, porém, que no mercado político de Brasília, onde se sabe tudo ou quase, a história do mensalão, antes de ser denunciada, corria à boca pequena. “Era tão ingênua, que, quando penso, fico até constrangida. E mesmo na época do mensalão foi uma coisa chocante. Para quem não estava naquela panelinha, foi uma coisa chocante. Quando você vê o petrolão, então, esquece”, assinala Marta Suplicy

Na verdade, Marta Suplicy transferiu-se para o PMDB porque o PT, que bancará a reeleição de Fernando Haddad, barrou sua candidatura a prefeita de São Paulo.

Gabriel Chalita e a Prefeitura de São Paulo

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O PMDB de São Paulo, de acordo a opinião do vice-presidente da República, Michel Temer, vai lançar candidato a prefeito. Ao mesmo tempo, o partido participa da gestão do prefeito Fernando Haddad. O peemedebista Gabriel Chalita — espécie de “filósofo da autoajuda” — é secretário da gestão do lulopetista e é um dos cotados para disputar o pleito. Marta Suplicy pensa diferente: “Para a eleição, o PMDB vai ter candidato próprio, isso já está acordado e não imagino que um candidato que está hoje com o PT vai ser o candidato de oposição do PMDB”. Noutras palavras, a chegante já está rifando aquele que já estava na janelinha. Mas, de fato, como Gabriel Chalita pode ser candidato e criticar Fernando Haddad se faz parte de sua gestão e, por isso, é parcialmente responsável por ela?

Sobre Fernando Haddad, seu provável adversário em 2016, Marta Suplicy não economiza críticas: “Um falta de vontade de administrar que, às vezes, até penso que ele não gosta da cidade, de tão atabalhoada que é a forma de governar”.

Lula queria ser candidato a presidente mas recuou

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Em 2014, afiança Marta Suplicy, Lula da Silva chegou a pensar em disputar a Presidência da República e fez críticas duras ao governo de Dilma Rousseff, sobretudo em encontro com empresários. Em conversa com a neopeemedebista, o ex-presidente teria dito que a petista-chefe “era muito difícil, não escutava”. O texto a seguir é de Lula, mencionado pela senadora: “Realmente está ruim, os empresários estão se desgarrando, está uma situação difícil. E ela continua sem dar a menor trela”.

Num discreto jantar com o PIB paulista, organizado por Marta Suplicy, Lula da Silva desancou Dilma Rousseff. “Ele batia nela e dizia que a política estava errada. E os empresários falavam e ele dizia: ‘É isso mesmo’. Quando acabava, ele falava mal do [Aloizio] Mercadante e todo mundo saía e dizia: ‘Que bom, ele vai ser candidato’”. Mas Lula da Silva recuou não se sabe por quê. Por certo, atendeu os apelos e argumentos da presidente. Um deles: o petista-chefe seria o nome da continuidade, em 2018.

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