JBS Friboi leva Palocci a ser investigado por negócio de 3,5 bilhões com BNDES

O ex-ministro da Fazenda recebeu 2 milhões de reais e a campanha de Dilma Rousseff recebeu 10 milhões de reais. Advogado do petista garante que não há ilegalidade

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O ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci está cada vez mais complicado e agora envolve a JBS Friboi, da família Batista — de origem mineira (o pai, José Mineiro) e goiana (os filhos, Joesley e Wesley Batista — Júnior Friboi, o primogênito, deixou a sociedade para iniciar carreira solo, com o Mataboi). Segundo a “Veja”, o petista, tido como o homem de Lula junto ao empresariado patropi, “é suspeito de ter ajudado o grupo frigorífico JBS a receber um investimento bilionário do BNDES”. A revista informa que o inquérito, instalado pela Polícia Federal a pedido do Ministério Público Federal, investiga um investimento de 3,5 bilhões do BNDES na JBS.

Joesley Batista, Júnior Friboi e Wesley Batista: irmãos que multiplicaram o crescimento da JBS Friboi; Júnior não pertence mais ao grupo

Joesley Batista, Júnior Friboi e Wesley Batista: irmãos que multiplicaram o crescimento da JBS Friboi; Júnior, dono do Mataboi, não pertence mais ao grupo

A investigação tem como objetivo “apurar prática de atos de improbidade administrativa por parte de dirigentes do BNDES em razão dos investimentos, possivelmente fraudulentos, realizados nas empresas Bertin e JBS, bem como eventual participação de Antônio Palocci Filho com fins de beneficiar a empresa JBS” (o texto é parte do inquérito divulgado pela “Veja”).

A revista conta que, “de 2009 a 2010, a dona da marca de carne Friboi pagou 2 milhões de reais para a Projeto Consultoria Empresarial e Financeira, de Palocci”.  Em termos formais, segundo a equipe de Palocci, o ex-ministro teria assessorado a JBS em negócios nos Estados Unidos — país no qual aparentemente o ex-ministro não tem qualquer expertise. “O ex-ministro alega que ajudou a JBS na aquisição da produtora de frango americana Pilgrim’s, em setembro de 2009. No entanto, as negociações dessa transação começaram no segundo semestre de 2008 e foram conduzidas por grandes escritórios de advocacia e bancos de investimentos, especializados em fusões e aquisições.” Segundo a “Veja”, “os investigadores suspeitam que Palocci esteja por trás” da “operação financeira” de 3,5 bilhões de reais junto ao BNDES.

Wesley Batista: um dos acionistas-executivos do grupo JBS Friboi

Wesley Batista: um dos acionistas-executivos do grupo JBS Friboi

O mais suspeito é que Palocci, homem poderoso em todos os governos do PT, de Lula da Silva a Dilma Rousseff, “foi contratado pelo grupo frigorífico em julho de 2009, pouco antes de a transição ser finalizada. No mesmo período em que comprou a Pilgrim’s, a JBS anunciou a aquisição do grupo Bertin, parceiro de negócios do pecuarista José Carlos Bumlai”, primeiro-amigo de Lula da Silva.

A revista informa que o negócio foi uma pechincha para o JBS — negócio de avô para primeiro-neto. “O BNDES comprou 3,5 bilhões de reais em títulos de dívida emitidos pela empresa, chamados de debêntures. Esses papéis foram convertidos em ações da companhia. A transação foi vantajosa para o grupo frigorífico, que não teve de arcar com juros de um empréstimo normal e ainda ganhou o governo como sócio. O Tribunal de Contas da União já identificou indícios de que essa operação causou prejuízo aos cofres públicos. O caso está sendo analisado.”

Joesley Batista (de costas) com o ex-presidente Lula da Silva, na porta do Instituto Lula, em São Paulo

Joesley Batista (de costas) com o ex-presidente Lula da Silva, na porta do Instituto Lula, em São Paulo

Num ano, a JBS obteve 3,5 bilhões do BNDES, numa operação dita camarada, e, um ano depois, a empresa dirigida pelos irmãos Joesley Batista e Wesley Batista — conhecidos como uma espécie de “filhos” da era petista, os “lulasários” (empresários do Lula) — doou 10 milhões de reais para a campanha presidencial da lulista Dilma Rousseff. A área financeira da campanha da petista tinha como um de seus principais coordenadores exatamente Antônio Palocci. Este, eleita Dilma Rousseff, foi guindado ao posto de ministro-chefe da Casa Civil — espécie de porta de entrada ao poder presidencial.

Antônio Palocci caiu do ministério porque o “Estadão” denunciou, com documentos, que havia aumentado seu patrimônio, de maneira considerável, com consultorias a várias empresas. Um negócio pouco católico.

O ex-ministro da Fazenda está preso, desde setembro, em virtude da 35ª fase da Operação Lava Jato. É suspeito de, ao lado de outros petistas, ter embolsado 128 milhões de reais da empreiteira Odebrecht.

Defesa de Antônio Palocci

José Roberto Batocchio: advogado da JBS diz que negócio de Antônio Palocci com os Batistas é legal

José Roberto Batocchio: advogado da JBS diz que negócio de Antônio Palocci com os Batistas é legal

O advogado José Roberto Batochio, um dos mais respeitados e caros do país, contrapõe que Antônio Palocci fez consultoria “legal” para a JBS, quando a empresa estava adquirindo a Pilgrim’s. “Foi entregue um relatório de serviço prestado. Não há, portanto, qualquer irregularidade”, sustenta Batochio.

Numa nota enviada à imprensa, a JBS informa que desconhece o conteúdo do inquérito, exceto o que foi publicado pela imprensa. “A JBS contratou a Projeto para a elaboração de estudos, análises e informações de cenários macroeconômicos e do mercado mundial e norte-americano de proteína. O contrato realizado com a Projeto, em 2009, e seus respectivos pagamentos estão devidamente formalizados e documentados”, garante a empresa controlada pela família Batista. “Em nenhuma situação ou circunstância, Antônio Palocci ajudou, se envolveu, ou teve qualquer relação entre os negócios da companhia e o BNDES”, assegura a JBS. Os Batistas sustentam que o investimento do BNDES está “em linha com as melhores práticas de governança e transparência, em uma transação típica de mercado”. A “Veja” afirma que o BNDES não se manifestou. O que se pode concluir é que o negócio provoca mesmo estranhamento.

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O que se comenta no meio empresarial e jornalístico é que a JBS é “a Odebrecht do agronegócio”. Noutras palavras, a médio ou longo prazo, algum de seus proprietários pode até ser preso e, em seguida, fazer delação premiada. Pode ser que isto não ocorra, mas é o que o mercado sugere.

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