Ex-diretor da Hypermarcas, empresa controlada por goiano, teria repassado 30 milhões para senadores

João Alves de Queiroz Filho, o Júnior, demitiu o executivo Nelson Mello, que, em delação premiada, incrimina Renan Calheiros, Romero Jucá, Eduardo Braga e Eunício Oliveira

Nelson Mello foi diretor da Hypermarcasnelson-mello-e1461782211715-200x200

O repórter Thiago Bronzatto, da revista “Veja”, relata o envolvimento do ex-diretor da Hypermarcas Nelson José de Mello (foto ao lado) com os senadores Renan Calheiros (PMDB-AL), Eunício Oliveira (PMDB-CE), Romero Jucá (PMDB-RR) e Eduardo Braga (PMDB-AM) — por intermédio do lobista Milton Lyra (tido como operador do presidente do Senado). O presidente afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, também estaria envolvido. A empresa diz que não obteve nenhum lucro com a transação, que não teria sido autorizada pela diretoria. Mas como uma empresa repassa 30 milhões de reais para políticos e os diretores não tentam abortar a “negociação”? A Hypermarcas é controlada pelo empresário João Alves de Queiroz Filho, mais conhecido como Júnior (era, antes da venda da empresa, conhecido como Júnior da Arisco).

Na sua delação premiada, o economista Nelson Mello abre o jogo e explica como repassou entre 26,35 milhões de reais (segundo a “Veja”) e 30 milhões de reais (segundo “O Estado de S. Paulo”) para um grupo de políticos supostamente representados por Milton Lyra. Na delação, segundo registro da “Veja”, “o ex-executivo” da Hypermarcas “narra como foram repassados os 26,35 milhões de reais para alguns políticos ligados a Lyra por meio de contratos fictícios assinados entre a companhia varejista e uma rede de empresas, sendo algumas delas fantasmas, e escritórios de advocacia e de auditoria”.

“Veja” ressalta que “o primeiro pagamento de propina feito pela Hypermarcas, no valor de 2 milhões de reais, ocorreu no fim de 2013, um ano depois de Nelson Mello conhecer Milton Lyra na antessala do gabinete do então senador Gim Argello”. De cara, o lobista teria pedido dinheiro ao executivo para repassar a um grupo de “amigos” ou “aliados”. Nelson Mello concordou, dada a influência do amigo de Renan Calheiros, e “os dois simularam um contrato de prestação de serviços no valor de 2 milhões de reais”.

Os pedidos e repasses de dinheiro continuaram. No final de 2014, Nelson Mello repassa mais dinheiro para o lobista. O ex-diretor da Hypermarcas conta, relata a “Veja”, que “seis empresas, entre elas a Credpag e os escritórios Calazans de Freitas Advogados Associados e Arc e Associados Auditores Independentes, receberam 12,35 milhões de reais”. O delator avalia que tais recursos seriam repassados por Milton Lyra para Renan Calheiros, Romero Jucá, Eunício Oliveira e Eduardo Braga. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) confirmou a movimentação milionária.

Em 2014, Milton Lyra informou a Nelson Mello que um sobrinho de Eunício Oliveira, Ricardo, o procuraria em busca de ajuda financeira para a campanha eleitoral. O senador era candidato a governador do Ceará. O executivo da Hypermarcas “‘pagou despesas de empresas que prestavam serviços à campanha de Eunício Oliveira’ por meio de ‘contratos fictícios’ no valor total de 5 milhões de reais. Duas delas, a Confirma Comunicação e Estratégia e a Campos Centro de Estudos e Pesquisa de Opinião, receberam 3,35 milhões de reais. O restante foi desembolsado pela Hypermarcas a partir de uma nota fiscal emitida no valor de 1,65 milhão de reais apresentada pela Confederal Prestadora de Serviços e Vigilância e Transporte de Valores, de propriedade de Eunício”.

A Hypermarcas voltou a fazer repasses, em abril de 2015, no valor de 7 milhões de reais — de novo, a pedido de Milton Lyra. O que o grupo ganhava em troca? “As portas se abriam” no Senado, afirma Nelson Mello. A cúpula da empresa informa que, ao descobrir que Nelson Mello havia desviado cerca de 30 milhões de reais, o demitiu. “A Hypermarcas confirmou a delação de seu ex-diretor e disse que o seu ex-executivo ‘autorizou, por iniciativa própria, despesas sem as devidas comprovações das prestações de serviços’”, reporta a “Veja”. A revista e o repórter não insistem, mas fica a pergunta: como um executivo desvia 30 milhões de reais, supostamente transferidos para políticos eminentes, e a empresa não fica sabendo de imediato? Seria mais provável que, com a “desgraça” do executivo, se tenha feito um acordo, com sua consequente demissão mas possivelmente com uma indenização polpuda, para preservar a empresa? A cúpula da Hypermarcas sustenta que obrigou Nelson Mello a vender suas ações para ressarcir o prejuízo. Faltou exibir a comprovação disto. Milton Lyra contestou as denúncias de Nelson Mello — do tipo “batom na cueca” —, mas disse, de maneira enigmática: “Se a coisa apertar”, vai “esclarecer de uma vez por todas as suspeitas relacionadas a ele”. Não está dito assim, mas é provável que se trate de uma ameaça mais aos senadores do que a Nelson Mello, este, em desgraça.

Senadores negam envolvimento

Renan Calheiros, Romero Jucá, Lúcio Bolonha Funaro (suposto parceiro de Eduardo Cunha), Eduardo Cunha, Eunício Oliveira e Eduardo Braga garantem que não têm qualquer envolvimento com esquema de corrupção envolvendo o lobista Milton Lyra, Nelson Mello e Hypermarcas.

Queda na bolsa

Na terça-feira, 28, as ações da Hypermarcas caíram 8,47% (25,95 reais). A queda ocorreu logo depois que a empresa, maior fabricante nacional de medicamentos genéricos do Brasil, anunciou que seu ex-executivo Nelson Mello havia repassado 30 milhões de reais, por baixo dos panos, para um grupo de senadores do PMDB.

Analistas do Credit Suisse, liderados por Tobias Stingelin, escreveram numa nota enviada a clientes: “A notícia é perturbadora. Como é possível que 30 milhões de reais foram gastos sem comprovação dos serviços? Quais eram as motivações de Mello?”

João-Alves-de-Queiroz-Filho

De Júnior da Arisco a Júnior da Hypermarcas

A família Alves de Queiroz é composta de vencedores. Primeiro, João Alves de Queiroz e, em seguida, seu filho, João Alves de Queiroz Filho (foto acima) criaram e sedimentaram a Arisco. Era uma empresa de fundo de quintal, que fabricava o tempero Arisco. Em 1984, com Iris Rezende no poder, o governo de Goiás criou o incentivo fiscal Fomentar. A Arisco, uma das empresas mais incentivadas, cresceu e se tornou uma potência. Primeiro, ganhou o mercado goiano, controlando parte das gôndolas dos supermercados. Em seguida, tornou-se forte no Centro-Oeste e conquistou o país. A Arisco se tornou símbolo de empresa que deu certo e a família Alves de Queiroz começou a ser assediada para vendê-la.

Depois de muito relutar, João Alves de Queiroz Filho — mais conhecido como Júnior da Arisco — vendeu a Arisco para uma multinacional. Altamente capitalizado, poderia ter se aposentado, mas decidiu seguir adiante e construiu o grupo Hypermarcas, que se tornou forte na área de alimentos, produtos de beleza e medicamentos. A Hypermarcas é apontada como uma das principais empresas do país e é cobiçada por grandes grupos do Brasil e do exterior.

João Alves de Queiroz Filho é dono da TV Serra Dourada e de um rádio em Goiânia. Os empreendimentos são dirigidos por executivos, com o apoio de um irmão, Cirilo Alves. Enquanto João Filho é discreto, Cirilo é tido como bon vivant.

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