Damares e opositores devem entender que a realidade tem mais cores que uma eleição

Sociedade espera que o eterno fla-flu do período eleitoral termine logo para que a nova administração possa deslanchar

A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves: fala simplória não contribuiu para amenizar clima entre apoiadores e opositores do governo |
Foto Divulgação

Disputa eleitoral tem hora certa para acontecer, mas não para começar – as de 2020 e 2022, por exemplo, já se iniciaram faz tempo. Mas eleição também precisa ter hora para acabar. Aliás, precisa muito. Caso contrário, aquilo que mais interessa, que é o sucesso da gestão pública, ficará mais difícil de alcançar.

Assim, a marcação cerrada, cheia de picuinhas, contra ministros do presidente Jair Bolsonaro parece ser algo desleal com a democracia, pelo menos nesses primeiros instantes de suas respectivas administrações. O fenômeno também ocorre contra secretários do governador Ronaldo Caiado.

A ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), por exemplo, virou alvo preferencial dos opositores de Bolsonaro, uma espécie de musa ao avesso para quem não gosta do capitão reformado. Um fla-flu que nunca termina.

Advogada, Damares é uma mulher religiosa e acredita que a chamada ideologia de gênero não deve ter espaço nas formação de crianças. Na semana passada, ela afirmou que o Brasil entrou em uma nova era, na qual “menino veste azul e menina veste rosa”.

Foi o suficiente para que figurasse no topo do ranking de memes das redes sociais, atraindo críticas raivosas (e outras bem humoradas também). Segundo apurou Mônica Bergamo, colunista da Folha de S. Paulo, o volume de buscas pelo nome da ministra cresceu 1.550% depois que ela falou em azul e rosa.

Claro que, além de inábil do ponto de vista político (pois acirra os ânimos da plateia), a frase de Damares revela uma visão no mínimo simplória diante da profundidade que envolve o tema da sexualidade. Inclusive levando-se em conta que o Brasil é o país onde mais se matam LGBTs. Mais de uma morte por dia, conforme levantamento do Grupo Gay da Bahia, que há quase quatro décadas coleta dados a esse respeito.

Acredite-se ou não nesses números (pois são extraoficiais), é certo que há sim, em parte significativa da sociedade brasileira, uma intolerância aos que possuem padrões sexuais que vão além do azul e do rosa. Normalmente silenciosa, essa intolerância por vezes irrompe em casos de violência, o que deve ser pensado e combatido veementemente por quem se pretende civilizado.

Mas o problema é que os opositores de Bolsonaro trataram de usar o, digamos, deslize retórico da ministra para tentar desacreditar inteiramente o potencial do governo que está se instalando. É preciso calma nesta hora. O eleitor provou que quer mudanças profundas. Alguns podem até ter intenção de que essas mudanças cheguem ao campo dos costumes e do comportamento.

Contudo, é certo que a maioria, inclusive os que votaram no capitão, quer mesmo que o governo resolva questões mais afeitas à esfera de atuação do Estado, como na economia e na segurança pública. Aí sim, com cores muito mais densas e urgentes, é que a nova administração poderá e deverá deslanchar.

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Marília Guedes Vecci

Quero aplaudir este artigo do Opção sobre o azul e rosa . Cumprimento o articulista( cujo nome não localizei) pela lucidez , excelente redação e acurada análise. Como feminista estou entre as pessoas receberam com censura essas e outras das palavras dessa Ministra Damares . Parece-me que ela não tem a compreensão da razão desse ministério e , com a auto alegada qualificação de que foi abusada por um padtor( solidarizo-me com ela) mas isso não basta como currículo para gerir uma pasta tão complexa e múltipla. O Opção acaba de me convidar para dar tempo desse governo dar certo… Leia mais