China é denunciada por discriminar africanos que negociam ou moram em Cantão

A “estigmatização e a discriminação criam a falsa impressão de que os africanos estão propagando o vírus”, afirmam autoridades da África

O novo coronavírus surgiu na China e, por isso, há discriminação contra chineses. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e aliados do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, falam em “vírus chinês”. Desconsiderando o fato que ter surgido na China não é o mesmo que ter sido “produzido” com intenções comerciais malévolas. (A gripe espanhola pode ter sido surgido, no início do século 20, nos Estados Unidos.) Pois, se luta contra a discriminação se seu povo, a China estaria discriminando africanos que moram e/ou negociam em Cantão, ao sul do país. Ismael Arana, correspondente do jornal espanhol “La Vanguardia”, publicou uma reportagem — “Varios países africanos protestan por el trato de China a sus ciudadanos” (segunda-feira, 13) — com denúncias candentes de líderes políticos do Chade, Quênia, Uganda, Nigéria, Serra Leoa e Gana.

Moussa Faki Mahamat: líder africano denuncia que a China está acossando e discriminando africanos | Foto: Reprodução

O presidente da Comissão da União Africana, Moussa Faki Mahamat — ex-primeiro-ministro do Chade —, convocou o representante da China na organização, Liu Yuxi, para expressar a preocupação dos líderes da região. Representantes de vários países — Uganda, Quênia, Nigéria, Serra Leoa e Gana — fizeram reclamações a Pequim isoladamente. Chegaram a convidar os embaixadores chineses em seus países para cobrar uma explicação oficial. Porque, no lugar de proteger os africanos que estão na China, o governo comunista os estaria tratando com “brutalidade” e “desrespeito”.

“La Vanguardia” frisa que, “durante anos, Cantão tem sido a cidade com uma maior comunidade africana na China. Lá compram e exportam grande quantidade de produtos para seus países de origem. De acordo com a agência estatal Xinhua, ao longo de 2017 entraram e saíram do município 320 mil africanos”. Não se sabe exatamente quantos vivem, de maneira regular, na China. Muitos deles têm vistos temporários e se apresentam como “negociantes” — e assim “entram e saem do país várias vezes ao ano”.

Africano em Cantão: região onde africanos estão sendo discriminados | Foto: Reprodução

Os problemas entre chineses e africanos começaram em abril, por causa do novo coronavírus. Divulgaram em jornais e redes sociais que um nigeriano, “contaminado” pelo novo coronavírus, “havia atacado brutalmente uma enfermeira — ao escapar do hospital onde estava internado”. Em seguida, circulou a informação de que cinco nigerianos estiveram em vários hotéis, restaurantes e lugares públicos. Eles supostamente estavam com coronavírus, mas não havia teste positivo da Covid-19. Noutras palavras, foram vítimas de preconceito. O governo decidiu imediatamente pôr em quarentena quase 200 pessoas e obrigou outras 1.700 a fazer o teste.

As autoridades chinesas começaram a agir de maneira tida como “exagerada” pelas autoridades africanas. Vários africanos que moram na China relatam que, de uma hora para outra, tiveram de sair de suas casas, desalojados pelo governo chinês. São rechaçados em hotéis e são acossados por policiais nas ruas. Eles são submetidos a repetidos testes para verificar se têm a Covid-19. Mesmo assim, o governo não divulga os resultados.

Os líderes africanos enviaram correspondência ao governo da China exigindo que cessem, de “imediato”, os abusos contra seus cidadãos. Eles denunciam “testes e quarentena forçados e outros tratamentos desumanos. “A ‘estigmatização e discriminação’ criam a falsa impressão de que os africanos estão propagando o vírus”, sublinham os governantes de vários países da África.

O Ministério das Relações Exteriores da China fala só em “mal-entendidos” no trato com africanos. O porta-voz Zhao Lijian disse: “Tratamos todos os estrangeiros de maneira igual na China. Rechaçamos o tratamento diferenciado e temos tolerância zero com a discriminação”. Fica a pergunta: fariam o mesmo com americanos, alemães, franceses e ingleses? Possivelmente não. Por isso, a reclamação dos africanos é pertinente. Chineses estão repetindo com os africanos o que estão sofrendo em parte do mundo. Entretanto, como a China é o segundo país mais rico do mundo, a discriminação acaba sendo até menor e, naturalmente, tem sido repudiada.

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