Carlesse pode bancar secretário da Fazenda pra governador do Tocantins

Membro da República dos Paulistas, o advogado-tributarista Sandro Henrique Armando pode ser a aposta do governador em 2022

Aliados do governador do Tocantins, Mauro Carlesse, do PSL, plantaram na imprensa a desinformação de que poderia disputar um terceiro mandato consecutivo. Chegou-se a dizer que o gestor estadual fez uma consulta ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Se fez, gastou dinheiro à toa — e espera-se que não tenha sido verba extraída do Erário. Na verdade, o político bolsonarista não pode disputar o governo em 2022. É o fato verdadeiro. O resto é cortina de fumaça.

Sandro Henrique Armando, secretário da Fazenda | Foto: João Di Pietro/Ascom-Sefaz

Na realidade, ao contrário do que sugere — sempre acrescendo uma “informação” nova, que o permita ficar no centro do debate político —, Carlesse não vai permanecer no governo até dezembro de 2022. Dois deputados de sua base disseram ao Jornal Opção, em off, que o governador vai disputar mandato de deputado federal ou, principalmente, de senador. A tese dominante é que precisa manter adquirir certa imunidade. Tendo mandato, estará mais protegido. Dependendo do governador que for eleito, a situação de Carlesse pode ficar complicada, com dezenas de auditorias que acabarão levando a processos judiciais — o que poderá complicar inclusive a sua elegibilidade. Defender-se com mandato é menos complicado do que sem mandato.

Porém, enquanto seus parças espalham fake news — como a de que poderá disputar a reeleição em 2022 —, Carlesse, que não é néscio, articula saídas políticas que os dois deputados consideram tão viáveis quanto hábeis.

Primeiro, há a tendência de convencer o vice-governador Wanderley Barbosa (que deverá se filiar ao PDT) a não assumir o governo, em 4 de abril de 2022, optando pela disputa de mandato de deputado federal — com a estrutura adequada.

Segundo, se Wanderley Barbosa não assumir, por força de lei, o presidente da Assembleia Legislativa, Toinho Andrade (Antonio Poincaré Andrade Filho), do PTB, terá de assumir o governo. Porém, como planeja disputar mandato de deputado, também renunciaria, abrindo espaço para o 1º vice-presidente, Cleiton Cardoso, do PTC. O parlamentar é estreitamente vinculado a Claudinei Aparecido Quaresemin, o faz-tudo de Carlesse.

Cleiton Cardoso: deputado estadual | Foto: Assembleia Legislativa do Tocantins

Qual seria a missão de Cleiton Cardoso, se assumir o governo do Estado? Bancar o candidato a governador apoiado por Carlesse.

Terceiro, e mais relevante: Carlesse trabalha, na surdina, para tentar lançar seu secretário da Fazenda, o advogado paulista Sandro Henrique Armando, ao cargo de governador. No momento, o Tocantins se tornou a República dos Paulistas. Para votar pode-se ser tocantinense, mas, para ser votado, precisa ser, por assim dizer, paulista.

Os dois deputados entrevistados disseram ao Jornal Opção que Sandro Henrique Armando é um técnico experimentado, especializado em direito empresarial e tributário. Mas teria visão política. Ligado a Carlesse e a um sobrinho deste, Claudinei Aparecido Quaresemin, o paulista de Avaré mora no Tocantins há pouco tempo, mas domina os assuntos do governo como poucos. É visto como um indivíduo reservado, porém bem relacionado nos bastidores. Segundo um dos parlamentares, é uma espécie de carlesse-boy — um homem estreitamente ligado ao governador, que confia em poucas pessoas. Uma delas Claudinei e a outra, Sandro.

Ronaldo Dimas: favorito para o governo do Tocantins | Foto: Reprodução

Se Sandro Henrique Armando for mesmo confirmado para governador — por enquanto é uma carta “suspensa” nas mãos de Carlesse —, o senador Eduardo Gomes (MDB) talvez tenha dificuldade de montar uma chapa.

Se conquistar o apoio do Grupo do Bem e de Eduardo Gomes, é possível que Ronaldo Dimas seja eleito no primeiro turno. Porque o pleito se resumirá entre o candidato da mudança e o candidato dos que não querem mudar nada

Os dois deputados sustentam que Carlesse gostaria de uma composição com Eduardo Gomes, talvez indicando Sandro Henrique Armando para a vice e ele, Carlesse, para o Senado. Porém, como não desconfia apenas de sua sombra e da sombra de Claudinei e Sandro, Carlesse teme que, ao final e ao cabo, Eduardo Gomes, dada sua ligação histórica, acabe por apoiar a candidatura de Ronaldo Dimas (Podemos) a governador.

Mauro Carlesse e Eduardo Gomes: Aliados? Sim, ma non troppo| Foto: Reprodução

Ronaldo Dimas lidera as pesquisas de intenção de voto e pode acabar conquistando o apoio do Grupo do Bem — que inclui o ex-prefeito de Gurupi Laurez Moreira (cotado para vice), o ex-senador Ataídes Oliveira (uma voz crítica tão poderosa quanto corajosa e articulada), do Pros, e o ex-prefeito de Palmas Carlos Amastha, do PSB. Há, inclusive, a possibilidade de contar com o apoio de Eduardo Gomes — que, no momento, está entre dois amores: Ronaldo Dimas, ex-prefeito de Araguaína, e Carlesse. O líder do Podemos também deve contar com o apoio do grupo da senadora Kátia Abreu, que inclui um filho, o senador Irajá Silvestre, e o empresário Edison Tabocão. Aliados postulam que Carlesse confia desconfiando de Eduardo Gomes — dada a ligação do senador com Ronaldo Dimas.

O problema de Eduardo Gomes é que estaria sendo pressionado por seu suplente, o empresário Ogari Pacheco, para ceder quatro anos de seu mandato para ele. Há também a questão de que teme compor com Carlesse, em busca de estrutura, e acabar absorvendo o amplo desgaste do governador.

Na hipótese de quatro candidatos — Sandro Henrique Armando, Ronaldo Dimas, Eduardo Gomes e Paulo Mourão (PT) —, o quadro eleitoral talvez fique mais favorável para Ronaldo Dimas. Mas, com quatro nomes, cresce a possibilidade de a disputa seguir para o segundo turno. Há quem acredite que Eduardo Gomes retire seu nome da disputa para apoiar o “compadre” Ronaldo Dimas. Entretanto, se conquistar o apoio do Grupo do Bem e de Eduardo Gomes, é possível que Ronaldo Dimas seja eleito no primeiro turno. Porque o pleito se resumirá entre o candidato da mudança e o candidato dos que não querem mudar nada.

Paulo Mourão é um nome respeitado e pode surfar na onda Lula da Silva. Mas, por falta de estrutura e por disputar contra candidatos que têm estruturas gigantes, dificilmente será eleito. Mas se trata, todos dizem, de um postulante qualificado e ético (mercadoria que, no centro do poder do Tocantins, anda tão escassa quanto filé na mesa dos pobres e, mesmo, de parte da classe média).

Por fim, resta saber qual será o papel que o ex-governador Marcelo Miranda (MDB) irá desempenhar no pleito. Há quem aposte que disputará mandato de senador. Ele é bem avaliado nas pesquisas. Mas não há quem não faça a mesma pergunta: desta vez, se ganhar, leva?

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