Compêndio da Bíblia – 20. 1Macabeus
22 maio 2026 às 16h57

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*Por Emídio Brasileiro, Educador, Jurista e Cientista da Religião
1Macabeus é o vigésimo livro da Bíblia e o décimo quinto livro histórico do Antigo Testamento. De autoria desconhecida, acredita-se que tenha sido escrito por um judeu piedoso, nacionalista e próximo aos sacerdotes, com o propósito de registrar a luta dos Macabeus contra os selêucidas e exaltar a fidelidade a Deus e à Lei. O livro foi escrito entre 100 e 90 a.C. e narra acontecimentos desde a ascensão de Antíoco IV Epífanes, rei do Império Selêucida, em 175 a.C., até o governo de Simão, filho de Matatias, em 134 a.C. O Império Selêucida foi um dos reinos helenísticos formados após a morte de Alexandre, o Grande, quando seu império foi dividido entre os generais.
A obra integra os sete livros deuterocanônicos, presentes nas Bíblias Católica e Ortodoxa, mas ausentes do cânon hebraico e, por isso, não reconhecidos como canônicos pelas tradições protestantes. O livro possui 16 capítulos e está dividido em quatro partes: Introdução e Revolta de Matatias (caps. 1-2), Judas Macabeu (caps. 3-9,22), Jônatas Macabeu (caps. 9,23-12,53) e Simão Macabeu (caps. 13-16).
Durante o reinado de Antíoco IV Epífanes, os judeus enfrentaram intensa perseguição. O monarca impôs costumes pagãos, saqueou Jerusalém, profanou o Templo, proibiu a observância da Lei e condenou à morte aqueles que permanecessem fiéis à religião judaica.
Nesse contexto, o sacerdote Matatias, da cidade de Modin, recusou-se a oferecer sacrifícios aos ídolos, matou um oficial selêucida e iniciou a revolta contra o domínio estrangeiro. Refugiado nas montanhas com seus cinco filhos — João, Simão, Judas, Eleazar e Jônatas — e um grupo de seguidores, organizou a resistência armada, destruiu altares pagãos e defendeu a tradição religiosa judaica.
Antes de morrer, Matatias exortou os filhos à fidelidade, recordou exemplos de heróis da fé de Israel e designou Simão como conselheiro e Judas como chefe militar, garantindo a continuidade da luta contra os opressores.
Após a morte do pai, Judas Macabeu assumiu a liderança da revolta. Ele reorganizou o povo, conduziu diversas batalhas contra os selêucidas e conquistou importantes vitórias, libertando cidades e aldeias da opressão. Judas também reconquistou Jerusalém, purificou o Templo e restabeleceu os ritos da Lei. O episódio deu origem à celebração de Hanucá, conhecida como a Festa da Dedicação, que recorda a purificação do Templo após sua profanação.
A coragem e a habilidade militar de Judas fortaleceram a fé do povo judeu. No entanto, ele morreu em combate, deixando a liderança para seus irmãos e assegurando a continuidade da resistência macabeia.
Com a morte de Judas, Jônatas Macabeu assumiu o comando da resistência. Além dos conflitos militares, ele estabeleceu alianças políticas com potências estrangeiras, como Roma e Esparta, em busca de segurança e autonomia para Israel. Durante seu governo, fortaleceu a posição dos judeus diante dos selêucidas e promoveu a organização política e religiosa do país.
Jônatas, porém, foi capturado e morto, abrindo caminho para que seu irmão Simão assumisse o poder e consolidasse a independência da Judeia.
Simão Macabeu fortaleceu a autoridade da dinastia hasmoneia — a família dos Macabeus —, organizou o governo e garantiu estabilidade ao povo. Sob sua liderança, os judeus desfrutaram de autonomia política e religiosa, enquanto o Templo permaneceu purificado.
Apesar disso, Simão também foi assassinado. Ainda assim, deixou como legado um período de liberdade e estabilidade para a nação judaica, concluindo o ciclo de resistência iniciado por seu pai, Matatias.
O livro de 1Macabeus destaca valores como fidelidade, coragem, resistência e esperança. A narrativa mostra que, mesmo em tempos de perseguição, a fé e a retidão moral contribuíram para a preservação do povo judeu e de sua tradição religiosa.
A obra também é considerada um importante registro histórico e moral de um povo em luta para preservar sua identidade cultural e religiosa. Sob uma perspectiva espiritual, as vitórias militares dos Macabeus podem ser interpretadas não como incentivo à guerra, mas como reflexo das circunstâncias históricas e do exercício do livre-arbítrio humano.
Nesse sentido, a coragem, a disciplina e a fidelidade às próprias convicções aparecem como virtudes em desenvolvimento, enquanto a violência é apresentada como característica de uma humanidade ainda imperfeita, distante do ideal de amor e fraternidade ensinado por Jesus. Assim, o livro ilustra etapas da evolução moral coletiva, nas quais a humanidade aprende gradualmente a substituir a força pela justiça e, posteriormente, pela caridade.
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