Em um evento realizado em setembro do ano passado, o Corpo de Bombeiros Militar de Goiás e o Goiás Social anteciparam o lançamento da 4ª edição da operação Goiás Alerta e Solidário. A iniciativa, criada em 2022, ganhou postos da Defesa Civil em 11 municípios estratégicos, mapeamento de áreas de risco e uma estrutura destinada a antecipar a resposta do Estado aos efeitos do período chuvoso. Enquanto Bombeiros e Defesa Civil cuidavam da prevenção e da resposta aos desastres (a maioria deles causados por fortes chuvas), a Organização das Voluntárias de Goiás (OVG) participava com a distribuição de colchões, cestas básicas, filtros de água e outros itens essenciais às famílias atingidas.

Numa olhada rápida, a iniciativa parece mais uma operação sazonal de governo, mas não é. Aliás, está longe disso. O Goiás Alerta e Solidário é um exemplo “didático” de uma mudança menos vistosa, mas provavelmente bem mais importante, ocorrida na condução da política social de Goiás nos últimos anos, que é a tentativa de fazer com que diferentes estruturas do Estado trabalhem sobre o mesmo problema, em vez de cada uma permanecer enclausurada dentro de suas próprias atribuições burocráticas.

Por que uma família atingida por uma enchente deveria ser problema apenas da assistência social? A pergunta parece óbvia, mas há quem diga que o óbvio não existe e é preciso concordar. Se há uma questão de segurança, entram Bombeiros e Defesa Civil; se temos famílias que perderam bens básicos, entra a OVG; dependendo da situação, pode haver crianças fora da escola, necessidade de infraestrutura, documentação, emprego ou transferência de renda, o que, automaticamente, força a entrada de pastas como Economia e Infraestrutura.

Como se vê, não existe, na vida real, uma fronteira separando o problema social do educacional, do econômico ou do de segurança pública. Mas, durante décadas, a administração pública parece ter se habituado justamente a funcionar assim, entre gavetas e divisórias.

À frente da OVG e, posteriormente, do Goiás Social, a então primeira-dama e hoje candidata ao Senado, Gracinha Caiado, não necessariamente criou uma nova estrutura, mas trouxe a percepção de que a política social não poderia continuar confinada à entidade tradicionalmente comandada pela primeira-dama ou à secretaria responsável pela assistência.

Em entrevista ao Jornal Opção, Gracinha contou, por exemplo, que, no início da gestão, passou a convocar representantes das diferentes secretarias e fazer uma pergunta essencial: o que cada uma delas poderia fazer na área social? A reação inicial era sempre a mesma. Segundo ela, havia quem se perguntasse: “Mas o que tenho a ver com o social?”. Com o passar dos anos, o movimento teria se invertido, a ponto de gestores procurarem o Goiás Social para apresentar projetos e pedir participação.

Do ponto de vista administrativo, a mudança é, sim, significativa. Isso, porque substituiu-se uma concepção de política social baseada quase exclusivamente na concessão de benefícios por outra que tenta atacar, de forma simultânea, diferentes causas e consequências da vulnerabilidade. Em suma: uma família com fome precisa de comida, mas entregar uma cesta básica e dar como encerrada a atuação do Estado representa, muitas vezes, somente a garantia de que essa mesma família precise de outra cesta no mês seguinte.

É inegável que, com Gracinha, Educação, Desenvolvimento Social, Economia, segurança pública e outras áreas parecem ter deixado de ser coadjuvantes e passado a integrar a própria política de enfrentamento à pobreza. Como dito, o óbvio não existe, mas é preciso reforçar: qualificação profissional, permanência de crianças e adolescentes na escola, acesso a serviços públicos, proteção contra a violência e geração de renda não são políticas paralelas ao social, mas partes dele.

Ainda na entrevista ao Jornal Opção, a ex-primeira-dama trouxe um dado que ajuda a entender como essa integração funcionou e qual foi o resultado gerado. Segundo Gracinha, 600 mil goianos deixaram a pobreza. O avanço também aparece em estatísticas oficiais: em 2023, Goiás registrou taxa de pobreza de 1,3% da população, muito abaixo da média nacional de 4,5%, de acordo com dados do IBGE. Conforme o órgão, a extrema pobreza caiu para 0,8%, o menor índice do país.

Nenhuma política isolada seria suficiente, e esse aspecto governos anteriores demoraram demais para compreender. A OVG existia, os Bombeiros existiam, a Secretaria de Educação existia, estruturas de desenvolvimento econômico existiam, programas assistenciais também existiam, mas era cada um por si, como formigas desordenadas em um formigueiro que precisava de integração.

Claro, necessário destacar que os feitos conquistados não significam que Goiás tenha eliminado a pobreza, resolvido suas desigualdades por completo. Até porque, como bem se sabe ainda existem famílias vulneráveis, desigualdades regionais e problemas sociais que desafiarão qualquer governo. Mas os resultados apresentados revelam uma alteração importantíssima na maneira de enfrentá-los.

A grande sacada por trás do modelo construído por Gracinha foi essa: pobreza e vulnerabilidade não cabem em uma única secretaria. O Goiás Social, ao transformar a integração entre diferentes áreas em um modus operandi de governo, mostrou que enfrentar problemas complexos exige, sim, um Estado que também saiba agir de forma conjunta.