Pedro Machado

Em boa parte do Rio de Janeiro, essa pergunta já tem uma resposta que envergonha o país. Segundo o Mapa Histórico dos Grupos Armados, produzido pela UFF e pelo Instituto Fogo Cruzado, cerca de 4 milhões de pessoas, 35% da população da Região Metropolitana do Rio, vivem hoje sob controle ou influência direta de facções e milícias. O levantamento aponta que a área urbanizada sob esse domínio saltou 130% em menos de duas décadas.

Só em julho de 2026, foram 34 tiroteios motivados exclusivamente por disputas territoriais entre grupos armados, uma média de mais de um confronto por dia, deixando bairros inteiros da capital fluminense reféns de doze dias seguidos de hostilidade. Dados do Conselho Nacional de Justiça apontam a existência de cerca de 1.700 áreas sob controle do tráfico ou da milícia só naquele estado. Ali, o poder público não decide mais sozinho quem entra, quem sai, quanto se paga pelo gás, pela água, pelo transporte. Essa decisão, em vastas regiões do Rio de Janeiro, já não é do Estado nem do mercado lícito.

Goiás está, hoje, na direção oposta dessa realidade. O estado vive o melhor momento de sua história recente em segurança pública: a taxa de homicídios, que já foi uma das mais altas do país, caiu para 18 por 100 mil habitantes em 2024, a menor desde o ano 2000. O homicídio doloso recuou 62% entre 2018 e 2025. O latrocínio despencou 95%. O roubo de veículos e o roubo a comércio caíram, cada um, mais de 90%. As estatísticas oficiais, acompanhadas por pesquisas de opinião que estampam um índice de aprovação da segurança pública acima de 80% entre os goianos, mostram que o estado deixou de ser refém do medo para se tornar referência nacional em segurança.

Nem sempre foi assim. Quem tem memória recente se lembra de um Goiás bem diferente. Durante o governo anterior, o estado chegou a registrar uma taxa de 46 homicídios por 100 mil habitantes, mais que o dobro do índice atual, e, em 2017, ocupava a 8ª posição no ranking nacional dos estados mais violentos. Foi nesse período que Goiás conviveu, por anos, com um serial killer responsável por quase 40 assassinatos, sem que o poder público conseguisse detê-lo, e testemunhou a dor de uma chacina que matou seis pessoas no bairro Cardoso 2, em Aparecida de Goiânia.

Era também a época em que o roubo de veículos havia se transformado em rotina temida: o estado chegava a registrar uma média de 30 carros roubados por dia, quase 10.104 casos em 2018, um número tão alto que a própria Secretaria de Segurança Pública, anos depois, reconheceria seu impacto direto no bolso do cidadão, com o preço dos seguros veiculares disparando para acompanhar o risco. Era um Goiás que temia as próprias ruas, e que sentia esse medo até no valor cobrado para proteger o carro na garagem.

O contraste entre as duas gestões, portanto, não é uma questão de opinião: é uma questão de arquivo. De um lado, um estado no topo dos rankings de violência nacional; de outro, um estado citado como modelo de segurança pública para o Brasil. De um lado, 30 veículos roubados todos os dias; de outro, uma fração disso, refletida até na conta do seguro que a família deixou de pagar mais caro. A diferença entre esses números não é estatística fria: é a diferença entre uma mãe que espera o filho voltar da escola com angústia no peito, e uma mãe que já nem pensa mais nisso, porque a rotina reconquistou a normalidade que qualquer família merece.

É por isso que a eleição de 2026 pede mais do que escolha de nomes: pede memória. Porque o Rio de Janeiro que descrevi no início deste texto não é o Rio das paisagens que enchem os olhos do turista, o Rio do Cristo Redentor de braços abertos sobre a baía, do Pão de Açúcar recortado contra o entardecer, das areias de Ipanema e do Leblon onde o mundo inteiro sonha em passar férias. É outro: o Rio real e cotidiano de quem mora na Baixada Fluminense, nos morros e nas comunidades onde o Estado perdeu, há muito, o monopólio da força e da lei; onde facções, milícias e tráfico decidem, na prática, os limites da vida de milhões de pessoas que só querem sobreviver ao dia e cuidar dos seus, sem que a barbárie decida por elas.

É importante dizer: esse descontrole não nasceu de um único governo, nem se explica por um só mandato. É obra construída ao longo de décadas de omissão, de covardia política e, em episódios que a própria Justiça brasileira já documentou, de conluio entre criminosos e dirigentes públicos que preferiram a acomodação ao enfrentamento. E que, aparentemente, não tem mais conserto.

Exatamente por conhecer esse processo, lento e cumulativo, que a interrupção do padrão que Goiás vivia até 2018 ganha tanta importância retrospectiva. Como um avião que acumula pequenos erros de condução até ultrapassar o ponto a partir do qual perde a sustentação no ar, um estado pode caminhar, passo a passo, rumo a uma perda de controle que, em determinado momento, deixa de ser reversível por meios ordinários. Os sinais que Goiás apresentava até 2018, uma taxa de homicídios em ascensão, uma posição cada vez pior nos rankings nacionais, um cotidiano marcado pelo medo do roubo de veículo, indicavam uma trajetória perigosamente próxima desse ponto. Não chegamos lá. Mas a mudança de rota que se seguiu é exatamente o que evitou que chegássemos.

A pergunta que cabe a cada eleitor fazer a si mesmo, com essa memória em mãos, é simples e ao mesmo tempo decisiva: se o padrão de segurança pública que vivemos no passado tivesse tido continuidade, teríamos conseguido escapar do destino que hoje aprisiona tantas famílias fluminenses? E, olhando para frente, qual desses dois Brasis, o que reconquistou a paz ou o que perdeu o controle do próprio território, Goiás está disposto a escolher em outubro?

A resposta, cada goiano já sabe, no íntimo, qual é. Cabe a nós apenas não deixar que esse passado nebuloso nos espreite nas trevas sombrias de uma cachoeira de águas turvas, que insiste em molhar as mãos de alguns nas enchentes imundas que almejam arrebentar os diques de segurança construídos no estado de Goiás nos últimos anos.

Pedro Machado Gonçalves é advogado e cientista político, especializado em Direito Legislativo e Direito da Infraestrutura, Governança e Regulação e mestre em Políticas Públicas e Relações Institucionais