Em meio à tragédia da pandemia, milhares de médicos fazem política com receitas e ajudam o vírus no Brasil

Antes tarde do que mais tarde para o mea-culpa, tanto do presidente da República como do Conselho Federal de Medicina. Mas talvez seja esperar muito de quem já foi tão longe

Jair Bolsonaro levanta caixa de cloroquina em direção a apoiadores | Foto: Reprodução de TV

A história é verídica, mas os nomes interessam bem menos do que o enredo. E, certamente, é uma história que se você, leitor, procurar ao seu redor, vai encontrá-la bem perto também.

É a história infelizmente rotineira de brasileiros em meio à uma família e casos de Covid-19. Uma família que tomou todos os cuidados necessários para prevenir a doença, mas mesmo assim o vírus os alcançou: o marido estava em home office, mas teve de ir à empresa para ver a questão de uns documentos e acabou aceitando o convite de colegas para almoçarem juntos.

Uma das pessoas presentes estava contaminada e ele levou o corona para casa. Quando ficou sintomático, foi ao médico, sentiu-se mal alguns dias, mas nada que relativamente preocupasse tanto.

A mulher foi se consultar dias depois, menos afetada. Era outro médico. Um médico adepto do tratamento precoce. Receitou-lhe hidroxicloroquina, ivermectina e complexo vitamínico. Ela tentou argumentar, dizendo que não se sentia confortável em tomar aqueles remédios. Mas o doutor insistiu, relatando os benefícios e usando termos técnicos, quase como um vendedor tentando seduzir o freguês na sapataria. Ela ouviu calada e calada foi embora com a receita. Mas não tomou nada.

Dias depois, uma tia ficou sabendo que o casal estava com Covid. Ela já tinha tido a doença e, embora detestasse o presidente dublê de corretor de cloroquina, foi, ela sim, convencida pelo médico a tomar a beberagem precoce. Ligava para saber se a sobrinha queria os comprimidos que haviam sobrado.

A história terminou bem. Duas pessoas que não tomaram o kit Covid e uma que havia tomado. Todas, felizmente, se recuperaram.

Enquanto isso, um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) divulgado nesta terça-feira, 6, revela que 71,2% dos pacientes internados com Covid-19 apresentaram lesão renal aguda (LRA). Curiosamente – ou até coincidentemente, mas nem tanto –, descobriu-se que o estrago nos rins estava ligado a históricos de hipertensão e ao tratamento com a combinação hidroxicloroquina mais azitromicina, ambos presentes no kit de tratamento precoce.

Entre outros aspectos, os pesquisadores descobriram que 50% dos casos de internados com LRA eram ligados ao uso dos medicamentos; entre os que não tiveram LRA, 30% revelaram ter feito uso do tratamento precoce.

Estudos científicos que descartam ivermectina, cloroquina, hidroxicloroquina e azitromicina existem aos montes. Já a divulgação de estudos que “comprovam” sua eficácia ou algo assim se dá à margem da ciência.

A questão é que a política entrou no meio médico com muita intensidade. E médico tem muita ascendência sobre o brasileiro médio. Afinal, são “doutores” – ainda que não tenham nem especialização, quanto mais a defesa de uma tese de doutorado.

Mesmo que tenha saído da faculdade com o diploma e nunca mais aberto um livro de medicina, o médico é visto como um semideus por uma parcela enorme da população brasileira. O que ele diz a alguém em seu consultório sobre a suposta eficácia de um medicamento recebe o selo de uma autoridade superior. Porque, para o paciente de origem simples e com pouca instrução – como é considerável parte do povo brasileiro –, o consultório é um oráculo e o “doutor” é um guru.

No RS, manifestação de apoiadores de Bolsonaro teve continência prestada para caixa gigante de cloroquina | Foto: Reprodução

Porém, a aplicação do tratamento precoce, além de curandeirismo com CRM, é também um instrumento político para que pessoas se convençam de que a vida pode seguir praticamente normal e relaxar as medidas de prevenção: “Se eu pegar, tomo o kit e fico bem logo e ainda já crio anticorpos”.

Por isso tudo, o Conselho Federal de Medicina (CFM), ao não falar claramente sobre a conduta que deve ser tomada pelos que usam sua carteirinha e são tratados como referências do saber dos grandes centros aos menores rincões, tem grande responsabilidade sobre a confusão e a tragédia que se tornou a pandemia no Brasil.

Já são quase 350 mil vidas perdidas, mas sempre é tempo de reconhecer erros. Isso vale para todos os profissionais que estão fazendo medicina com o voto. Mas o recado precisa ser ainda mais incisivo para dois presidentes: o da República, que resolveu ser ministro da Saúde; e o do CFM, que lavou as mãos enquanto precisava usar sua caneta. Antes tarde do que mais tarde.

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