Efeito Sergio Moro: os “nem-lula-nem-bolsonaro” votam em Bolsonaro

Calado, o Batman da Lava Jato era um justiceiro sábio. Ao ver seu discurso, apoiadores frustrados estão procurando o “velho novo rumo”

Jair Bolsonaro e Sergio Moro, nos tempos em que ambos eram “uma coisa só” | Foto: Jonathan Campos / Gazeta do Povo

Depois de dois meses, saiu nesta segunda-feira, 21, uma nova rodada da pesquisa de intenção de votos à sucessão presidencial bancada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) e realizada pelo Instituto MDA. O resultado serviu para deixar petistas com duas pulgas atrás de cada orelha e bolsonaristas bem animados. Mas, mais do que isso, serve para jogar a pá de cal na chamada “terceira via”, um codinome para a tentativa de emplacar o ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro como concorrente à Presidência.

Vamos aos números de dezembro, do quarteto que realmente importa: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tinha 42,8% das intenções de voto; Jair Bolsonaro (PL) tinha 25,6%; Sergio Moro (Podemos) era o 3º colocado, com 8,9%; e Ciro Gomes (PDT) tinha 4,9%.

Naquele momento, Bolsonaro travava uma guerra literalmente insana contra a vacinação infantil, algo que com certeza refletiria negativamente nos índices de pesquisa. Moro vivia um mês crucial para saber para onde iria sua curva, depois dos holofotes voltados para seu nome, com o lançamento da pré-candidatura no mês anterior. Lula estava – como está – apostando em articulações políticas. E Ciro disparando – como agora – sua metralhadora giratória contra os rivais e apostando tudo – como agora – no Plano Nacional de Desenvolvimento.

Dois meses se passaram. Lula continua na casa dos 42% (oscilação de 0,6 ponto para baixo); Bolsonaro subiu 2,4 pontos, para 28%; Ciro agora tem 6,7%, ou seja, 1,9 ponto a mais que em dezembro. E Sergio Moro? Está com 6,4, com queda de 2,5 pontos no período. Se as eleições fossem hoje e baseadas na pesquisa CNT/MDA, ele estaria fora até mesmo do pódio da corrida eleitoral.

Lembremo-nos de que, até abril de 2020, Bolsonaro e Moro eram “uma coisa só”, como chegou a definir a esposa do super-herói da Operação Lava Jato, Rosângela. Com seu pedido de demissão após a fatídica reunião de 22 de abril, o racha na extrema-direita favoreceu o presidente. Apenas os lavajatistas mais fanáticos acompanharam o então ex-ministro no abandono do “mito”.

Aos moristas de primeira hora acrescentaram-se direitistas mais esclarecidos, que foram se decepcionando com a forma irracional e anticientífica de o presidente lidar com a maior pandemia dos últimos cem anos. São esses a base dos cerca de 10%, ou um pouco mais, que Sergio Moro atraiu para sua pré-candidatura em um primeiro momento.

A empolgação dos apoiadores em ver Moro alcançar dois dígitos em várias pesquisas, fato que ocorreu até o fim do ano passado, mostra-se agora evidentemente arrefecida. Vendo os fatos que ocorreram desde então, duas coisas parecem bem básicas para entender a curva para baixo nas intenções de voto.

A primeira é que o pré-candidato virou vidraça e sofre com várias denúncias, especialmente em relação a seu período na iniciativa privada, quando recebeu de uma empresa, a Alvarez & Marsal, que também administra a recuperação judicial da Odebrecht, a maior empreiteira do País, que quebrou depois das denúncias e condenações da Lava Jato. O alto salário que recebeu por um ano de serviços parece não ter sido bem digerido pelo eleitorado, bem como muitas dúvidas sobre seu contrato de trabalho e cachês recebidos por palestras.

Outro fator que começou a pesar contra foi justamente aquilo que deveria impulsionar a pré-candidatura: o discurso de Sergio Moro. Com uma pauta que mistura moralismos com ideias primárias sobre governo, economia, relações exteriores e – por incrível que pareça – sistema judiciário, ele tem sofrido bullying da direita e da esquerda também por isso (já era chamado de “juiz ladrão” por esses e de “traíra” por aqueles).

Em resumo: na visão de seus ex-apoiadores, o Batman da Lava Jato, calado, era um justiceiro sábio. Esse povo não sente mais firmeza em sua personalidade e agora procura um novo rumo. Na verdade, um “velho novo rumo”.

Pode não ser mera coincidência que, ao mesmo tempo que Moro caiu 2,5 pontos de uma pesquisa CNT/MDA para outra, Bolsonaro tenha ganhado 2,4 pontos.

Existe na esquerda desconfiada um ditado criado no último ano: quem se diz “nem Lula nem Bolsonaro” é Bolsonaro. Se precisar escolher entre a dupla, vai fechar os olhos a tudo de negativo – e não é pouca coisa – que ocorreu desde 2019 e vai pegar a camisa da CBF para votar.

Isso não é novidade para ninguém que acompanha mais de perto a tendência dos votos do eleitorado. A novidade é que os nem-lula-nem-bolsonaro, temerosos da volta do PT, estão migrando de volta para suas origens.

Se Moro não percebeu isso até agora, realmente não está minimamente preparado para a política.

2 respostas para “Efeito Sergio Moro: os “nem-lula-nem-bolsonaro” votam em Bolsonaro”

  1. Avatar Graciano Farias Arantes disse:

    Excelente artigo!

  2. Avatar Bruno Xavier disse:

    Boa radiografia do que nos espera. Reuniões sórdidas nos bastidores, como as que ocorrem na terceira temporada de Succession, já podem estar definindo o próximo a receber a faixa

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