*Por Emídio BrasileiroEducador, Jurista e Cientista da Religião

Ester é o décimo nono livro da Bíblia e o décimo quarto livro histórico do Antigo Testamento. A autoria é desconhecida, sendo atribuída, por alguns estudiosos, a Mardoqueu ou a Esdras. O livro retrata acontecimentos ocorridos durante cerca de dez anos da vida na corte persa, entre 483 a.C. e 473 a.C., no reinado de Xerxes I, também chamado de Assuero.

A obra é composta por dez capítulos e pode ser dividida em três partes: a ascensão de Ester ao trono (caps. 1 e 2), a conspiração de Hamã e a salvação dos judeus (caps. 3 a 7) e, por fim, a vitória e celebração do povo judeu (caps. 8 a 10).

Durante o reinado de Assuero, na cidade de Susã, o rei promoveu um grande banquete para príncipes, oficiais e habitantes da capital. Em meio às festividades, ordenou que a rainha Vasti comparecesse diante dos convidados para exibir sua beleza, atitude considerada humilhante para a época. Vasti recusou-se a obedecer, e o rei, aconselhado por seus sábios, decidiu destituí-la do cargo de rainha, decretando ainda que ela jamais voltasse à sua presença. Também foi estabelecido que toda mulher deveria honrar o marido em sua casa.

Três anos depois, iniciou-se a busca por uma nova rainha. Jovens donzelas foram reunidas e submetidas a um período de doze meses de preparação física, comportamental e política antes de serem apresentadas ao rei.

Entre elas estava Ester, jovem judia órfã criada por seu primo Mardoqueu. Ela conquistou a simpatia de Hegai, responsável pelo harém real, recebendo cuidados especiais. Ao ser apresentada ao rei, Ester foi escolhida como rainha no sétimo ano do reinado de Assuero, cerca de quatro anos após a deposição de Vasti. Nesse período, Mardoqueu descobriu uma conspiração contra o rei, denunciou o plano e teve seu ato registrado nos anais do reino.

Após a coroação de Ester, Assuero promoveu Hamã a uma posição de destaque no império e determinou que todos se prostrassem diante dele. Mardoqueu, no entanto, recusou-se a fazê-lo. Ao descobrir que ele era judeu, Hamã decidiu não apenas destruí-lo, mas exterminar todo o povo judeu. No décimo segundo ano do reinado, lançou sortes para definir a data do massacre e convenceu o rei a publicar um edito ordenando a destruição dos judeus em todas as províncias.

Ao tomar conhecimento do decreto, Mardoqueu vestiu-se de saco e cinza, lamentou publicamente e pediu que Ester intercedesse junto ao rei. Inicialmente hesitante, por causa da lei que proibia comparecer diante do rei sem ser chamada, Ester foi encorajada por Mardoqueu a reconhecer que talvez tivesse sido colocada naquela posição para salvar seu povo. Ela pediu então que os judeus de Susã jejuassem durante três dias, enquanto se preparava para arriscar a própria vida.

Depois do período de jejum, Ester apresentou-se diante do rei, que estendeu o cetro em sinal de aceitação. Assuero perguntou qual era seu pedido, oferecendo até metade do reino. Demonstrando prudência, Ester convidou o rei e Hamã para um banquete e, posteriormente, para um segundo encontro no dia seguinte, sem revelar imediatamente sua intenção.

Enquanto isso, Hamã, tomado pelo orgulho e pela ira contra Mardoqueu, mandou construir uma forca para executá-lo. Naquela mesma noite, o rei, sem conseguir dormir, ordenou a leitura das crônicas do reino e relembrou que Mardoqueu havia denunciado uma conspiração sem jamais ter sido recompensado. No dia seguinte, perguntou a Hamã como deveria honrar alguém que o rei desejasse exaltar. Pensando tratar-se de si mesmo, Hamã sugeriu grandes honrarias. Para sua surpresa, foi obrigado a conduzir Mardoqueu em praça pública, prestando-lhe as homenagens sugeridas.

No segundo banquete, Ester revelou sua origem judaica e denunciou Hamã como responsável pela ameaça contra seu povo. Tomado pela ira, Assuero ordenou a execução de Hamã, que acabou enforcado na mesma forca preparada para Mardoqueu. Em seguida, o rei entregou a Mardoqueu seu anel real, elevando-o à segunda posição mais importante do império.

Ester voltou a interceder em favor dos judeus e, como a lei persa não podia ser revogada, Assuero autorizou um novo decreto concedendo aos judeus o direito de se defenderem. No dia marcado para a destruição, o povo judeu prevaleceu sobre seus inimigos em todas as províncias, especialmente em Susã.

A ameaça transformou-se em vitória, celebrada com banquetes e alegria. Em memória do livramento, Mardoqueu instituiu a festa do Purim, celebrada anualmente nos dias 14 e 15 do mês de adar, tradição posteriormente confirmada também por Ester.

O Livro de Ester evidencia a ação da providência divina de maneira discreta, manifestada mais pelas circunstâncias da vida e pela inspiração espiritual do que por milagres explícitos. Ester simboliza a coragem, a sabedoria e o uso responsável do livre-arbítrio em favor do bem coletivo.

A queda de Hamã representa as consequências do orgulho e da injustiça, que acabam se voltando contra o próprio indivíduo. A narrativa ensina que, mesmo sem a menção direta de Deus ao longo do texto, Sua lei se manifesta por meio das escolhas humanas, da influência espiritual e do encadeamento moral dos acontecimentos, conduzindo todos ao progresso e à justiça.

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