Ser mulher, lésbica ou bissexual em Goiás, ainda significa enfrentar uma realidade marcada por invisibilidade, preconceito e lacunas nas políticas públicas. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e do Levantamento Situacional da População LGBTQIAPN+ em Goiás, realizado pelo Governo do Estado, revelam que a discriminação contra esse público permanece presente em ambientes como família, escola, trabalho, rua e espaços religiosos.

No Brasil, 2,9 milhões de pessoas adultas se declararam homossexuais ou bissexuais, o equivalente a 1,8% da população com 18 anos ou mais. Entre as mulheres, 0,9% se declararam homossexuais, ou lésbicas, e 0,8% bissexuais. Em números absolutos, o IBGE estima que 1,5 milhão de mulheres brasileiras adultas se identificam como homossexuais ou bissexuais. 

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Em Goiás, o percentual geral de pessoas adultas que se declararam homossexuais ou bissexuais foi de 1,2%, abaixo da média nacional, de 1,8%, e também inferior ao índice do Centro-Oeste, de 1,7%. O Distrito Federal aparece com o maior percentual do país, 2,9%. 

Apesar dos números oficiais, especialistas apontam que os dados podem não refletir toda a realidade. Isso porque parte da população ainda pode ter receio de declarar a própria orientação sexual, especialmente em contextos marcados por preconceito, violência ou dependência familiar e financeira.

Goiás tem levantamento próprio sobre população LGBTQIAPN+

Além da pesquisa nacional do IBGE, Goiás conta com um levantamento próprio e específico sobre a população LGBTQIAPN+. A pesquisa foi realizada pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Social (Seds), em parceria com as secretarias de Educação e Saúde, e apoio do Instituto Mauro Borges. O estudo reuniu 436 respostas válidas de moradores de 45 municípios goianos, coletadas entre outubro de 2021 e julho de 2022. 

A maior parte dos participantes era de Goiânia, com 251 respostas. Também houve participação de moradores de Aparecida de Goiânia, Anápolis, Trindade, Alto Paraíso e outros municípios. Entre os entrevistados, 97% viviam em área urbana e 3% em área rural. 

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No recorte de identidade de gênero, 36,3% se declararam mulheres cisgênero, 3,8% mulheres trans e 5,3% pessoas não binárias. Em relação à orientação sexual, 58,1% se identificaram como homossexuais, 23,6% como bissexuais, 8,6% como pansexuais, 7,6% como heterossexuais, 1,7% como outra orientação e 0,4% como assexuais. 

Mulheres lésbicas e bissexuais são mais jovens no levantamento

O levantamento estadual mostra que a população LGBTQIAPN+ ouvida em Goiás é majoritariamente jovem. A média de idade dos participantes foi de 23,6 anos. A maior concentração estava entre 21 e 25 anos, com 30,5% das respostas, seguida pelo grupo de 15 a 20 anos, com 24,9%, e de 26 a 30 anos, com 21,8%.

A pesquisa também aponta que a descoberta da orientação sexual ocorre, em grande parte, ainda na infância ou adolescência. Entre os entrevistados, 21,5% disseram ter percebido antes dos 10 anos, 31,7% entre 10 e 14 anos, e 28,8% entre 15 e 19 anos.

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A servidora pública Gardênia Matos, que se identifica como mulher bissexual, afirma que a compreensão da própria sexualidade foi atravessada, desde a infância, por cobranças relacionadas a gênero e comportamento. Segundo ela, a sociedade costuma associar gostos, roupas e brincadeiras a uma ideia rígida de feminilidade.

“Quando se é criança, tudo que está relacionado ao universo feminino é associado a um tipo de pessoa. Se você não faz aquilo, adultos preconceituosos primeiro atacam o gênero. Dizem: ‘isso não pode, porque é coisa de menina’. O primeiro conflito foi aí: ‘será que eu não sou menina?’ ‘Será que eu não sou tão menina assim?’”, relata.

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Gardênia Matos destaca que a compreensão da sexualidade foi atrelada a cobranças relacionadas a gênero e comportamento | Foto: Arquivo Pessoal

Na adolescência, Gardênia passou a compreender que a questão estava relacionada à sexualidade, não à identidade de gênero. Ainda assim, afirma que a bissexualidade foi um processo de entendimento gradual.

“Existe uma imposição social cruel: se você tem atração por uma mulher, você é lésbica; se tem atração por um homem, você é hétero. Até eu entender que era totalmente normal e aceitável ter interesse por ambas as pessoas”, diz.

Medo da rejeição ainda impede diálogo com a família

Um dos dados mais sensíveis do levantamento estadual está relacionado ao silêncio dentro de casa. Entre os motivos apontados para não falar sobre orientação sexual ou identidade de gênero, 26,6% citaram o receio de negação, preconceito ou repreensão. Outros 13,1% mencionaram conflitos religiosos, 10,6% disseram depender financeiramente da família e 9,1% afirmaram ter medo de sofrer violência.

Para mulheres lésbicas e bissexuais, esse cenário pode ser ainda mais complexo, já que a sexualidade feminina costuma ser alvo de controle, julgamento e invalidação social. No caso das mulheres bissexuais, há ainda o apagamento da orientação sexual, muitas vezes tratada como “fase”, dúvida ou indecisão.

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A produtora cultural Juliana Damando se reconhece como mulher bissexual, mas afirma que sua vivência política também é marcada pela “identidade sapatão.” Casada com uma mulher, ela diz que o processo de compreensão da própria sexualidade foi tardio e atravessado por experiências de repressão religiosa, bullying e invalidação.

“Eu me reconheço como uma mulher bissexual. Mas costumo dizer que minha orientação sexual é bissexual e minha identidade política é sapatão. Tanto mulheres lésbicas quanto bissexuais vivem uma estigmatização desde muito cedo, quando não performam a feminilidade esperada pela sociedade”, relata.

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Juliana Damando é casada com uma mulher, mas afirma que o processo de compreensão da própria sexualidade foi tardio e atravessado por experiências de repressão religiosa, bullying e invalidação. | Foto: Arquivo Pessoal

Juliana conta que, ainda criança, era alvo de apelidos pejorativos por gostar de esportes e não se enquadrar nos padrões associados ao feminino. Na adolescência, ao frequentar uma igreja evangélica, passou a enxergar sua sexualidade como algo que deveria ser reprimido.

“Eu fui evangélica por 10 anos. Lá, diziam que ser LGBT era pecado, que iria para o inferno. Então eu busquei esse espaço de cura, achando que isso era uma doença. Por isso, meu processo de me reconhecer como pessoa LGBT foi muito tardio, só aos 27 anos”, afirma.

Quando passou a se relacionar com mulheres, Juliana diz que enfrentou resistência da família e de pessoas próximas. “Diziam que era uma fase, que eu estava confusa, que eu tinha me distanciado da igreja e queria viver o oposto. Quando, na verdade, eu só estava me conectando comigo mesma.”

Gardênia também relata que mulheres bissexuais são frequentemente invalidadas quando se relacionam com homens. Hoje casada com um homem e mãe, ela afirma que sua orientação sexual ainda é questionada por parte das pessoas.

“Na família, existe aquela fala de que foi só uma fase. ‘Olha lá, casou com homem, tem filho, é mulher sim’. Nós percebemos que ainda existe esse conflito de gênero e sexualidade”, afirma.

Para a professora, cientista social e mestranda em Sociologia, Beatriz Lima, a família ocupa um papel central na reprodução das normas sociais relacionadas a gênero e sexualidade. “Vivemos em uma sociedade marcada pela heteronormatividade, e a família também participa da reprodução dessas regras. Ela estabelece expectativas sobre o que homens e mulheres devem ser e sobre como devem viver sua sexualidade”, pontua.

Segundo a pesquisadora, quando uma mulher lésbica ou bissexual rompe essas expectativas, a rejeição familiar muitas vezes funciona como uma tentativa de restaurar a norma social.

“O sofrimento que muitas mulheres lésbicas e bissexuais vivem dentro de casa tem como base o funcionamento dessa heteronormatividade no espaço privado. É dentro da família que frequentemente acontecem os primeiros episódios de preconceito e violência”, completou.

Preconceito atinge quase 8 em cada 10 entrevistados

O levantamento goiano aponta que 79,3% dos participantes já sofreram preconceito por orientação sexual. Os principais autores foram pessoas desconhecidas, com 231 registros, e familiares, com 228. Também aparecem amigos, vizinhos e até outras pessoas LGBTQIA+.

Beatriz Lima destaca que o fato de quase oito em cada dez entrevistados relatarem já ter sofrido preconceito demonstra que a LGBTfobia não pode ser compreendida apenas como resultado de atitudes individuais.

“Quando não temos dados tão expressivos como esse, não pode simplesmente dizer que se trata apenas do desvio moral de quem comete esse tipo de violência. Estamos falando de um problema estrutural, alimentado por uma sociedade baseada na heteronormatividade e na ideia de que existe apenas uma forma legítima de viver a sexualidade”, afirma.

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Professora, cientista social e mestranda em sociologia, Beatriz Lima afirma que a bifobia aparece tanto entre pessoas heterossexuais quanto dentro da própria sigla. | Foto: Arquivo Pessoal

Segundo ela, embora as pessoas sejam responsáveis por seus atos, os números revelam a existência de mecanismos sociais mais amplos de exclusão. “É óbvio que podemos responsabilizar quem pratica o preconceito. Mas é impossível tratar isso apenas como uma ação individual quando os dados mostram um padrão tão recorrente. Isso revela uma estrutura que tenta excluir quem foge do padrão considerado aceitável”, diz.

Os locais onde o preconceito mais ocorreu foram o ambiente familiar, com 204 registros, o ambiente escolar, com 199, e a rua, com 198. Também foram citados ambientes de lazer, espaços religiosos e locais de trabalho.

Juliana afirma que mulheres bissexuais enfrentam preconceito dentro e fora da comunidade LGBTQIAPN+. Segundo ela, a bifobia aparece tanto entre pessoas heterossexuais quanto dentro da própria sigla.

“A nossa comunidade LGBT também é muito bifóbica. Quando a gente se relaciona com pessoas do sexo oposto, existe uma passabilidade maior, e parte da comunidade não compreende isso. Ao mesmo tempo, tanto pessoas LGBT quanto heterossexuais nos julgam como confusas, como se a gente não soubesse o que quer”, diz.

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Gardênia também relata que mulheres bissexuais são frequentemente associadas à promiscuidade ou tratadas como se estivessem sexualmente disponíveis para todos.

“As piadinhas dizem muito. Falam: ‘Gardênia não morre de fome, porque come de tudo’. No fundo, isso mostra o que a pessoa pensa sobre uma mulher bissexual, como se o nosso corpo estivesse disponível para todos. Mas a bissexualidade não é isso”, afirma.

Violência verbal e psicológica são as mais frequentes

Além do preconceito, a pesquisa estadual identificou diferentes tipos de violência vividos pela população LGBTQIAPN+ em Goiás. A violência verbal foi a mais citada: 256 pessoas disseram ter sofrido esse tipo de agressão algumas vezes e 59 frequentemente. A violência emocional ou psicológica também teve alta incidência, com 237 relatos de ocorrência algumas vezes e 53 frequentemente.

Também foram registrados casos de violência física, sexual e financeira. A violência física foi relatada por 63 pessoas algumas vezes e por três frequentemente. Já a violência sexual apareceu em 52 relatos de ocorrência algumas vezes e cinco frequentemente. A violência financeira foi mencionada por 57 pessoas algumas vezes e por 16 frequentemente.

Os principais autores da violência foram desconhecidos e familiares. Os locais mais citados foram o ambiente familiar, a rua, a escola, espaços de lazer, o trabalho e ambientes religiosos.

Para Juliana, uma das violências específicas enfrentadas por mulheres lésbicas e bissexuais é o medo do chamado “estupro corretivo.” Ela afirma que esse tipo de violência nasce da combinação entre machismo e LGBTfobia.

“Um homem gay não vai saber o que uma mulher lésbica ou bissexual passa no sentido de sempre ter medo de ser estuprada. Nós sofremos a ameaça constante do estupro corretivo, dessa ideia violenta de que falta encontrar o homem certo”, afirma.

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A cientista social formada pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Cíntia Dias, avalia que a violência contra mulheres LGBTQIAPN+ nem sempre se manifesta de forma física. Em muitos casos, ela aparece por meio da negação da identidade, da orientação sexual e da autonomia dessas mulheres.

“Talvez a maior violência que as mulheres LGBTQIAPN+ sofram seja justamente a falta de reconhecimento e aceitação de quem elas são”, afirma.

Segundo ela, enquanto homens gays costumam ser mais frequentemente alvo de agressões físicas, mulheres lésbicas e bissexuais enfrentam formas de violência mais sutis, mas igualmente danosas. “Quando vemos um casal de homens gays, muitas vezes a violência aparece de forma física. Já contra as mulheres LGBTQIAPN+, a violência costuma ser mais psicológica. Elas ouvem constantemente que não conheceram o homem certo, que ainda vão mudar de ideia. Isso representa um desrespeito ao corpo e ao desejo dessas mulheres”.

Cíntia Dias afirma que homens gays costumam ser mais frequentemente alvo de agressões físicas. Já mulheres lésbicas e bissexuais enfrentam formas de violência mais sutis, mas igualmente danosas | Foto: Jornal Opção

A pesquisadora destaca que a rejeição familiar, apontada também pelos dados do levantamento, é um dos fatores que mais impactam a saúde emocional dessa população. “Esse preconceito começa dentro da própria família. Quantas mulheres LGBTQIAPN+ não são acolhidas ou aceitas pelos pais? Isso destrói toda a estrutura emocional da pessoa. Imagine uma adolescente de 17 anos que não tem para onde ir porque a família a rejeitou? Essa é uma realidade muito dura”, diz.

Para ela, o enfrentamento desse cenário exige ações permanentes de conscientização e educação. “Primeiro precisamos reconhecer que o problema existe. A partir daí, é necessário tratar o tema na escola, nas campanhas de comunicação e no debate público, desmistificando esse tipo de violência. Essa discussão tem relação direta com os direitos das mulheres. As mulheres são donas dos seus corpos e dos seus desejos”, afirma.

Saúde mental acende alerta

A saúde mental aparece como um dos pontos mais graves do levantamento. Entre os entrevistados, 196 pessoas disseram já ter pensado em suicídio por serem LGBTQIA+ ao menos uma vez. Desse total, 61 relataram ter pensado uma vez e 135 mais de uma vez. 

A pesquisa também mostra que 75 pessoas afirmaram já ter tentado suicídio por serem LGBTQIA+, sendo 41 uma vez e 34 mais de uma vez. 

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Escolaridade e mercado de trabalho

O levantamento estadual também traça um perfil de escolaridade, trabalho e renda da população LGBTQIAPN+ entrevistada em Goiás. Entre os participantes, 31,5% tinham ensino superior incompleto, 23,3% pós-graduação completa, 17% superior completo e 12,5% ensino médio completo.

No mercado de trabalho, 32,5% eram estudantes, 23% empregados com carteira assinada, 13,3% servidores efetivos, 10,5% autônomos e 8,8% servidores comissionados. Quando questionados sobre dificuldade de ascensão profissional por serem LGBTQIA+, 15,6% responderam que sim, 48% disseram que não e 36,4% afirmaram que a pergunta não se aplicava.

Para Cíntia Dias, as dificuldades relacionadas à educação e ao trabalho continuam entre os principais obstáculos enfrentados por mulheres LGBTQIAPN+, especialmente mulheres trans.

“Principalmente quando a gente fala das mulheres, a maior reclamação delas é trabalho e estudo. Geralmente elas têm muita dificuldade de permanecer na escola e de conseguir inserção no mercado de trabalho. Isso é ainda mais evidente entre as mulheres trans”, afirma.

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Segundo ela, a exclusão escolar e profissional acaba ampliando outras vulnerabilidades sociais.

“Quanto mais a diversidade aparece com visibilidade, mais essas mulheres enfrentam vulnerabilidades. A falta de acesso ao trabalho acaba levando muitas vezes à prostituição e a diferentes formas de violência. Essas duas questões são essenciais para qualquer ser humano numa sociedade em que a sobrevivência depende de renda.”

Os dados sobre rendimento ajudam a dimensionar esse cenário. A renda mensal mais comum entre os entrevistados estava entre R$ 2 mil e R$ 5 mil, faixa declarada por 35,8% dos participantes. Outros 25,9% recebiam entre R$ 1,1 mil e R$ 2 mil, enquanto 19,3% ganhavam até R$ 1,1 mil por mês.

Para a pesquisadora, as barreiras enfrentadas por parte da população LGBTQIAPN+ comprometem não apenas a renda, mas também as perspectivas de desenvolvimento pessoal e profissional.

“Muitas dessas mulheres não conseguem sequer ter esperança de crescimento profissional ou de melhoria de vida. É muito difícil assistir a isso, porque são mulheres como nós, com todas as capacidades possíveis, mas que são barradas pelo preconceito.”

Políticas públicas são consideradas insuficientes

A avaliação das políticas públicas é outro ponto de atenção. Quando perguntados se a legislação brasileira ampara os direitos da população LGBTQIA+, 52,7% responderam que ampara parcialmente, 32,3% disseram que não ampara, 14,3% não souberam responder e apenas 0,7% afirmaram que ampara totalmente.

Em relação às políticas públicas de Goiás, 38% disseram que elas não atendem às necessidades da população LGBTQIA+, 34,9% afirmaram que atendem parcialmente, 26,2% não souberam responder e somente 0,9% avaliaram que atendem totalmente.

Para Gardênia, a bissexualidade ainda é pouco contemplada pelas políticas públicas, especialmente nas áreas de saúde e educação.

“Não sinto que a bissexualidade seja abraçada totalmente por políticas públicas, seja na esfera municipal, estadual ou federal. As políticas de saúde e educação precisam pautar a bissexualidade. Nós ainda somos muito invisibilizadas e apagadas, inclusive dentro da própria sigla”, afirma.

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Cíntia Dias afirma que a principal lacuna não está necessariamente na criação de novas leis, mas na falta de representatividade em espaços de poder e decisão.

“Sinceramente, eu não acho que a principal questão seja a falta de leis. O que falta é representatividade. Quantas mulheres LGBTQIAPN+ assumidas nós conhecemos ocupando espaços de poder? Quantas estão em cargos de decisão, seja no setor público ou privado?”, questiona.

Segundo ela, a ausência dessas vozes nos espaços institucionais faz com que outras pessoas continuem definindo políticas e decisões que afetam diretamente suas vidas.

“Enquanto nós não estivermos nesses espaços, outras pessoas continuarão decidindo sobre os nossos corpos e sobre as nossas vidas. Não é apenas uma questão de legislação. É uma questão de ocupação dos espaços de poder.”

A pesquisadora cita a atuação da deputada federal Erika Hilton (Psol) como exemplo de ampliação do debate público.

“A deputada federal Erika Hilton tem feito um trabalho espetacular porque ela não fala apenas de pautas LGBTQIAPN+. Ela também discute temas da classe trabalhadora, como a escala 6×1. Isso mostra que pessoas LGBTQIAPN+ têm capacidade de debater todos os assuntos da sociedade.”

Para Cíntia, o fortalecimento da representatividade também passa pela produção de conhecimento e pela ampliação da presença dessa população em universidades, instituições e movimentos sociais.

“Eu acredito que a produção de conhecimento também está relacionada à ocupação dos espaços. Se tivermos mais pessoas LGBTQIAPN+ dentro das universidades, teremos mais pesquisas sobre essa população. Se tivermos mais pessoas LGBTQIAPN+ nos espaços de poder, teremos decisões mais favoráveis.”

Ela também defende que políticas públicas voltadas para autonomia econômica e social sejam priorizadas.

“As paradas LGBTQIAPN+ são, hoje, algumas das maiores manifestações do país. Movimentam a economia, o turismo e diversos setores. Esse espaço precisa avançar da celebração para a luta pelos direitos coletivos. O problema é que a opressão é tão grande e a ausência de políticas públicas é tão forte que muitas vezes essas pessoas estão preocupadas apenas em sobreviver.”

Para a pesquisadora, ampliar a cidadania da população LGBTQIAPN+ passa também pela garantia de condições concretas para que essas pessoas construam projetos de vida com independência.

“Por isso, eu acredito que faltam investimentos e políticas públicas voltadas para a autonomia dessas pessoas. Quando alguém conquista autonomia financeira e social, passa a ter condições de buscar outros direitos e outras conquistas. Talvez essa seja uma das principais lacunas que ainda precisamos enfrentar.”

Juliana também defende que mulheres lésbicas e bissexuais precisam ocupar mais espaços institucionais. Para ela, embora existam aliados na política, ainda falta representação específica.

“Nós temos o primeiro vereador assumidamente gay em Goiânia, o Fabrício Rosa (PT), que nos apoia muito. Mas gostaríamos de ter candidaturas que nos representassem enquanto mulheres lésbicas e bissexuais, com um recorte de gênero mais adequado”, diz.

Direitos civis avançaram nos cartórios

O arquivo também reúne dados sobre casamento homoafetivo em Goiás. A união homoafetiva foi reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2011. Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça editou a Resolução nº 175, que proibiu cartórios de recusarem a habilitação, celebração de casamento civil ou conversão de união estável em casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Entre 2015 e 2025, foram realizados 4.934 casamentos homoafetivos em Goiás. Desse total, 4.707 foram casamentos civis, 126 religiosos e 101 transcrições de casamento. No mesmo período, o Estado registrou 368.032 casamentos no total, o que significa que os casamentos homoafetivos representaram 1,27% dos registros.

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Juliana, que é casada com uma mulher, avalia que o reconhecimento jurídico foi fundamental, mas ainda pouco conhecido por parte da população LGBTQIAPN+.

“Muitas pessoas ainda não conhecem seus direitos, principalmente acerca da união estável, que é um procedimento mais simples. A gente carece de mais políticas públicas e de divulgação, por parte do poder público, sobre os nossos direitos à união estável e ao casamento”, afirma.

Ela cita como exemplo positivo os casamentos comunitários voltados à população LGBTQIAPN+, mas defende que as ações sejam ampliadas.

“O casamento comunitário LGBT é uma iniciativa muito bacana, porque torna popular e acessível o casamento para quem quiser fazê-lo. Só que acontece apenas uma vez ao ano. Poderiam existir mais iniciativas, inclusive para chegar às periferias, onde os jovens têm ainda menos acesso a essas informações”, diz.

Rede de apoio e canais institucionais

O arquivo também cita órgãos do sistema de Justiça e segurança pública que atuam na defesa e apoio à população LGBTQIAPN+ em Goiás. Entre eles estão a Comissão da Diversidade Sexual da OAB-GO, o Centro de Apoio Operacional dos Direitos Humanos e do Cidadão do Ministério Público de Goiás e o Núcleo Especializado de Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado de Goiás.

Para o presidente da Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero da OAB-GO, Tiago Linhares, os avanços jurídicos conquistados pela população LGBTQIAPN+ no Brasil não foram resultado de uma iniciativa espontânea do Legislativo, mas de anos de judicialização e mobilização social.

“Nós temos que ver que todos esses direitos não foram a lei quem nos deu de mão beijada. Foram direitos que as pessoas tiveram que judicializar, procurar um advogado ou uma advogada para fazer valer. Quando falamos de direito para a comunidade LGBT, falamos de luta”, afirma.

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Presidente da Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero da OAB-GO, Tiago Linhares afirma que os direitos para o público LGBT foram conseguidos por meio de luta | Foto: Reprodução/Instagram

Segundo ele, o casamento homoafetivo e a equiparação da LGBTfobia ao crime de racismo são exemplos de conquistas obtidas por meio do Judiciário. “O casamento foi judicializado tantas vezes até que o Conselho Nacional de Justiça regulamentou. A equiparação da LGBTfobia ao crime de racismo foi outro ponto de ativismo judicial. Foi o Supremo Tribunal Federal que julgou. Não foi algo que o legislador quis fazer”, diz.

Linhares avalia que a legislação ainda é omissa em relação à diversidade. Para ele, a proteção da população LGBTQIAPN+ continua dependendo, em muitos casos, da atuação de advogados, defensores públicos, Ministério Público e Cortes Superiores.

“Quando se fala de diversidade, é processo, é discussão judicial, é a pessoa indo para a briga, procurando um advogado, procurando o Ministério Público, procurando a Defensoria Pública. Porque, se a gente olha para a lei, ela é omissa com a diversidade”, afirma.

O presidente da Comissão também chama atenção para formas mais sutis de discriminação. Segundo ele, a LGBTfobia nem sempre aparece de maneira explícita, mas pode se manifestar em obstáculos burocráticos e tratamentos diferenciados.

“Hoje, a homofobia não é mais só aquela coisa escancarada. Muitas vezes é uma homofobia velada. Cria-se uma dificuldade, trâmites burocráticos. Na adoção, por exemplo, um casal lésbico pode cumprir os requisitos, mas aparecem exigências novas que talvez não fossem feitas para um casal heterossexual”, pontua.

Para Linhares, pessoas que se sentirem violadas devem buscar orientação jurídica. “A diversidade requer luta. As conquistas da diversidade, no campo jurídico, são conquistas judiciais. E, na hipótese de violação, cabe ao cidadão ou à cidadã procurar um advogado ou advogada competente. Aqui em Goiás, a diversidade não encontrará advogados e advogadas covardes”, conclui.

Invisibilidade ainda dificulta políticas específicas

Embora os dados ajudem a dimensionar parte da realidade da população LGBTQIAPN+ em Goiás, ainda há limitações importantes. A pesquisa do IBGE traz dados por sexo e orientação sexual em nível nacional, mas não detalha, por estado, quantas mulheres se declaram lésbicas ou bissexuais. Já o levantamento estadual apresenta dados relevantes sobre identidade de gênero, orientação sexual, violência, família, saúde mental, trabalho e políticas públicas, mas não cruza todos esses indicadores especificamente para mulheres lésbicas e bissexuais.

Essa ausência de recortes mais detalhados dificulta a formulação de políticas públicas direcionadas. Sem dados específicos, demandas de mulheres lésbicas e bissexuais podem acabar diluídas dentro de diagnósticos mais amplos sobre a população LGBTQIAPN+.

Para Juliana, a falta de representação também afeta a forma como essas demandas chegam ao poder público. “Nós, mulheres, sabemos que existem preconceitos, discriminações e violências que somente nós vivemos. Por isso, é importante ter mulheres lésbicas e bissexuais ocupando esses espaços”, afirma.

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Na prática, os levantamentos mostram que, apesar dos avanços legais, mulheres lésbicas e bissexuais em Goiás ainda enfrentam desafios que passam pela aceitação familiar, segurança nos espaços públicos, respeito no ambiente escolar e profissional, acesso à saúde mental e reconhecimento nas políticas públicas.

Para Gardênia, a saída passa pelo reconhecimento da própria vivência. “É preciso que nos permitamos viver e entender a própria vivência sem as máscaras da sociedade. Quando olhamos para dentro, nos reconhecemos e nos colocamos no mundo, conseguimos viver de verdade, nos defender e defendermos outras pessoas coletivamente.”

Juliana resume a reivindicação em uma palavra: respeito. “Tudo o que queremos é sobreviver e vivermos uma vida digna. Não queremos privilégio, não queremos nada a mais do que pessoas heterossexuais têm. O que queremos é isonomia, dignidade e cidadania. Parem de nos matar, parem de nos violentar. Nós queremos viver.”

De acordo com Beatriz Lima, a ausência de informações específicas sobre mulheres lésbicas e bissexuais não é uma mera falha estatística, mas reflete uma escolha institucional sobre quais experiências são consideradas relevantes.

“Não me espanta saber da ausência de dados específicos sobre mulheres lésbicas e bissexuais porque vivemos em uma sociedade que pouco se interessa em pesquisar e produzir conhecimento sobre mulheres. Quando cruzamos isso com orientações sexuais que não são a heterossexualidade, o apagamento se torna ainda maior”, refletiu.

Segundo ela, a falta de informações dificulta a formulação de políticas públicas adequadas para esse grupo. “Quando o Estado, as universidades e os órgãos de pesquisa deixam de produzir dados sobre essas mulheres, acabam tornando suas experiências invisíveis. Sem dados, não conseguimos medir problemas, identificar demandas específicas nem construir políticas públicas capazes de enfrentá-las”, diz

A pesquisadora avalia que a consequência é a produção de uma espécie de invisibilidade institucional. “Essas mulheres existem, possuem demandas próprias e enfrentam problemas específicos. Quando esses dados não são produzidos, a mensagem transmitida é a de que essas experiências não importam o suficiente para serem conhecidas e transformadas em políticas públicas”, conclui.

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