Carlos Willian Leite
O mercado editorial fechou 2011 em alta. Embora o número de lançamentos tenha sido inferior ao ano de 2010, o segmento movimentou, apenas no Brasil e em publicações impressas, aproximadamente R$ 8 bilhões. Apesar da burocracia na comercialização e das complicações em relação aos direitos autorais inviabilizarem a consolidação do mercado de livros eletrônicos em países como o Brasil, a internet continuou a ser a grande parceira do setor. O balanço do “Kirkus” — tradicional jornal norte-americano de resenhas — registrou que a maioria dos leitores chegou aos livros por anúncios presentes em sites de editoras, livrarias ou em blogs e redes sociais como Twitter, Facebook e YouTube, embora ressalte que, mesmo com as possibilidades interativas e o baixo custo de produção, a internet não substituiu o impresso e segue funcionando como suporte logístico do mercado. A verdade é que os livros, impressos ou digitais, continuarão em alta.
Nesta e nas próximas edições, o Jornal Opção apresenta o que intelectuais vão ler em 2012. Boa leitura.
Robert Fisk, Lawrence Durrell, Raimundo Carrero e Valter Hugo Mãe
Valdivino Braz
Especial pra o Jornal Opção
Já me declarei avesso a essa contingência de preestabelecer “programa de leitura” a cada ano que se inicia. Até me pergunto em que, a fundo, isso possa interessar e ser útil a algum leitor, leigo que seja ou letrado em matéria literária. Alguma concreta curiosidade ou real interesse quanto a isso? Quem, realmente, quer saber o que estamos lendo, ou se interessa pelo que vamos ler? E para quê quer saber? Servirá, porventura, a algum parâmetro ou nobre propósito? Constituirá, aqui e agora ou algures, alguma espécie de farol, sinal indicativo, vetor valorativo, substancial roteiro de leitura?
Faço as perguntas, mas não dou respostas. Deem-nas, a nós, que recorremos a vós, hipotéticos leitores, doutores em letras ou meros curiosos, senão amantes verdadeiros da arte literária, que deixa de ser arte quanto equivocada e desastrosa, por conta de limitações autorais ou de parco talento. De mãos dadas a vaidade e a chatice de professar-se também escritor (“Eu também escrevo”), o diletantismo sem futuro, pífia e patética obra dos equivocados, iludidos na senda pedregosa da literatura. Deles há com insistentes pedidos de prefácio para obras chinfrins, ingênuas porquanto imaturas, quando não alienadas. E se, por isso mesmo, você até se condoer deles, se sentirá mal por algo que não vale a pena. Literatura não é por aí.
A propósito de equívocos e literatura desastrosa, há pouco recebi e-mail de um contumaz leitor (vamos chamá-lo de Teotônio), autor de livro e residente em Goiânia. Atento, perceptivo, por isso mesmo instigante nos seus questionamentos de ordem literária. Veemente em suas posições, ressalta sua aversão aos modismos e “cânones impostos por uma visão distorcida da realidade que nos cerca”. Acentua, por exemplo (tome polêmica), a questão da co-autoria do leitor. Taxativo, afirma que “escrever para leitor co-autor é tão vazio quanto a estúpida reforma ortográfica que só agradou a meia dúzia daqueles velhotes da Academia”. Idiotia sem par, de acordo com Teotônio, é alguém dizer que o autor do texto ou o diretor do filme não deixaram espaço para a co-autoria do leitor ou expectador.
O leitor Teotônio rebate as “críticas idiotas e antipáticas” de um certo crítico que condena “a tutela exagerada” de Saramago (parece-me que no livro “Claraboia”; mas não sei, ainda não li), confinando a trama à necessidade de total clareza. Isso, de acordo com o crítico, afasta as dúvidas que fazem a boa literatura, sobrevindo como consequência imediata “não se dar ao leitor a chance de co-autoria na história, uma das regras ficcionais importantes para uma fruição mais rica da leitura e, de resto, um prazer rápido; livro para ser lido no metrô”. Para Teotônio, isso não passa de outra heresia idiota. E mais ele diz: “Essa peste contaminou a mente de quem escreve hoje em dia, escritor ou crítico. Por isso tem tanto escritor tutelado por essa onda, escrevendo coisas ruins ou péssimas e achando que estão abafando. Até na poesia: dá raiva ler aquelas imagens desconexas e sem rumo na maioria dos poetas mais jovens de hoje.”
Ainda no ano passado, o escritor e jornalista José Castello publicou, no blog “A literatura na poltrona”, o texto “Mensagem a leitores assassinos”, questionando em que medida os leitores destroem a reputação de um livro, via de leituras apressadas, indiferentes, superficiais. Castello reporta o capítulo LXXI (“O senão do livro”) das “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, em que este fala por meio de seu próprio personagem: “O maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…”
Uma mensagem, segundo José Castello, que atinge em cheio o peito engravatado — ou decotado — do leitor contemporâneo, para quem, em um mundo de imagens, as palavras devem ser como flashes, e mais nada, porque o leitor não dispõe de tempo nem de paciência. “Memórias Póstumas” foi publicado em 1880, há 131 anos, e Castello, a par com Brás Cubas, remonta a questão, a saber se o problema do assassinato de livros não está nos leitores, tantas vezes apressados e pragmáticos. Ah, vamos, acrescente-se aí a preguiça mental, própria de gente inculta.
Por outro lado, só para constar, um outro escritor e crítico literário, este em São Paulo, me escreve destacando o mutirão editorial em Goiânia e a excelência de alguns autores goianos. Ressalta “a negligência ou o solene e criminoso silêncio do eixo Rio-São Paulo, que não repercute a formidável política cultural goiana de valorizar o escritor da terra — e não são poucos; e não devem nada a tantos por aí, incensados pela mídia homogênea, pelo mercado, pelas igrejas acadêmicas, pelas panelinhas universitárias, jogando holofotes sobre mediocridades muitas vezes questionáveis”. Isso vale para alguns babacas que ficam aí a denegrir a literatura de Goiás, sem avaliá-la de forma honesta, com vagar e competência, em seus múltiplos aspectos, e sem a baixeza idiossincrática de inconfessas razões.

Mas, sim, o bendito programa de leitura para 2012. Como eu disse, não o tenho preestabelecido, e com isso não me preocupo. Entre uns e outros, entrei o ano lendo um pouco de tudo, e acabo de adquirir as 1500 páginas da obra “A Grande Guerra pela Civilização — A Conquista do Oriente Médio”, de Robert Fisk, do qual li as primeiras 40 páginas e vou continuar lendo, por conta do meu interesse e agrado. Robert Fisk, como correspondente do jornal britânico “The Independent” no Oriente Médio, é apontado como um dos melhores repórteres de sua geração e correspondente de guerra sem concorrente, detentor de mais prêmios jornalísticos do que qualquer outro correspondente internacional. Misto de relato de guerra e memórias, seu livro é destacado como obra-prima da aventura e da tragédia, amenizada por observações de humor e compaixão.
Prosseguirei com “2666”, de Roberto Bolaño, que comecei a ler em dezembro passado e ainda estou na página 365, quase na metade de suas 850 páginas. Também estou lendo e vou em frente com “A Casa Soturna”, de Charles Dickens, este também com 800 páginas, e devo avançar um pouco mais com “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, que adquiri em 2011, e são apenas 1.270 páginas. Não sei até onde vou com tudo isso e algo mais (outros livros), neste ano, além de cuidar de minhas próprias e imperfeitas obras literárias, algumas em andamento, outras já publicadas e exigindo reparos. Pretendo ler o que tenho comigo mas ainda não li de Samuel Beckett (de 13 livros dele em meu poder, li apenas cinco); pretendo prosseguir de onde parei com Flaubert, Proust, Kafka, Dostoiévski; pretendo pegar um pouco mais de Machado de Assis. Ainda tenho que começar a ler os quatro volumes de “O Quarteto de Alexandria”, de Lawrence Durrell, do qual li os cinco volumeas de “O Quinteto de Avignon”. Sigo em frente com “Seria Uma Sombria Noite Secreta”, romance de Raimundo Carrero, e com “O Remorso de Baltazar Serapião”, do angolano Valter Hugo Mãe, vencedor, em 2007, do Prêmio Literário José Saramago; livro este elogiado pelo próprio Saramago.
Tenho para ler mais alguns livros de Carson McCullers, que aprecio, desde os anos 70, juntamente com Katherine Anne Porter e Willa Cather. Dos goianos, comecei a ler e vou avante com os romances “Naqueles Morros, Depois da Chuva”, de Edival Lourenço, e “Vasto Mundo”, de Alaor Barbosa, além da novela “Gárgula”, de Delermando Vieira. Aliás, Alaor e Delermando são dois dos escritores goianos a mim elencados como “excelentes” pelo crítico em São Paulo. Leio os contos do livro “O Suicídio do Véi Chico”, do amigo Dionísio Machado, pela Coleção Goiânia em Prosa e Verso, alentado projeto da Prefeitura Municipal, e tenho para ler vários outros desta mesma coleção. Leio muito e de forma lenta, não me apresso.
Em vias de leitura e algumas já iniciadas, acumulo obras de estudos críticos como “Literatura e Guerra”, vários autores, organizado por Elcio Cornelsen e Tom Burns; “O Livro da Metaficção”, de Gustavo Bernardo; “Da Fabricação de Monstros”, vários autores, organizado por Julio Jeha e Lyslei Nascimento; “Clarice,”, de Benjamin Moser; “A Verdade da Poesia”, de Michael Hamburger, e outros mais. Acabo de receber do cearense Nilto Maciel, meu amigo, o livro de contos “Luz Vermelha Que se Azula”, e vou lê-lo, como já estou lendo os poemas de “O Sol nas Feridas”, recém-chegados a mim, do amigo Ronaldo Cagiano, natural de Cataguases (MG), conterrâneo de Luiz Ruffato, ambos produzindo boa literatura. O amigo Francisco Perna Filho (Chico Perna), poeta, escritor e mestre em Literatura, que retorna do Uruguai, me trouxe “El Oficio de Narrar”, antologia de contos, iconografia e entrevistas com autores uruguaios, concedidas ao jornalista cultural Nelson Díaz. Uma espécie de cartografia em andamento do que por lá se produz no gênero. E paro por aqui, pois, se eu continuar, não paro mais.
Valdivino Braz é escritor e jornalista.
Douglas Adams, Umberto Eco, Philip Roth e Elias Canetti
Ademir Luiz
Especial pra o Jornal Opção
Considerando que o mundo vai acabar dia 21 de dezembro, as leituras realizadas ao longo do ano serão equivalentes a última refeição de um hóspede da Milha Verde. É ler agora ou não ler nunca. Isso para quem não está preparado. Imagino que nossas sábias autoridades vão resguardar exemplares das obras clássicas da Literatura Universal em um bunker antiatômico, deixando-as disponíveis para os eventuais sobreviventes da catástrofe. Pretendo ser um deles e, para garantir isso, já estou lendo o supremo manual de postura, ação e reação em crises, o “Protocolo Bluehand”, escrito pelos estrategistas Spohr, Ottoni e Pazos. Resguardado, vou focar meus esforços de leitura em certos fetiches pessoais, deixando a obrigação para depois do Armageddon.
Falando em fim do mundo, pretendo fechar a “trilogia de quatro livros” lendo “Praticamente Inofensiva”, o quinto volume da série “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de Douglas Adams, o mestre do humor negro filosófico de ficção-científica. Se é para ver a Terra destruída, que seja de um modo engraçado e inteligente. De preferência demolida por uma armada Vogon.
Em seguida, quero ler “O Cemitério de Praga”, mais recente romance de Umberto Eco. Intelectual e crítico respeitadíssimo, talvez esse livro represente sua última chance como literato. Depois de escrever duas obras-primas em sequência, “O Nome da Rosa” e “O Pêndulo de Foucault”, seguido de um livro mediano, “A Ilha do Dia Anterior”, e dois fracos, “Baudolino” e “A Misteriosa Chama da Rainha Loana”, esse “cemitério” pode enterrar de vez suas pretensões artísticas, torná-lo definitivamente um zumbi literário ou ressuscitá-lo para o cânone. Faço votos, em nome dos velhos tempos, que a última opção se cumpra. Caso contrário, Umberto Eco corre o risco de se tornar o Didi das letras internacionais. Um artista que flertou com o gênio, tornou-se burocrático, depois dispensável e, por fim, vexatório.
Falando sobre o lugar onde lemos na entrada “nós que aqui estamos, por vós esperamos”, pretendo conhecer um pouco mais a obra de três romancistas contemporâneos falecidos. Do holandês Thomas Bernhard tenho separado “Extinção”, da irlandesa Iris Murdoch adquiri “Os Olhos da Aranha” e do búlgaro-britânico-suíço Elias Canetti providenciarei sua trilogia autobiográfica formado por “A Língua Absolvida”, “Uma Luz em Meu Ou-vido” e “O Jogo dos Olhos”.
De autores vivos lerei ainda “Patrimônio”, de Philip Roth, o homem mais inteligente que Paulo Francis conheceu, e que deveria ganhar o Nobel antes do fim da civilização e da Academia Sueca, não necessariamente nessa ordem. Fiquei muito impressionado com o escritor alemão Hans-Ulrich Treichel quando li o romance “O Acorde de Tristão”. Este ano pretendo ler sua estréia em prosa: “O Perdido”.

Sou um entusiasta do gênero conto. Desde que li o magnífico “Cartas de Aniversário”, onde o poeta Ted Hughes reflete sobre sua relação com Sylvia Plath, tenho curiosidade em conhecer suas narrativas curtas, publicadas na coletânea “Dificuldades de um Noivo”. Para não dizerem que sou um bárbaro completo, desligado de nossa tradição erudita, pretendo ler o clássico “Judas Iscariotes e Outras Histórias”, do russo Leonid Andreiév, mas com um confesso objetivo escuso: pesquisar para meu infindável work in progress, um livro sobre o Jesus histórico.
Ainda a propósito de contos, ao longo de 2011 li e reli dezenas de livros de autores goianos em função de uma antologia que estou organizando ao lado do crítico Carlos Augusto Silva e do pós-doutor em Literatura Brasileira Ewerton Freitas, a partir de uma ideia de Miguel Jorge. Os trabalhos de seleção devem terminar em fevereiro e até lá mais alguns conterrâneos devem ser apreciados.
Não posso esquecer-me de dar uma olhada rápida nas páginas do Apocalipse Bíblico. Se, por acaso, João Evangelista foi mesmo um grande profeta e não um esquizofrênico, pode ter ali algumas dicas interessantes sobre como será o dia em que o chão do cemitério de Praga vai se abrir e aqueles que lá estão virão ao encontro dos que aqui estarão; ou não.
Ademir Luiz é doutor em História e autor do romance “Hirudo Medicinallis”.
Leyla Perrone Moisés, Virginia Woolf, Ronaldo Cagiano e Hélverton Baiano

Geraldo Lima
Especial pra o Jornal Opção
Já separei alguns livros para iniciar meu processo de leitura em 2012. Alguns são, na verdade, releituras que venho adiando há tempos. Dentre essas releituras está “Falência da Crítica”, de Leyla Perrone Moisés, e “Tratado Político”, de Spinoza.
O livro de Leyla Perrone Moisés, “Falência da Crítica”, tem como objeto de estudo a impotência ou limitação da crítica literária diante do novo, do estranho, do que escapa à categorização. Assim, nesse livro publicado em 1973 pela Editora Perspectiva, dentro da série debates, ela mostra, de modo primoroso, como a crítica, ao longo do tempo, tem se debatido na tentativa de enquadrar numa determinada categoria o livro “Cantos de Maldoror”, de Lautréamont. Tentativa que, como pode se imaginar, costuma fracassar sempre. Fracassar e cometer equívocos, como o faz Alfred Sircos, diretor do jornal “La Jeunesse”, o primeiro a escrever algo sobre o livro de Lautréamont. Ele, apesar de reconhecer a originalidade da obra, enxerga nela defeitos e incorreções de estilo. Não pôde ver que esses defeitos e incorreções de estilo são, na verdade, a marca de originalidade dos “Cantos de Maldoror”, aquilo que provoca o estranhamento durante a leitura. Como diz a autora de “Falência da Crítica”, “Uma obra como a de Lautréamont obriga a que se reformule o próprio conceito de crítica literária, e que se revejam o papel e a função do crítico”. Já o “Tratado Político”, de Baruch Spinoza (Ícone Editora, 1994), faz-nos refletir, de modo bem equilibrado, sobre o esforço racional que se deve empreender na tentativa de se construir um Estado em que reine a paz, sendo necessário, para tanto, que cada indivíduo abra mão do seu direito natural. Gosto do modo como Spinoza trata da relação Deus e Homem; o seu panteísmo acende em mim a esperança de que ainda poderei recuperar minha capacidade de crer na divindade.
No meu processo de primeira leitura que se dará este ano, entram os seguintes livros: “As Comédias”, de Plauto, “Sapituca no Furdunço”, de Hélverton Baiano, “O Sol nas Feridas”, de Ronaldo Cagiano, e “Uma Casa Assombrada”, de Virginia Woolf.
Depois da leitura das comédias de Maria Carmem Barbosa e Miguel Falabella, publicadas no volume “Querido Mundo e Outras Peças” (Lacerda Editores, 2003), parto agora para as peças do comediógrafo latino Plauto (250–184 a.C.). O volume que tenho em mãos traz seis das suas comédias, consideradas realmente de sua autoria (“O cabo”, “Caruncho”, Os menecmos”, “Os prisioneiros”, “O soldado fanfarrão”), e foi publicado pela Cultrix (não consta o ano de publicação).
Encontrei essa raridade de edição, cujos textos foram traduzidos direto do latim por Jaime Bruna, num sebo em Salvador, bem à beira-mar no Farol da Barra. Que esse herdeiro da Comédia Nova do teatro grego dos séculos IV e III a.C. me propicie, com seus quiproquós, momentos de riso e descontração. Tento, com a leitura de tantas comédias, abrandar um pouco em mim a propensão para a tragédia. Vem na esteira da tentativa de aliviar um pouco a tensão do dia a dia, com o auxílio do riso, a leitura das crônicas de Hélverton Baiano, publicadas no livro “Sapituca no Furdunço” (Editora Kepls/Puc Goiás, 2011). Gosto do modo escrachado com que Hélverton trata os seus temas. Nos seus textos, a linguagem e a caracterização dos tipos interioranos trabalham no sentido de arrancar o riso ao mais carrancudo dos leitores. Um tal John Pehca Mynôso dos Santos escreveu na orelha do livro: “A linguagem escalafobética e as histórias de cachorro doido deste estupendo Hélverton Baiano, em “Sapituca no Furdunço”, atiçam na gente um furor prostático e ultrauterino como o que dá quando a gente sente vontade de comer bolo de arroz de Nicinha.” E por aí vai a irreverência do rapaz. Daí então, do meio dessa galhofa toda, saltarei para a poesia de Ronaldo Cagiano. Nada de riso nesse caso.
Cagiano costuma tratar os seus temas de modo duro e sem fazer concessões. É crítico ferino da mediocridade existencial e das injustiças sociais. Seu discurso costuma ser tenso e marcado por um lirismo angustiado. O livro do autor mineiro que lerei ainda no primeiro semestre de 2012 é o recém-publicado “O Sol nas Feridas” (Dobra Literatura, 2011). Pelo título já é possível prever a carga dramática da sua poesia. Da poesia, planejo passar à prosa de Virginia Woolf. Como conheço pouco da sua obra, aventuro-me agora na leitura de alguns dos seus contos publicados na coletânea “Uma Casa Assombrada” (Editora Nova Fronteira, 1984). O que sei é que a seleção desses contos foi feita, a princípio, pela própria autora, remanejando contos do seu único livro publicado no gênero, “Monday or Tuestay” (1921), e incorporando outros publicados em jornais e revistas. Essa seleção de contos foi publicada por Leonard Woolf, após a morte da autora inglesa.

Há dois escritores brasileiros de cuja obra só há pouco tempo tomei conhecimento. Trata-se de Nilto Maciel e de Claudio Parreira.
Durante a década de oitenta ouvi falar de Nilto Maciel, que, à época, vivia em Brasília. Nunca nos encontramos por aqui.
Tampouco tive a sorte de esbarrar com suas narrativas. Agora, vivendo em Fortaleza, sua obra chega até mim. Foi através do seu blog “Literatura sem Fronteiras” que cheguei aos seus textos, mais precisamente aos seus contos.
Posso afirmar que são o que de melhor se produz em termos de ficção hoje no Brasil. E olha que Nilto vem produzindo há tempo. É, sem dúvida, senhor do seu ofício. Só não é conhecido por um público leitor maior por causa dessas distorções que a ideia de mercado produz. Mas, pouco a pouco, ele vai reunindo em torno de si um grupo seleto de admiradores. Pessoas que se sentem cativadas pelo modo irreverente com que ele conduz a narrativa, pelo humor, pela inteligência e pelo olhar crítico que lança sobre a realidade. Sua prosa vai, às vezes, na direção do fantástico, do absurdo, mas guardando sempre os matizes da região em que vive, no caso, o Nordeste. Já li os seus contos reunidos em dois volumes publicados pela Editora Bestiário. Tenho agora em mãos o seu belo livro “Os Guerreiros de Monte-Mor” (Armazém da Cultura, 2011). É ele que planejo ler ainda neste primeiro semestre. A orelha do livro é de Nelly Novaes Coelho, e são suas estas palavras: “Novela que faz ri e que dói, ‘Os Guerreiros de Monte-Mor’, entre outras verdades contundentes, denuncia a injustiça social profundamente arraigada na realidade do povo brasileiro (incluindo descendentes de qualquer raça).” Mais recentemente, Nilto Maciel tornou-se um colaborador fixo do site “O Bule”, postando, todo dia 25, um conto do livro “Luz Vermelha Que se Azula”.
Claudio Parreira é ex-colunista do site “O Bule”, e foi lá que tomei conhecimento da sua prosa. Assim como a narrativa de Nilto Maciel, a de Parreira, que já foi colaborador da revista “Bundas”, do “Pasquim”, da “Caros Amigos”, prima pela irreverência, pelo nonsense e pelo flerte com o fantástico e o absurdo. O que se destaca aí é a imaginação, a fantasia sem freios. A sua narrativa é ágil, sem firulas, e é por aí que fisga o leitor. Estou aguardando chegar às minhas mãos o seu romance “Gabriel”, publicado em 2011 pela Editora Draco, para colocá-lo na fila dos livros que pretendo ler este ano.
O que se diz sobre o livro do escritor e jornalista Claudio Parreira é isto: “Tendo como companheiros um ex-poeta bêbado e filosófico, uma mocinha nada virtuosa e centenas de retratos de Marilyn Monroe, o leitor descobrirá em ‘Gabriel’, romance de Claudio Parreira, que nem tudo é o que parece, que o Sagrado muitas vezes veste as calcinhas do Profano e que o pecado, nem sempre, conduz ao inferno.” Vale o mergulho nesse universo de pura irreverência.
Para começar, creio que está de bom tamanho. Outros livros entrarão na roda de leitura, mas aí já é outra história.
Geraldo Lima é professor, escritor e dramaturgo.
A lista permanente

J. C. Guimarães
Especial para o Jornal Opção
Em “O Leitor Fingido”, Flávio Carneiro sugere: “um dos princípios da arte de não ler, penso eu, é saber de antemão que você jamais conseguirá ler tudo.” Para os aficionados em literatura não é fácil admitir que o escritor está certo, não porque tenham a ilusão do contrário, mas porque gostariam de ter... Mas, tudo? Na verdade, não: leitores exigentes — aqueles que apreciam as qualidades estéticas de uma obra e só se interessam pelo que ela acrescenta de sabedoria autêntica às nossas vidas — não querem ler tudo o que os editores oferecem. Todo o tempo de que dispõem, normalmente escasso, para os livros, não seria jamais sacrificado com textos de autoajuda e best-sellers de segunda e terceira categorias, refugo para o consumo das massas. Mas “tudo” é tanto que inclui muitos livros e autores dignos de serem lidos que, contra nossa vontade, apesar dos pesares, passarão em branco, ou melhor: passaremos em branco diante da sua oferta tantalizadora.
Eu sinceramente não sei, por exemplo, se algum dia vou ler V. S. Naipaul ou Salman Rushdie, mas sei que são grandes escritores do nosso tempo. Apenas não constam de minhas prioridades, ainda, e pode ser que os postergue para sempre: se não lê-los, ficará a certeza de que perdi algo de autêntico valor literário.
Eu lastimo as coisas que gostaria de ler e não consigo. Frequento menos do que gostaria as livrarias, bibliotecas e sebos, mas quando vou até um desses lugares invade-me um misto de felicidade e frustração. Um dos primeiros contos que ensaiei, e que se perdeu, tratava da vertigem do conhecimento, cujo melhor símbolo é a biblioteca, não importa se real ou virtual. O personagem entra naquele repositório do infinito e tem a dimensão exata de sua capacidade diante do que a humanidade já produziu de conhecimento: uma quantidade ironicamente sobre-humana. Ele, o personagem, imagina, tenta imaginar, quantos livros a mais são publicados a cada dia e, angustiado, resolve sair dali. Está certo de que morrerá sem ter a satisfação de deslindar páginas e mais páginas de rara beleza, sem contar as de teor puramente científico, filosófico. Resigna-se. Não se pode ler tudo o que se gostaria, infelizmente.
Não sou uma figura excepcionalmente dedicada nem disponível; meu tempo é bastante escasso, e muito do que leio é esparso, fragmentário mesmo: fragmentário como um livrinho que li recentemente, “Formas Breves”, do argentino Roberto Piglia. Consumido pelas tarefas do cotidiano, nem sequer consegui concluir a leitura exigente e exaustiva de “Dom Quixote” — o que eu chamo de um clássico dos clássicos. Eu o estou lendo, a primeira vez, há vários anos! Tenho feito anotações a respeito que talvez nunca cumprirão a promessa de tornarem-se um texto sistemático. Então me recordo do primeiro mandamento da arte de não ler, de Flávio: “não hás de consumir toda a biblioteca”, isto é, não hás de endoidecer como Alonso Quijano. O que quer dizer é que hás de ter um critério de exclusão e de seleção.

Chegamos nesse ponto a outra discussão polêmica: a das listas literárias.
Acredito na função pragmática das listas pessoais (como tal, o critério é parcialmente subjetivo) e tenho em vista conhecer pelo menos uma obra dos nomes mais importantes da história da literatura brasileira, não necessariamente tudo, esse ano. A relação abaixo é a mais óbvia possível, e vai do Padre Antonio Vieira até meados do século passado, com o prejuízo de um ou de outro nome que guardo na memória, mas não julgo imprescindível e posso, futuramente, acrescentar ao rol. O objetivo dessa biblioteca “particular” é expor uma síntese evolutiva das principais tendências estéticas no Brasil, de modo a constituir um panorama razoável de nossa produção:
Padre Antônio Vieira, “Os Sermões”;
Joaquim Manoel de Macedo, “A Moreninha”;
Manuel Antônio de Almeida, “Memórias de um Sargento de Milícias”;
José de Alencar, “Senhora”;
Bernardo Guimarães, “O Ermitão do Muquém”;
Machado de Assis, “Memórias Póstumas de Brás”;
Raul Pompéia, “O Ateneu”;
Aluízio de Azevedo, “O Cortiço”;
Coelho Neto, “Inverno em Flor” ou “A Conquista”;
Simões Lopes Neto, a definir;
Hugo de Carvalho Ramos, “Tropas e Boiadas”;
Monteiro Lobato, “Urupês”;
Euclides da Cunha, “Os Sertões”;
Lima Barreto, “Triste Fim de Policarpo Quaresma”;
Graça Aranha, “Canaã”;
Mário de Andrade, “Macunaíma”;
Oswald de Andrade, “Serafim Ponte Grande”;
José Américo de Almeida, “A Bagaceira”;
José Lins do Rego, “Fogo Morto”;
Graciliano Ramos, “São Bernardo”;
Marques Rebelo, a definir;
Lúcio Cardoso, “Crônicas da Casa Assassinada”;
Clarice Lispector, “Perto do Coração Selvagem;
Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”.
Esta relação é o que há de fundamental, segundo o consenso da crítica, no período referido. Na verdade, já li quase um terço dessas obras. Meu método consiste em, vencida a primeira etapa, reiniciar o processo (2013? 14?...) com um segundo livro de cada autor: de Alencar, por exemplo, seria justificável continuar com “O Guarani” e depois “O Sertanejo”; de Machado “Dom Casmurro”; de Graciliano “Vidas Secas”. Obras de valor mais histórico do que propriamente literário — “O Pescador”, de Teixeira e Sousa, por exemplo, que se trata do primeiro romance nacional (1843) — não entram como prioridade, para mim, ainda que, cumprido meu objetivo inicial, eu tenha interesse em conhecê-las, descendo até as nossas origens, aos textos dos primeiros viajantes e cronistas.
Percebe-se claramente que minha preferência é pela prosa, especificamente pelo romance. Não é negligência: tem a ver com meus projetos pessoais. Quando se lê um autor como António Lobo Antunes fica evidente que a poesia pode ser crucial para o sucesso “narrativo”, e quando se fala de Lobo Antunes se fala de literatura estrangeira. Já essas listas ficam para a próxima oportunidade, muito embora se deva adiantar: também nesses dois territórios, quase não há mistério sobre o que está acima.
J. C. Guimarães é historiador.