No mundo das artes não há limites para criatividade e a imaginação. A obra “Comedian”, uma banana na parede com fita prateada, de Maurício Cattelan, foi vendida por impressionantes US$ 6,2 milhões, em 2025. No mesmo leilão, uma tela de Picasso, na fase cubista, saiu por menos de US$ 5 milhões. Isso quer dizer que o mundo enlouqueceu e uma banana tem valor de mercado superior a um Picasso? Claro que não. Foi o inusitado que chamou a atenção dos colecionadores cada vez mais seletivos em busca do fora do comum no circuito das artes. Há tempos que o mercado foi tomado por imagens que já não provocam tanto estímulo como o cubismo de Picasso, que desconstruiu a realidade e revolucionou a arte moderna no início do século XX.

No século XXI, a arte chegou ao limite da percepção quando surgiram os primeiros trabalhos de artistas que exploram a linha entre o visível e o invisível. Foi um convite ao espectador para uma viagem ainda mais profunda através do simples ato de olhar. Assim surgiu o conceito da arte conceitual, um nicho, ainda inexplorado, que muitas vezes sofre preconceito tanto dos artistas como amantes da arte.

Obras invisíveis ou imateriais marcam a ideia de arte conceitual. Através delas, seus criadores tentam mostrar, pelo nada, que a ausência de algo também é arte. Quando expostas, elas sempre provocam surpresas e discussões. Por isso, vários trabalhos, às vezes um tanto controversos, e calcados em uma ideia de conceitualismo, sempre levantam polêmicas e questionamentos.

Foi assim em 2021, quando o artista italiano Salvatore Garau instalou, numa praça, em Milão, uma escultura invisível que chamou de “Buda em Contemplação”. De acordo com ele, a estátua do Buda estava posicionada sobre um quadrado demarcado no chão com fita adesiva. Aparentemente, ninguém conseguiu enxergar a escultura, mas o artista garantia que ela estava lá. Garau viralizou. No mundo inteiro, bem ou mal, só se falava dele e de sua arte imaterial. Alguns meses depois, o artista italiano voltou à cena, dessa vez em Nova York, onde instalou, em frente à Bolsa de Valores, outra escultura: “O Choro de Afrodite”.

Ao contrário de Milão, em Nova York teve gente que se emocionou com as lágrimas da deusa Grega que representa a beleza e o amor. Teve muita gente que até chorou com ela. Foi nos Estados Unidos que Salvatore acabou se tornando referência mundial em arte conceitual, após o leilão da sua primeira obra: “Lo Sono” (Eu sou), arrematada por 90 mil reais. O comprador recebeu um certificado de autenticidade que atesta sua existência. E para transportá-la de Nova York à São Francisco, o artista, cliente e uma empresa de transportes de cargas tiveram que elaborar um plano logístico para garantir que a obra, nada convencional, pudesse chegar intacta ao seu destino.

Hoje, “Lo Sono” está instalada bem na entrada da mansão de um ator de Hollywood, que não teve o nome revelado porque teme que a escultura invisível possa ser roubada. Na época, Salvatore foi questionado sobre vender o “nada”. Ele respondeu dizendo que “não foi o nada que foi vendido, mas o próprio vácuo.”

O italiano enxerga o vácuo como um espaço repleto de energia e potencial criativo, e vê no vazio, a possibilidade de criação. Ele ainda justifica que o invisível carrega partículas que podem se transformadas em matéria. “A escultura é feita de ar e de espírito. E sua existência depende da capacidade de cada um de nós em conceber o invisível.”

Ah, lembra da banana na parede? Pois é! Ao levar pra casa a obra de arte milionária, o empresário coreano que comprou a fruta e prometeu comê-la, cumpriu a promessa num evento patrocinado por ele, num hotel de luxo, em Hong Kong, que estava repleto de jornalistas e influenciadores. Diante da plateia, Justin Sun comeu a banana mais cara do mundo e ainda disse: “Ela estava muito saborosa”.