Em junho de 2026, o desaparecimento do garoto Marco Aurélio Simon, de 15 anos na época, marca os 41 anos em que a família vive sem um fechamento de sua história.

O caso foi emblemático no território paulista e moveu uma das maiores buscas já registradas no país. As investigações seguiram até a década de 1990 para encontrar os motivos que levaram ao desaparecimento do menino em meados de uma trilha na mata atlântica.

A história começou em 8 de junho de 1985, quando Marco Aurélio participava de uma trilha no Pico dos Marins, na Serra da Mantiqueira, junto de um grupo escoteiro. Durante o retorno, o adolescente teria sido orientado a seguir sozinho por uma trilha considerada mais fácil, enquanto o restante do grupo utilizaria outro caminho. O garoto nunca mais foi visto.

Marco Aurélio Simon, desapareceu aos 15 anos | Foto: Reprodução

As buscas mobilizaram bombeiros, policiais, mateiros e voluntários por semanas em uma operação considerada inédita para a época. Mesmo assim, nenhum vestígio concreto foi encontrado. Ao longo dos anos, hipóteses de acidente, sequestro e até homicídio foram investigadas, especialmente envolvendo o então líder escoteiro espanhol Juan Bernabeu Céspedes. Contudo, a Polícia Civil de São Paulo arquivou o caso sem indiciar ou acusar formalmente qualquer suspeito.

O caso também ganhou notoriedade quando a revista brasileira Go Outside elegeu o desaparecimento em terceiro lugar na lista dos principais mistérios da história moderna no Brasil.

Em 2021, duas novas frentes levaram a Polícia Civil de São Paulo (PCSP) a reabrir o processo e continuar as buscas. Neste caso, varreduras por drones utilizando tecnologia de penetração do solo tentaram encontrar restos mortais do jovem na região em que ele desapareceu. Contudo, após dois anos de investigação, não foram localizados vestígios ou novas pistas do caso.

O caso segue ainda “em aberto”, mesmo o processo tendo sido arquivado e reaberto pelo menos duas vezes ao longo das investigações.

Em razão deste caso tumultuado, a Globo Play lançou na última terça-feira, 12, uma série documental dedicada ao tema com o nome de Pico dos Marins: O Caso do Escoteiro Marco Aurélio. Até o momento, apenas três episódios estão disponíveis, com previsão de lançamento dos outros cinco episódios nas próximas semanas.

Caso Leandro Bossi

Contudo, o caso Marco Aurélio não é o primeiro ou último a não ser solucionado no Brasil envolvendo crianças.

Um dos casos mais emblemáticos, junto ao de Marco Aurélio, pertence aos meninos Evandro Ramos Caetano e Leandro Bossi, desaparecidos com meses de diferença na cidade de Guaratuba, no Paraná. O caso mobilizou a imprensa nacional, tendo em vista que um total de 28 crianças desapareceram entre as décadas de 1980 e 1990 no estado.

Leandro Bossi, desapareceu aos seis anos | Foto: Reprodução

O desaparecimento de Leandro ocorreu em fevereiro de 1992, quando o garoto de sete anos saiu para assistir ao show de Moraes Moreira com a sua família e sumiu repentinamente. Apesar de buscas intensas, nenhuma pista sólida surgiu, nem mesmo do corpo da criança, sendo confirmado apenas em 2022 por um exame cadavérico de DNA de um corpo que havia sido encontrado na época do crime. 

Devido ao grande intervalo de tempo, os pais de Leandro faleceram sem enterrar o filho. O irmão do pequeno, Lucas Bossi, afirmou à reportagem do UOL se sentir traído pela Justiça Brasileira. 

É um sentimento de traição, como se a gente não tivesse direito à Justiça. Toda verdade deveria ser revelada há 30 anos e fomos privados disso. Se era a ossada que existia naquele momento, o que impede de achar que esse exame de DNA de agora não está errado? Ficamos 30 anos sem enterrar o corpo, sem poder fazer algo com aquele saco que só tem ‘restinho’ dele. Meu pai faleceu sem saber disso, sem enterrar o Leandro. Estamos em um estado de choque.

Caso Evandro Caetano

Dois meses depois do caso de Leandro, em 6 de abril, Evandro, também de seis anos, desapareceu enquanto percorria o caminho para a escola sozinho pela primeira vez na vida. Dias depois, o corpo do menino foi encontrado mutilado em um matagal com órgão e partes do corpo faltando. O cadáver só foi reconhecido pela família por uma marca de nascença e roupas que acompanhavam o corpo. 

Evandro Ramos Caetano, desapareceu aos seis anos | Foto: Reprodução

A brutalidade do crime levou a polícia a sustentar a hipótese de um ritual satânico envolvendo pessoas influentes da cidade, como a primeira-dama e a filha do então prefeito. 

Com isso, sete suspeitos chegaram a ser presos e confessaram participação no crime. As confissões, obtidas sob tortura segundo revelações posteriores, deram origem ao apelido “Bruxas de Guaratuba”.

O caso se estendeu por mais de trinta anos, com decisões judiciais revisadas. Em 2023, parte das condenações foi anulada pelo Tribunal de Justiça do Paraná, reconhecendo irregularidades nos processos. Até hoje, não há consenso definitivo sobre os verdadeiros responsáveis pela morte de Evandro, enquanto o desaparecimento de Leandro foi solucionado apenas recentemente, mas nenhuma punição aos responsáveis.

Por isso, o legado dos casos é marcado por falhas na investigação policial, judicial e midiática pelo sensacionalismo utilizado pela imprensa na veiculação do caso. 

Caso Araceli Sánchez

Além de ambos os meninos, o assassinato da garota Araceli Crespo Sánchez, em 18 de maio de 1973, chocou a cidade de Serra e a capital do Espírito Santo, Vitória, quando a menina não retornou para casa após a escola.

Araceli Crespo Sánchez, desapareceu aos oito anos | Foto: Reprodução

Seis dias depois, o corpo da menina de oito anos foi encontrado carbonizado em um terreno baldio nos fundos do atual Hospital Infantil de Vitória. Exames periciais apontaram sinais de violência sexual, espancamento e uso de drogas antes da morte. 

O pai reconheceu o cadáver da menina no momento em que as forças de segurança encontraram o corpo, mas a polícia afirmou que o parente não estaria em estado psicológico para realizar o reconhecimento adequado. Um mês depois, exames da polícia científica constataram que o corpo se tratava de fato da pequena Araceli. 

Durante este período entre terem encontrado o cadáver e confirmado a identidade, a PCES não tinha provas concretas do caso e a cidade foi tomada por diversos boatos que apontavam para caminhos diferentes. 

As investigações apontaram suspeitas contra jovens de duas famílias influentes da elite capixaba: Paulo Constanteen Helal, conhecido como Paulinho, e Dante de Barros Michelini, conhecido como Dantinho. 

Apesar da repercussão nacional e da pressão popular, os acusados acabaram absolvidos por falta de provas em 1991, onze anos após serem condenados a 5 e 18 anos de reclusão, respectivamente. 

O caso nunca foi oficialmente solucionado e se tornou um símbolo nacional do combate à violência infantil. A data do desaparecimento da menina, 18 de maio, posteriormente deu origem ao Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual Infantil no Brasil. Na época, o caso transformou a violência sexual contra crianças em um debate público nacional no Brasil, algo raramente discutido abertamente na década de 1970.

Caso Lucas Terra

Já a história de Lucas Terra ganhou novos contornos em março de 2026. O assassinato do garoto de 14 anos mobilizou a Bahia no início dos anos 2000 após o adolescente desaparecer depois  participar de atividades em uma igreja em Salvador.

Dias depois, o corpo do jovem foi encontrado carbonizado em um terreno. Durante anos, a família acusou integrantes ligados à Igreja Universal do Reino de Deus de participação no crime. O caso passou por reviravoltas judiciais, anulações e novos depoimentos ao longo de mais de duas décadas.

Lucas Terra, desapareceu aos 14 anos | Foto: Reprodução

O caso ainda envolveu três nomes, sendo todos ligado à Igreja Universal do Reino de Deus. Os primeiros suspeitos foram Silvio Roberto Galiza e Joel Miranda, pastores da Igreja Universal à época do assassinato. 

Segundo depoimentos e peças do processo, eles teriam estado entre as últimas pessoas que tiveram contato com Lucas antes do desaparecimento do adolescente em março de 2001. Fernando Aparecido da Silva, o bispo da igreja, estava envolvido no caso, sendo acusado de ajudar a encobrir o crime e de obstrução das investigações.

O principal motivo apontado pelo assassinato tomou forma em um depoimento entregue por Galiza, que afirmou que o Terra ter visto os outros dois membros da igreja em ato sexual. Contudo, investigações policiais logo elucidaram que Galiza também fez parte do assassinato e do abuso do jovem. 

Galiza foi preso em 2012 quando a Justiça julgou o processo, já Fernando e Joel ficaram foragidos por anos para tentar escapar das condenações. O que seguiu foi mais de uma década de decisões judiciais, pedidos barrados por juízes, incluindo do Supremo Tribunal Federal (STF).

Em março de 2026, a condenação de ambos foi mantida, mas só veio 22 anos depois, durante júri realizado em abril de 2023. Ambos foram condenados a mais de 21 anos de prisão pela morte de Lucas Terra.

Caso bônus: Priscila Belfort

Outro desaparecimento emblemático que ocorreu no Brasil, embora não envolvesse uma criança, foi o de Priscila Belfort, irmã do ex-lutador Vitor Belfort. O caso aconteceu em 2004, no Rio de Janeiro, e também ganhou série documental recentemente com Volta Priscila.

Priscila Belfort, desapareceu aos 29 anos | Foto: Reprodução

Priscila, que tinha 29 anos, desapareceu após sair do trabalho no bairro do Centro. Imagens mostraram a jovem caminhando normalmente pouco antes de sumir sem deixar rastros. Ao longo das investigações, hipóteses envolvendo sequestro, assassinato e desaparecimento voluntário chegaram a ser cogitadas.

Apesar das buscas e da ampla exposição midiática, o corpo de Priscila nunca foi encontrado e ninguém foi responsabilizado criminalmente pelo desaparecimento. O caso permanece oficialmente sem solução mais de duas décadas depois.

Leia também: TCM-GO determina suspensão imediata do concurso da Câmara de Goiânia