Zacharias Calil destina R$ 1 milhão para financiamento de pesquisa sobre agrotóxicos

Estudo mostrou que agricultores expostos as substâncias demonstram até cinco vez mais danos no DNA. Deputado acredita que pesquisas podem favorecer uso racional das substâncias

Criticado por ter votado a favor da chamada PEC do Veneno, projeto aprovado pela Câmara Deputados que flexibiliza o uso de agrotóxicos, o deputado federal Zacharias Calil (União Brasil) se diz a favor do uso racional das substâncias e de pesquisas que favoreçam o desenvolvimento de defensivos menos nocivos à saúde e a utilização adequada desses produtos. Por isso, ele destinou mais de R$ 1 milhão para custear pesquisas na Universidade Federal de Goiás (UFG) sobre o impacto dos agrotóxicos em agricultores goianos.

“Eu não sou contra o agrotóxico. Eu sou contra é em relação a maneira indiscriminada que ele é utilizado, principalmente nos pequenos produtores, que não têm orientação, que não descartam o matéria de maneira adequada, que não devolvem as embalagens para onde deveriam ser devolvidas e utilizam às vezes as embalagens para pode alimentar o gado, as galinhas, regar as plantas, algo que contamina o solo. Há uma série de fatores em relação a isso e eu sou totalmente contra”, pondera. Um dos estudos financiados por meio de emenda parlamentar de Zacharias Calil é o desenvolvido pela professora associada da UFG, Daniela de Melo e Silva, que mostrou que a exposição a essas substâncias nocivas causam até cinco vezes mais danos no DNA dos agricultores.

“Eu achei tão interessante a pesquisa, que destinei emenda parlamentar para a universidade trabalhar nesse sentido. Eu estou muito empenhado nisso. Realmente as pessoas pensam que é uma incoerência, porque eu sou médico, mas não é”, justificou Zacharias Calil. Segundo ele, o problema do agrotóxico está mais relacionado a forma como o produto é utilizado do que à substância em si. A pesquisa da UFG, de acordo com o parlamentar, valida essa percepção.

Há 12 anos Daniela analisa o estilo de vida de agricultores goianos, aplicando questionários, coletando sangue e fazendo esfregaço de células bucais. O objetivo é descobrir qual o impacto que os agrotóxicos causam nesses trabalhadores. Nas análises, Daniela percebeu que os principais agrotóxicos utilizados em Goiás, são: herbicidas, inseticidas, glifosato, atrazina, 2,4-D, acefato, mancozeb e até o paraquat (que está proibido desde setembro do ano passado). A maioria desses agricultores não utilizam o Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) deixando-os mais expostos às substâncias nocivas. Com isso, o resultado dos exames coletados desses trabalhadores mostraram um resultado alarmante. “Nossos estudos demonstram até cinco vezes mais danos no DNA desses agricultores”, afirmou a pesquisadora.

Em outra análise feita pela pesquisadora, foi constatado um aumento de tumores em agricultores que se expõem em demasiado aos agrotóxicos. Realizada no Araújo Jorge, a pesquisa analisou 1000 prontuários, fazendo coleta de sangue para verificar regiões no DNA que podem aumentar o risco de aparecimento de tumores de cabeça e pescoço, hematológicos e gastrointestinais. Dentre os prontuários estudados, muitos são de trabalhadores rurais do Sudoeste goiano onde os cultivos de soja e milho são extensos. “As verbas destinadas pelo Dr. Calil são fundamentais para o avanço das pesquisas com agrotóxicos em trabalhadores rurais”, explica a pesquisadora.

O deputado destinou três emendas, que somam R$ 1.030 milhão, para as pesquisas com agrotóxicos e câncer da pesquisadora da UFG. Uma, no valor de R$ 500 mil, está na Secretaria Estadual de Saúde de Goiás (SES-GO) e será liberada via convênio com a UFG. Outra, no valor de 250 mil, será utilizada para o estudo das condições de saúde genética e imunológica de agricultores do Sudoeste Goiano. Essa pesquisa será realizada em parceria com a Michelle Rocha Parise, da Universidade Federal de Jataí.

A emenda no valor de 250 mil já está na UFG e está sendo gerenciada pela Fundação de Apoio à Pesquisa (Funape). Ela será utilizada para custeio de coletas de material genético dos lavradores e para a realização de ensaios genéticos, moleculares e imunológicos. A terceira emenda, no valor de 280 mil, está destinada para avaliação de risco para o câncer em agricultores. “Faremos o sequenciamento de regiões codantes do DNA em 100 agricultores goianos. Nosso intuito é encontrar regiões do DNA que sinalizam o que chamamos de “assinaturas de exposição”, ou seja, será que a exposição a agrotóxicos tem alvos no nosso DNA? Há genes que podem ser mais propensos a sofrer alterações que serão capazes de desencadear doenças crônicas como o câncer?”, explica Daniela.

Tal qual Zacharias, Daniela, Calil acredita que “a utilização de agrotóxicos é inevitável num país agropecuário como o Brasil e as pesquisas vão ajudar a encontrar a forma correta de utilizar esses recursos químicos no meio agrícola”. O deputado, que votou a favor da facilitação da aquisição de agrotóxicos (apelidada de PEC do Veneno), ressalta que quem aplica esses produtos precisa ser bem orientado. “Para mim, quem aplica esses produtos precisa ser bem orientado e fiscalizado através de uma política correta para evitar danos ao meio ambiente e à saúde. Foi com base essa visão que votei contra todos os destaques no Projeto de Lei 6.299/02 que flexibilizavam muito determinadas condições para o uso de agrotóxicos”, afirmou ao Jornal Opção.

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