Lá fora, a presidente Dilma manteve a pose diante dos desafios que recebeu de dois companheiros do seu primeiro escalão no governo ao partir de Brasília rumo à reunião do grupo G-20. Agora, de volta ao trabalho no Planalto, poderá se sentir mais à vontade para enfrentar as críticas do secretário-geral da Presi­dência, Gilberto Carvalho, e da ex-ministra Marta Suplicy.

Ambos contaram com a viagem da chefe para lançar seus desafios pelas costas. No mesmo dia, Carvalho, considerado olhos e ouvidos de Lula no Planalto, ofereceu a entrevista sobre falhas da chefe na liderança governo. No outro dia, terça-feira, Marta Suplicy, mandou entregar no palácio o seu pedido de demissão no Ministério da Cultura.

Dilma ainda não comentou as declarações de Carvalho, a quem costuma ignorar. Na verdade, ao assumir a vaga de Lula em 2011, a presidente manteve o secretário-geral distante de si o quanto foi possível precisamente por ser uma pessoa de Lula infiltrada no palácio para manter o ex-presidente informado sobre a intimidade palaciana.

Encarregado da articulação com os movimentos sociais, Carvalho censurou o desinteresse de Dilma pelas demanda dos movimentos. “A reforma agrária e a questão indígena avançaram pouco”, criticou. Afirmou que falta diálogo com a sociedade mais ampla, numa frase um tanto imprecisa: “Deixou de fazer da maneira tão intensa como era feito no tempo do Lula, esse diálogo de chamar os atores antes de tomar decisão, de ouvir com cuidado e ouvir muitos diferentes para produzir sínteses que contemplassem interesses diversos.”

O que mais chamou atenção foi o momento em que Carvalho se refe­riu à crise na economia e à dificuldade de Dilma em se entender com políticos:
— Afastou-se dos principais atores na economia e na política.

Apesar de tudo, o secretário disse que continuaria no governo se convidado a permanecer. “Preciso trabalhar, eu acumulei experiência”, justificou-se. “Se ela me convidar a ficar no governo, eu vou ficar”, arrematou, num gesto que se pode entender como desafio à demissão pela presidente. Carvalho confia na força junto a Lula.

As incertezas da economia foram também o ponto principal da carta de demissão de Marta Suplicy no Ministério da Cultura, com este parágrafo antológico, digno da melhor oposição ao governo: “Todos nós, brasileiros, desejamos, neste momento, que a senhora seja iluminada ao escolher sua nova equipe de trabalho, a começar por uma equipe econômica independente, experiente e comprovada, que resgate a confiança e credibilidade ao seu governo e que, acima de tudo, esteja comprometida com uma nova agenda de estabilidade e crescimento para o nosso país. Isto é o que hoje o Brasil, ansiosamente, aguarda e espera.”

Em entrevista sobre a carta, Dilma se mostrou compreensiva em Doha, capital de Qatar, a caminho da Austrália. “Ela não disse nada de errado”, sustentou. Afirmou que já conhecia o conteúdo da carta, que expressaria apenas a opinião da ex-ministra. Se tudo era natural e sabido assim, por que Suplicy mandou entregar a carta um dia depois da viagem da chefe?
Ambos, Carvalho e Suplicy, possuem dificuldade no relacionamento com a presidente porque abertamente jogam a favor de Lula. No primeiro semestre, a então ministra patrocinou três jantares, em São Paulo, para engrossar o movimento pela candidatura do ex no lugar da reeleição de Dilma neste ano.

Os dois mencionaram as dificuldades de Dilma lidar com a crise na economia que corrói a credibilidade do governo. Isso no momento em que Lula procura influenciar a escolha do ministro da Fazenda com alguma opção extraPT que traga confiança a uma nova política econômica. Mas a presidente não revela tendência a favor de uma nova linha econômica.

O bom desempenho do novo governo Dilma é importante à criação de ambiente favorável ao retorno de Lula ao Planalto dentro de quatro anos. Novas trombadas da presidente, entre tanta corrupção, não ajudam a permanência do PT no poder. Inclusive porque a denúncia do petrolão ganhou fôlego para deixar os escândalos em cartaz até a sucessão presidencial em 2018.